Em 2015, como acadêmica do curso de Filosofia, Diana Brasilis, 25, foi uma das protagonistas no processo de regulamentação no uso de nome social na Universidade Federal do Amazonas
(Diana concluiu a graduação em Filosofia e agora sonha com o futuro na pesquisa (Fotos: Evandro Seixas))
Diana Brasilis, mulher transexual e negra, de 25 anos, licenciada em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Foi assim que, na noite dessa quarta-feira (21), Diana resistiu, existiu e deixou de fazer parte de pelo menos duas estatísticas negativas que abrangem a população T. Ela não está mais entre os 90% de mulheres travestis e transexuais que têm a prostituição como única possibilidade de subsistência. Agora, ela tem o que muitas outras não tiveram: o poder de escolha.
Não que ela tenha precisado ou pensado na prostituição como única forma de gerar renda e sobrevivência. Mas a realidade dessas pessoas no Brasil faz com que mulheres trans sejam diretamente levadas a essas estatísticas, segundo o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017.
No auditório, Diana era apenas mais uma entre os 110 formandos com quem dividiu a formatura. Era mais uma entre os 350 na platéia, que a aplaudiram de pé. Mas para quem conhece a trajetória e a luta de uma mulher trans, ela representou muitas. Representou mulheres que deixaram a escola e desistiram de estudar, mulheres que morreram vítimas da transfobia, mulheres que nunca foram vistas e ouvidas.
Foto: Evandro Seixas
Mesmo com o auditório lotado, na noite em que se tornou a primeira mulher trans a formar tendo sua condição respeitada pela Ufam, Diana não esqueceu que o espaço também poderia ser de muitas outras. “Eu não posso dizer que eu estou completamente feliz. Por mim, eu estou. Mas hoje eu sou a única aqui. Poderiam ser muitas outras que não tiveram a oportunidade que eu tive”.
Foram seis anos na instituição, onde aprendeu sobre a própria condição, lutou pela representatividade e combateu a transfobia. No Trabalho de Conclusão do Curso (TCC), Diana falou sobre a perspectiva de gênero segundo Judith Butler, filósofa americana e uma das principais teóricas da questão contemporânea do feminismo, teoria queer, filosofia política e ética. A nota final foi de 9,5.
Outra estatística que Diana deixou para trás com a conclusão do curso foi a de que apenas 0,02% de pessoas trans tem acesso ao ensino superior - segundo dados do Projeto Além do Arco-Iris/AfroReggae. Agora, ela se soma aos 14% dos brasileiros que têm ensino superior, conforme apontou, em 2016, o Education at an Glace.
Para que mais travestis e transexuais cheguem à universidade, é preciso uma política de ações afirmativas. “Eu acho que a universidade pode, se quiser, abrir as portas para que possamos discutir tantas temáticas que nos dizem respeito. Mas é preciso políticas de inclusão”, ressaltou Diana Brasilis.
Foto: Evandro Seixas
Para Diana e tantas outras pessoas é importante, inclusive, que a população T deixe de estar no centro dos estudos acadêmicos e passe a ser protagonista desses estudos. No Brasil, diversas instituições, desde o ano passado, reservam cotas nos programas de pós-graduação. É o caso da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Universidade Federal do Sul Bahia (UFSBA), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Para o futuro, Diana tem brilho nos olhos e muitos planos. “Eu quero ser pesquisadora, engatar o mestrado e conseguir chegar no doutorado. Quero seguir os estudos na Ufam porque as linhas de pesquisa e os professores me agradam. Mas eu também quero ser professora de crianças. São muitas coisas para pensar agora”, desabafa.
Luta
No 2º período do curso, em 2012, ela começou o processo de transição. Em 2015, como acadêmica do curso de Filosofia, foi uma das protagonistas no processo de regulamentação do nome do uso social na Ufam. Com a resolução 008/2015, aprovada pelo Conselho Universitário, a Universidade Federal do Amazonas passou a reconhecer os nomes sociais e a dar suporte às pessoas que entravam com o processo para serem reconhecidas conforme a própria identificação.