INCLUSÃO E SUPERAÇÃO

Professor que perdeu a visão aos 17 anos lidera biblioteca braille referência no AM

Espaço no Sambódromo comandado há 25 anos pelo professor Gilson Mauro oferece livros, cursos e inclusão a pessoas com deficiência visual

Amariles Gama
11/04/2026 às 14:50.
Atualizado em 11/04/2026 às 14:50

Professor Gilson Mauro Pereira atua há 25 anos à frente da Biblioteca Braille do Amazonas, referência em inclusão no país (Fotos: Jeiza Russo/A CRÍTICA)

Quem vê hoje o professor Gilson Mauro Pereira à frente da Biblioteca Braille do Amazonas não imagina que foi de forma repentina, assustadora e em um dia especial que ele perdeu a visão. Era 1º de outubro de 1979, dia em que ele completava 17 anos. Idade que, segundo ele, a maioria dos rapazes só pensa em se divertir e paquerar. 

“Fui dormir normal e, quando acordei, no dia do meu aniversário, vi tudo verde. Saí acendendo as luzes achando que tinham trocado as lâmpadas. Quando fui para a rua, comecei a perceber que tinha algo errado. No meio do caminho, olhei para o meu pé e parecia que um estava grande e o outro pequeno. Ali começou o desespero”, relembra.

Professor Gilson Mauro Pereira, gestor da Biblioteca Braille do Amazonas, perdeu a visão aos 17 anos.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 O que parecia algo passageiro se transformou em uma mudança definitiva. Gilson conta que, após uma série de exames, viagens e mais de 15 cirurgias, veio o diagnóstico de descolamento de retina nos dois olhos. Até então, ele ainda tinha esperança de que recuperaria a visão, mas foi quando encontrou um médico firme e sem rodeios. 

“Teve um médico que foi direto: ‘você vai ficar eternamente cego’, e repetia isso bem firme. Doeu, mas foi quando eu parei de ser enganado, porque eu rodei por vários médicos achando que ia recuperar a visão. A partir dali, eu tive que reaprender a viver”, contou. 

Aprender a enxergar com as mãos

Painel de texturas permite a identificação de materiais por meio do tato, contribuindo para o processo educativo.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 A virada veio com o estudo, após alguns anos fora de Manaus. Em São Paulo, Gilson passou pelo processo de reabilitação, voltou à escola e descobriu um novo caminho. Ele relata que, quando perdeu a visão, deixou de olhar para o superficial e passou a focar mais no conhecimento. E foi nessa busca por conhecimento que ele conheceu o Sistema Braille, ferramenta que mudaria sua relação com o mundo. 

“É como se você enxergasse com a ponta dos dedos. Quando eu abro um livro em braille, eu descubro os continentes, os rios, tudo aquilo que eu não posso ver. Eu aprendi o braille já depois de perder a visão. Comprei um alfabeto, fui decorando ponto por ponto, escrevendo, repetindo todos os dias. Foi assim que eu consegui aprender e depois me aperfeiçoei”, disse.

Hoje, aos 63 anos, Gilson gerencia há 25 anos a Biblioteca Braille do Amazonas, que se tornou referência no país. Localizada no Bloco C do Sambódromo, na zona Centro-Oeste de Manaus, o espaço atende pessoas com deficiência visual no estado, oferecendo consulta e empréstimo de livros em braille e em áudio, além de serviços como transcrição de materiais, gravação de conteúdos digitais e promoção de cursos para pessoas com deficiência visual. 

“Nós somos a terceira maior biblioteca braille do Brasil. Temos quase 47 mil títulos entre braille, áudio e material digital. Produzimos livros, cardápios, conteúdos acessíveis. Aqui é um espaço democrático, de autonomia”, disse o professor Gilson.

Parceria dentro e fora de casa

Ao lado dele está a esposa Sandra Amazonas, manauara de 56 anos, companheira de vida de Gilson há quase quatro décadas e peça fundamental nessa trajetória. Foi ela quem, ainda sem saber, começou a dar os primeiros passos na audiodescrição, área em que atua na biblioteca, que é subordinada à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC).  

Sandra Amazonas atua com audiodescrição e contribui para ampliar o acesso de pessoas com deficiência visual à cultura

“Eu sempre li muito para ele. Um dia, na faculdade, tive que descrever 50 capas de revista para ele entender e apresentar um trabalho. Ali eu nem sabia, mas já estava fazendo audiodescrição”, conta Sandra, que foi peça fundamental para que Gilson concluísse a faculdade de Comunicação.

 A prática virou profissão em 2009, quando ela passou a atuar diretamente na área. Desde então, já são mais de 400 apresentações com audiodescrição no Teatro Amazonas. Ao longo dessa trajetória, ela acompanhou de perto o impacto desse recurso em espaços culturais e educacionais e afirma que a audiodescrição não apenas amplia o acesso, mas muda a forma como pessoas com deficiência visual se relacionam com o mundo. 

“A audiodescrição não é só falar o que está acontecendo ou repetir as falas dos personagens. É descrever figurino, cenário, expressão, tudo. Muitas vezes, a pessoa com deficiência visual sai com mais informação do que quem está enxergando”, explica Sandra.

Estúdio é utilizado para produção de conteúdos acessíveis, como audiolivros e materiais com audiodescrição.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 Mas, mesmo com os avanços tecnológicos, os dois concordam que ainda há um longo caminho pela frente. A realidade nas ruas de Manaus, segundo eles, ainda é um dos maiores desafios. 

“A acessibilidade ainda precisa melhorar em tudo. Não é a pessoa que tem que se adaptar ao espaço, é o espaço que tem que se adaptar à pessoa. Isso não é gasto, é investimento... calçada quebrada, poste no meio do caminho, falta de sinalização. Os cegos em Manaus são heróis”, resume Gilson.

Descobertas depois da perda da visão

Mas, na Biblioteca Braille, é onde pessoas com deficiência visual se sentem em casa, e histórias como a de Gilson se multiplicam. É o caso de Ricardo Alves, de 64 anos, natural de Benjamin Constant, no interior do Amazonas, mas que vive em Manaus há muitos anos. Ele perdeu a visão aos 52, enquanto dirigia, também de forma repentina. Mas, na biblioteca braille, ele deixou talentos florescerem. 

Ricardo Alves perdeu a visão aos 52 anos e encontrou na biblioteca novas formas de aprendizado, como a música.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

“Apagou tudo. Fiz tratamento, mas não voltou. Aqui na biblioteca eu descobri coisas novas. Eu sempre tive curiosidade de saber como um cego tocava. Eu sou fã do Stevie Wonder e ficava impressionado: ele é cego, como é que consegue tocar daquele jeito? Quando o professor falou que aqui tinha aula de música, eu pensei ‘agora eu vou descobrir’. Hoje eu sei como é, estou aprendendo, ainda sou iniciante, mas fico muito feliz de estar aprendendo teclado e violão”, contou Ricardo, que também é atleta.

 Raimundo Nonato Miranda, de 53 anos, é natural do Maranhão e ficou cego após um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Ele ainda está em fase de recuperação e encontrou na biblioteca acolhimento nesse processo. “Eu entrei em coma e acordei sem enxergar. Não sabia de nada. Aqui eu faço música, estudo, vou me adaptando”, relatou. 

Raimundo Nonato ficou cego após um AVC e utiliza a biblioteca como espaço de reabilitação e adaptação.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

 Já Anastácio Ferreira da Silva, de 75 anos, natural do Ceará, perdeu a visão há cinco anos, após complicações de saúde devido ao glaucoma. Ele, que mora em Manaus desde os 5 anos de idade, disse que se considera mais amazonense do que cearense. 

Anastácio Ferreira perdeu a visão há cinco anos e hoje estuda braille e participa de atividades na biblioteca.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

“Eu fui dormir bem e, quando acordei, estava sem enxergar de um olho. Foi por causa de um glaucoma, misturado com outros problemas de saúde. Hoje já faz uns cinco anos que perdi a visão”, conta. “Hoje eu estudo braille e faço aula de violão. Para mim, isso aqui é muito importante, porque mostra que a gente ainda pode aprender, mesmo depois de tudo”, destacou Anastácio.

Frequentadores da Biblioteca Braille utilizam o espaço para leitura, convivência e atividades de inclusão.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

  

Celebrado em 8 de abril, o Dia Nacional do Sistema Braille marca não só a história de um método de leitura, mas também a luta por autonomia e inclusão. Para o professor Gilson, que acompanha alunos como Ricardo, Raimundo e Anastácio, o significado vai além da data. 

“Se não tiver o braille, nós somos cegos e analfabetos. É por meio dele que a gente conhece o mundo. Esse sistema não pode ser tratado como algo que envelheceu. Não. Ele se renova todos os dias, porque é por meio dele que a gente conhece o mundo e tudo aquilo que a gente quer aprender”, destacou Gilson. 

A Biblioteca Braille do Amazonas funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e conta com estrutura adaptada, incluindo estúdios, impressoras e computadores específicos. Criada em 1999 e em funcionamento no Sambódromo desde 2008, o espaço atende cerca de 1,8 mil pessoas por ano, com acesso gratuito, e já contribuiu para a aprovação de dezenas de usuários em concursos e vestibulares.

Acervo da Biblioteca Braille do Amazonas reúne milhares de títulos em braille, áudio e formato digital, atendendo pessoas com deficiência visual em Manaus.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA

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