Espaço no Sambódromo comandado há 25 anos pelo professor Gilson Mauro oferece livros, cursos e inclusão a pessoas com deficiência visual
Professor Gilson Mauro Pereira atua há 25 anos à frente da Biblioteca Braille do Amazonas, referência em inclusão no país (Fotos: Jeiza Russo/A CRÍTICA)
Quem vê hoje o professor Gilson Mauro Pereira à frente da Biblioteca Braille do Amazonas não imagina que foi de forma repentina, assustadora e em um dia especial que ele perdeu a visão. Era 1º de outubro de 1979, dia em que ele completava 17 anos. Idade que, segundo ele, a maioria dos rapazes só pensa em se divertir e paquerar.
Professor Gilson Mauro Pereira, gestor da Biblioteca Braille do Amazonas, perdeu a visão aos 17 anos.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
O que parecia algo passageiro se transformou em uma mudança definitiva. Gilson conta que, após uma série de exames, viagens e mais de 15 cirurgias, veio o diagnóstico de descolamento de retina nos dois olhos. Até então, ele ainda tinha esperança de que recuperaria a visão, mas foi quando encontrou um médico firme e sem rodeios.
“Teve um médico que foi direto: ‘você vai ficar eternamente cego’, e repetia isso bem firme. Doeu, mas foi quando eu parei de ser enganado, porque eu rodei por vários médicos achando que ia recuperar a visão. A partir dali, eu tive que reaprender a viver”, contou.
Painel de texturas permite a identificação de materiais por meio do tato, contribuindo para o processo educativo.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
A virada veio com o estudo, após alguns anos fora de Manaus. Em São Paulo, Gilson passou pelo processo de reabilitação, voltou à escola e descobriu um novo caminho. Ele relata que, quando perdeu a visão, deixou de olhar para o superficial e passou a focar mais no conhecimento. E foi nessa busca por conhecimento que ele conheceu o Sistema Braille, ferramenta que mudaria sua relação com o mundo.
Hoje, aos 63 anos, Gilson gerencia há 25 anos a Biblioteca Braille do Amazonas, que se tornou referência no país. Localizada no Bloco C do Sambódromo, na zona Centro-Oeste de Manaus, o espaço atende pessoas com deficiência visual no estado, oferecendo consulta e empréstimo de livros em braille e em áudio, além de serviços como transcrição de materiais, gravação de conteúdos digitais e promoção de cursos para pessoas com deficiência visual.
Ao lado dele está a esposa Sandra Amazonas, manauara de 56 anos, companheira de vida de Gilson há quase quatro décadas e peça fundamental nessa trajetória. Foi ela quem, ainda sem saber, começou a dar os primeiros passos na audiodescrição, área em que atua na biblioteca, que é subordinada à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas (SEC).
Sandra Amazonas atua com audiodescrição e contribui para ampliar o acesso de pessoas com deficiência visual à cultura
A prática virou profissão em 2009, quando ela passou a atuar diretamente na área. Desde então, já são mais de 400 apresentações com audiodescrição no Teatro Amazonas. Ao longo dessa trajetória, ela acompanhou de perto o impacto desse recurso em espaços culturais e educacionais e afirma que a audiodescrição não apenas amplia o acesso, mas muda a forma como pessoas com deficiência visual se relacionam com o mundo.
Estúdio é utilizado para produção de conteúdos acessíveis, como audiolivros e materiais com audiodescrição.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Mas, mesmo com os avanços tecnológicos, os dois concordam que ainda há um longo caminho pela frente. A realidade nas ruas de Manaus, segundo eles, ainda é um dos maiores desafios.
Mas, na Biblioteca Braille, é onde pessoas com deficiência visual se sentem em casa, e histórias como a de Gilson se multiplicam. É o caso de Ricardo Alves, de 64 anos, natural de Benjamin Constant, no interior do Amazonas, mas que vive em Manaus há muitos anos. Ele perdeu a visão aos 52, enquanto dirigia, também de forma repentina. Mas, na biblioteca braille, ele deixou talentos florescerem.
Ricardo Alves perdeu a visão aos 52 anos e encontrou na biblioteca novas formas de aprendizado, como a música.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Raimundo Nonato Miranda, de 53 anos, é natural do Maranhão e ficou cego após um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Ele ainda está em fase de recuperação e encontrou na biblioteca acolhimento nesse processo. “Eu entrei em coma e acordei sem enxergar. Não sabia de nada. Aqui eu faço música, estudo, vou me adaptando”, relatou.
Raimundo Nonato ficou cego após um AVC e utiliza a biblioteca como espaço de reabilitação e adaptação.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Já Anastácio Ferreira da Silva, de 75 anos, natural do Ceará, perdeu a visão há cinco anos, após complicações de saúde devido ao glaucoma. Ele, que mora em Manaus desde os 5 anos de idade, disse que se considera mais amazonense do que cearense.
Anastácio Ferreira perdeu a visão há cinco anos e hoje estuda braille e participa de atividades na biblioteca.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Frequentadores da Biblioteca Braille utilizam o espaço para leitura, convivência e atividades de inclusão.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Celebrado em 8 de abril, o Dia Nacional do Sistema Braille marca não só a história de um método de leitura, mas também a luta por autonomia e inclusão. Para o professor Gilson, que acompanha alunos como Ricardo, Raimundo e Anastácio, o significado vai além da data.
“Se não tiver o braille, nós somos cegos e analfabetos. É por meio dele que a gente conhece o mundo. Esse sistema não pode ser tratado como algo que envelheceu. Não. Ele se renova todos os dias, porque é por meio dele que a gente conhece o mundo e tudo aquilo que a gente quer aprender”, destacou Gilson.
A Biblioteca Braille do Amazonas funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, e conta com estrutura adaptada, incluindo estúdios, impressoras e computadores específicos. Criada em 1999 e em funcionamento no Sambódromo desde 2008, o espaço atende cerca de 1,8 mil pessoas por ano, com acesso gratuito, e já contribuiu para a aprovação de dezenas de usuários em concursos e vestibulares.
Acervo da Biblioteca Braille do Amazonas reúne milhares de títulos em braille, áudio e formato digital, atendendo pessoas com deficiência visual em Manaus.Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA