DESAPARECIMENTOS

Raimunda e João: a história de mais um desaparecimento que separou uma família em Manaus

"É como se o mundo para mim tivesse acabado": a doméstica Raimunda Peixoto contou ao A CRÍTICA o drama que vive após o marido dela, João Miranda, ter desaparecido, no dia 5 de setembro.

Filipe Távora
12/09/2021 às 12:20.
Atualizado em 08/03/2022 às 23:43

(Foto: Gilson Mello)

“É pior do que a morte. Quem sofre é a família”. A declaração é da delegada Catarina Torres, titular da Delegacia Especializada em Ordem Política e Social (Deops) e se refere a casos de desaparecimento. Muitos deles ocorrem com pessoas envolvidas com o tráfico de drogas, mas também atingem indivíduos em situações comuns. É o caso do marinheiro fluvial de máquinas João Miranda de Carvalho Filho, 37, que desapareceu durante uma viagem de trabalho e deixou sozinha a esposa Raimunda Peixoto, 21.

Raimunda abordou a equipe de reportagem de A CRÍTICA no prédio do 12º Distrito Integrado de Polícia (DIP), situado no bairro Parque das Laranjeiras, Zona Centro-Sul de Manaus. Ela estava sentada em um banco enquanto aguardava para comunicar à polícia a respeito do desaparecimento de João. Ela se deu conta do sumiço dele no dia 5 deste mês, em um domingo.

Raimunda contou ao A CRÍTICA o drama que vive após o desaparecimento do marido. Foto: Gilson Mello

“Falaram que ele pulou dentro de uma voadeira, ela alagou, a água levou ele. Falaram que ele se apoiou em um galho de uma árvore, no meio do rio. Disseram que ele afundou depois de se debater. Na hora, não acreditei, achei que fosse mentira. Só fui cair na real quando cheguei na casa da minha pastora. É como se o mundo para mim tivesse acabado [sic]”, disse. 

Emocionada, a doméstica afirmou que fé foi o fator que a permitiu suportar a situação. Ela declarou, também, que desde que o marido desapareceu, ela anseia por ele em quaisquer lugares aonde vá. 

“Para mim, onde ela está, minha outra metade está com ele. Eu sinto que meu esposo está vivo, parece que ele está do meu lado toda hora. Eu falei, nas minhas orações: ‘meu amor, eu vou lutar por você nem que seja a última coisa que eu faça da vida. Quem nos conhece sabe que nós somos uma linda história de amor, nós tínhamos vários sonhos para realizar”, declarou. 

Amor ungido pela religião 

Raimunda, com filetes de lágrimas caindo dos olhos, contou à equipe de reportagem sobre como conheceu João. O marinheiro havia se mudado ao município de Lábrea, distante 702 quilômetros de Manaus, onde a doméstica morava. “Nos conhecemos pela primeira vez numa praça. Foi onde nossa história começou. Nessa época... a gente bebia. Mas eu decidi seguir Jesus e falei para ele que não queria mais aquela vida pra gente [sic]”, contou.

A decisão dela afetou o cotidiano do casal, que começou a frequentar igrejas. Nessa época, Raimunda tinha 16 anos. “Sempre falo que ele foi meu primeiro marido e seria o último. A gente era muito feliz, vivíamos um para o outro. E eu creio que nossa história ainda não acabou”, disse. 

Raimunda com o marido, João, antes do desaparecimento. Foto: Arquivo Pessoal

A doméstica afirmou crer que João, talvez, tenha pressentido que sofreria um acidente durante o trabalho. Um dia antes do desaparecimento, o marinheiro disse à esposa que somente a morte os separaria, conforme relatado por ela. 

Raimunda e João não conceberam filhos, porém o marinheiro é pai de quatro crianças. Uma delas, menor de idade, convivia com o casal desde o ano passado. Os cônjuges moram na Nova Cidade, bairro situado na Zona Norte de Manaus, desde 2017. Devido ao trabalho, João passava muito tempo longe de casa. “Ele queria que juntássemos dinheiro para que pudéssemos trabalhar para nós mesmos. Esse era o sonho dele, que falava que não aguentava passar muito tempo longe de casa”, afirmou. 

Desaparecimentos em números 

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), Manaus contabilizou um total de 284 casos de desaparecimento entre os meses de janeiro e julho deste ano. O maior número foi de homens desaparecidos: 190, quase o dobro de desaparecimentos comparados aos de mulheres, cujo total foi de 94 casos. 

A delegada Catarina Torres, titular da Deops, afirmou que é possível relacionar o grande número de desaparecimentos de homens ao envolvimento com o crime organizado. “Há pessoas dizimadas pelo fator do ‘acerto de contas’. O tráfico vem gerando muitos desaparecimentos, especialmente de jovens com idades entre 18 e 25 anos”.

Segundo a delegada Catarina Torres, o tráfico é um dos principais motivos de desaparecimento no AM. Foto: Gilson Mello

O perfil médio dos desaparecidos investigados pela Deops é indistinto e varia de jovens a partir de 18 anos até idosos. Os casos que envolvem idosos normalmente ocorrem devido aos efeitos da doença de Alzheimer, cuja maioria das vítimas é idosos com idade superior a 65 anos, segundo a delegada titular. 

“Há também os casos daqueles que sofrem acidentes, são internados e não conseguem identificar-se nos hospitais devido a estados de coma. Há, além disso, as ocorrências de portadores de doenças mentais que acabam fugindo de casa”, disse. 

Desapareceu enquanto trabalhava 

O caminhoneiro Wesley Santa Bárbara Costa, 41, desapareceu na noite do dia 12 de agosto de 2021, enquanto estava em Manaus a trabalho com o objetivo de viajar para Porto Velho em uma balsa. A Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), por meio do Deops, solicitou a colaboração da sociedade na divulgação da imagem do caminhoneiro. 

De acordo com Boletim de Ocorrência (BO), a filha do desaparecido comunicou à polícia que a última vez que a família teve contato com o desaparecido foi por meio de uma chamada de telefone.  

A filha do indivíduo registrou a ocorrência de desaparecimento por meio da Delegacia Virtual (Devir), mas não soube informar a localização exata de onde o pai dela estaria, bem como se Wesley chegou a embarcar na balsa ou se ficou em algum município do interior do estado.

A população pode entrar em contato com o Deops por meio do número: (92) 3214-2269 ou pode ligar ao 181, o disque-denúncia da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM).

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