Ação gerou revolta entre praticantes, que denunciam intolerância religiosa e abuso de autoridade; policiais entraram no templo e apreenderam instrumentos considerados sagrados pela religião, sem apresentação de mandado judicial
Militares interromperam cerimônia religiosa, que acontece apenas uma vez ao ano, e levaram instrumentos para a delegacia (Reprodução/redes sociais)
A Polícia Militar do Amazonas interrompeu, noite do último sábado (26), uma cerimônia tradicional de Tambor de Mina realizada no templo AJIGBE Eira de mina jeje-nagô Nossa Senhora da Conceição, localizado no bairro Cidade Nova, na Zona Norte de Manaus. A ação ocorreu após denúncia de suposta perturbação do sossego, levando agentes até o local durante a realização do ritual, que acontece apenas uma vez ao ano.
Segundo relato da Iyanifa Mayara Araújo e do zelador Heriberto Sena Jr, o primeiro contato com os policiais ocorreu de forma respeitosa, quando foi explicado que se tratava de um culto protegido pela Constituição, sem uso de amplificação sonora, baseado apenas em tambores sagrados, xequerês e cantos litúrgicos. Os organizadores também informaram que a cerimônia já estava em fase final e que não poderia ser interrompida abruptamente devido às exigências religiosas do rito.
Apesar do diálogo inicial, a condução da ocorrência mudou quando outro policial assumiu a ação, adotando, segundo testemunhas, uma postura autoritária. De acordo com os relatos, houve afirmações de imposição de autoridade e ameaça de interromper o ritual, mesmo após os participantes reforçarem o direito constitucional à liberdade religiosa e o caráter laico do Estado brasileiro.
A situação se agravou com a chegada de um oficial superior, que, conforme a comunidade, passou a exigir o encerramento imediato da cerimônia sob ameaça de prisão. Ainda segundo os presentes, o sacerdote responsável tentou intermediar a situação, informando ser advogado regularmente inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil e que acompanharia juridicamente toda a ocorrência, mas teve sua manifestação desconsiderada pelas autoridades no local.
Na sequência, os policiais entraram no templo e apreenderam instrumentos considerados sagrados pela religião, sem apresentação de mandado judicial.
Equipe da PM invadiu o local sem mandado judicial, durante a realização da cerimônia religiosa
Integrantes da comunidade afirmam que os objetos foram manuseados de forma desrespeitosa, contrariando tradições que atribuem profundo significado espiritual aos tambores, o que teria causado grande indignação entre os participantes.
Instrumentos do Tambor de Mina foram levados para a delegacia
O caso foi encaminhado ao 6º Distrito Integrado de Polícia (DIP) e, conforme os relatos, os envolvidos ainda teriam sido submetidos a tratamento intimatório durante o trajeto e registro da ocorrência.
A comunidade afirma que a ação policial resultou em constrangimento coletivo, interrupção de prática religiosa e violação de direitos fundamentais, levantando denúncias de intolerância religiosa e racismo estrutural contra religiões de matriz africana.
Segundo Mayara Araújo, o delegado plantonista da Polícia Civil liberou os tambores, reconhecendo se tratarem apenas de instrumentos musicais, que não representavam perigo a ninguém.
A reportagem pediu um posicionamento da Polícia Militar a respeito da ocorrência e aguarda a resposta.
Tambores foram devolvidos pelo delegado plantonista da PC que atendeu o caso
O Tambor de Mina é uma religião afro-brasileira matriarcal originada no Maranhão e presente na região amazônica. É uma síntese das crenças das etnias da Costa da Mina com rituais ameríndios e catolicismo, focada na incorporação de entidades chamadas "Encantados