Capital amazonense tem apenas 44,8% das vias arborizadas e especialistas cobram plano de arborização para grandes avenidas
Árvores de oiti (Licania tomentosa) garantem sombra e redução de temperatura em trecho da avenida Getúlio Vargas, em Manaus (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)
Desde que a capital do Amazonas entrou no segundo semestre do ano, marcado pelo chamado verão amazônico, Manaus passa por recordes de dias mais quentes, sensações térmicas que beiram o insuportável e tendência de risco para a saúde de grupos mais vulneráveis, como idosos e crianças.
Especialistas defendem que boa parte desses efeitos negativos está associada ao baixo nível de arborização que a cidade apresenta, e isso não é de hoje.
Segundo o MapBiomas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Manaus é a capital que mais perdeu vegetação urbana nos últimos 20 anos.
Nos dados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o município é conhecido por ter uma baixa taxa de presença de árvores nas vias públicas: apenas 44,81%.
O estudo, realizado com dados de 2022, indica ainda que toda a região Norte do Brasil enfrenta esse problema de pouca cobertura de arborização. Rio Branco (AC), Macapá (AP), Porto Velho (RO) e Boa Vista (RR) — nenhuma dessas cidades atinge um percentual de 65% no índice. Em todo o país, há cerca de 59 milhões de brasileiros que vivem em áreas urbanas onde não há nenhuma árvore nas vias públicas.
Na capital do Amazonas, dois bairros se destacam como os mais arborizados, mesmo com o cenário geral negativo do ranking do Censo: são eles Tarumã, localizado na zona Oeste, e famoso por grandes refúgios naturais, sítios e condomínios integrados à mata nativa; e a Ponta Negra, na mesma região, que conta com arborização planejada na orla e proximidade de áreas de preservação e vegetação de bases militares.
Enquanto a cidade perde árvores, ganha asfalto. É claro que a infraestrutura das vias é essencial, mas, sem a vegetação, o solo vira uma espécie de forno, com diferença de 10 ºC no ar e temperatura da superfície que passa facilmente de 30 ºC.
O asfalto retém o calor, transfere parte dessa carga para o ar e demora muito tempo para esfriar. Já a árvore faz sombra (que impede que o sol bata direto no chão, baixando a temperatura da superfície), libera água no ar e filtra o calor.
A arquiteta Bianca Beatriz explicou que Manaus precisa de um plano para aumentar a presença da vegetação nas vias urbanas. Ela destaca a avenida Getúlio Vargas como um exemplo de sucesso. Por lá, as árvores de oiti promovem qualidade do ar, refresco e proteção física contra o sol. A espécie é nativa do Brasil, cresce de 8 a 15 metros de altura e é bastante conhecida por sua copa grande.
Arquiteta Bianca Beatriz defende planos-piloto de arborização em grandes avenidas da cidade (Foto: Paulo Bindá/A CRÍTICA)
A profissional acredita que é necessário que haja uma união entre arquitetos, urbanistas e engenheiros especializados na infraestrutura urbana. Assim, como classe, eles podem apresentar alternativas com projetos e pressionar por investimentos públicos que possam financiar as modificações propostas.
“Se a gente persistir neste tema, eu acredito em uma Manaus melhor, mais arborizada, onde as pessoas se sintam confortáveis em caminhar”, disse.
O Plano Diretor Urbano e Ambiental de Manaus, em conjunto com legislações complementares como o Código de Obras e o Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), estabelece regras rígidas para que obras públicas e privadas destinem espaço à vegetação. O foco é conter as ilhas de calor e criar um “escudo verde”.
Por regra, todo novo projeto de edificação ou loteamento deve reservar uma porcentagem do terreno para o chamado “solo permeável”. Trata-se de gramado ou árvores, e o índice varia conforme a zona urbana, limitando o quanto do lote pode ser totalmente asfaltado ou concretado.
O problema é que, na prática, essas áreas, especialmente em terrenos privados, como residências, ficam apenas no papel. Muitos proprietários não cumprem o que está previsto para economizar com a manutenção. Derrubar esse costume é uma das bandeiras defendidas pela arquiteta.