Fumaceiro em Manaus

Sociedade cobra ação após dias de queimadas

Qualidade do ar atingiu níveis críticos na Região Metropolitana de Manaus, que concentra mais da metade da população do Amazonas

Lucas dos Santos
25/09/2026 às 09:20.
Atualizado em 25/09/2026 às 09:21

Mês de setembro tem se caracterizado pela proliferação em Manaus e entorno de incêndios em áreas de mata (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)

Ativistas, especialistas e representantes da sociedade civil cobraram o poder público para agir contra as queimadas e a fumaça que cobriu a região metropolitana de Manaus e levou a qualidade do ar aos piores níveis de 2026. Na manhã desta quinta-feira, a capital amanheceu mais uma vez encoberta por fumaça e registrou níveis péssimos de poluição no ar. Nessa mesma semana, Manaus atingiu a temperatura mais quente do ano ao registrar 38,6ºC na terça-feira.

Entidades como o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado do Amazonas (Sinteam) destacaram o prejuízo do calor extremo e da fumaça aos estudantes e trabalhadores, que estão sendo expostos ao problema não apenas dentro das unidades de ensino como em suas próprias casas e no deslocamento entre residência e aulas.

“O sindicato vem recebendo relatos de escolas públicas com problemas de climatização, aparelhos de ar-condicionado que não funcionam adequadamente, falhas na rede elétrica e salas superlotadas. Em um cenário de calor extremo e qualidade do ar classificada como ‘péssima’, essas condições aumentam a preocupação com a saúde de estudantes e profissionais”, criticou.

Protocolos

O sindicato espera que as secretarias responsáveis pela educação apresentem “protocolos claros para situações de calor extremo e poluição atmosférica, definindo quais medidas devem ser adotadas em cada cenário”, incluindo a possibilidade de reorganizar horários e adaptar atividades.

A reportagem procurou a Secretaria de Estado da Educação e Desporto Escolar do Amazonas (Seduc-AM), que informou estar acompanhando todos os dias as condições da qualidade do ar em Manaus diante da presença da fumaça na capital e em outros municípios, especialmente na região metropolitana.

Uma das medidas é uma nota técnica da Secretaria de Estado da Saúde (SES-AM) e da Fundação de Vigilância Sanitária (FVS), que recomendaram reduzir ao máximo o tempo de exposição à fumaça, evitando realizar atividades físicas e pedagógicas ao ar livre, além de permanecer em locais “ventilados, climatizados ou com mecanismos de melhoria da qualidade do ambiente”.

A saúde apontou ainda a necessidade de manter os ambientes internos, sempre que possível, fechados e protegidos da entrada de fumaça e dar atenção especial a estudantes e profissionais que apresentem sintomas relacionados à exposição.

Ainda no âmbito do ensino, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) suspendeu as aulas presenciais e as atividades administrativas em todas as unidades localizadas na capital, autorizando a realização de atividades remotas. A medida é preventiva e emergencial.

O que fazer

O analista ambiental e especialista em ciências do ambiente Antônio Stroski, ex-secretário de Meio Ambiente de Manaus, apontou que há omissão do governo em não fazer um planejamento para o enfrentamento das queimadas, as quais teriam origem humana, conforme o próprio Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) divulgou em coletiva de imprensa.

O ex-secretário pontuou que essas ações de prevenção deveriam ocorrer ainda no início do ano, antes do período da estiagem.

“A derrubada da vegetação, o desmatamento, antecedem as queimadas. Portanto, as ações devem combater o desmatamento ilegal também. Para substituir o uso do fogo no preparo do solo, nós dispomos da tecnologia consolidada pela Embrapa, acessível, mas o poder público deve ter políticas para eliminar o uso do fogo. Vivemos o desafio da mudança do clima e dos eventos climáticos extremos, prejudicando principalmente as pessoas mais vulneráveis, plantas, animais e ameaçando perdas da nossa biodiversidade”, disse.

O cientista social Carlos Santiago frisou que a gestão estadual deveria se integrar mais aos municípios e ao governo federal para “promover um planejamento permanente com relação aos eventos climáticos”, não havendo mais espaço para “se fazer ações improvisadas de momento”.

“Essas queimadas, esse fumaceiro todo, acabam atingindo a saúde pública, porque os hospitais recebem uma demanda de pessoas com problemas respiratórios. A mobilidade urbana se complica muito, prejudicando inclusive a atividade econômica. Muitos órgãos e empresas estão deixando seus trabalhadores no formato remoto. O setor de ensino público e privado estão tendo que suspender as atividades escolares por conta do péssimo clima”, elencou.

Atenção permanente

Santiago avaliou que o estado precisa investir mais em tecnologia para acompanhar os efeitos do clima e viabilizar fiscalizações rápidas e urgentes que identifiquem os autores de incêndios criminosos. Para ele, se o estado “continuar desorganizado, sem planejamento, sem integração com os municípios a curto, médio e longo prazo”, a sociedade continuará sofrendo os efeitos nocivos da crise climática.

No setor da economia, o presidente da Associação Comercial do Amazonas, Bruno Loureiro Pinheiro, disse que as queimadas provocadas por ação humana exigem atenção permanente por parte do estado, com prevenção, fiscalização e conscientização.

“A fumaça afeta a saúde da população, o comércio e toda a economia. É fundamental a união de esforços entre poder público, setor privado e sociedade para prevenir novos focos e proteger a população e o meio ambiente”, disse.

Estado realiza ação integrada

O governo do Amazonas informou, em nota, que intensificou as ações de monitoramento, fiscalização e combate aos incêndios e queimadas em todo o estado, especialmente na Região Metropolitana de Manaus e no sul do Amazonas, diante do agravamento da estiagem, potencializada pelo fenômeno El Niño.

As medidas envolvem atuação integrada do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), Defesa Civil do Amazonas, além da Polícia Civil (PC-AM), Polícia Militar (PMAM), Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM) e demais órgãos que integram o Comitê de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais.

Entre as ações em andamento estão o reforço das fiscalizações ambientais, ampliação das operações de campo, monitoramento por imagens de satélite e uso de drones para identificação de focos de calor e direcionamento das equipes.

O Ipaam reforçou, a partir de quarta-feira, a fiscalização de infrações ambientais relacionadas ao uso irregular do fogo na Região Metropolitana de Manaus. A atuação integra a Operação Região Metropolitana, que abrange os 13 municípios da região, e conta com três equipes do Instituto e da Polícia Militar, por meio do Batalhão de Policiamento Ambiental (BPAmb). As ações também fortalecem a Operação Tamoiotatá, que concentra fiscalizações no sul do Amazonas.

A Polícia Civil do Amazonas também está atuando na apuração de possíveis incêndios florestais criminosos e responsabilização dos autores.

Desde 1º de julho até 23 de setembro, o Corpo de Bombeiros atuou no combate de 16.470 focos de incêndios urbanos e florestais no estado e alertou para o risco das queimadas durante este período.

O CBMAM conta com a atuação contínua de cerca de 1.000 servidores, entre militares e brigadistas, 25 municípios contam com bases permanentes e, atualmente, 65 viaturas estão empregadas no combate a esses incêndios e outros cinco veículos devem chegar até o final de outubro.

Também está em vigor o Decreto Estadual nº 55.339, de 9 de setembro de 2026, que proíbe o uso do fogo em todo o território amazonense pelo prazo de 120 dias, incluindo queimadas para limpeza, manejo agrossilvipastoril e eliminação de resíduos vegetais.

Fumaceiro em Manaus

Representantes de organizações da sociedade civil, especialistas e ativistas ouvidos por A CRÍTICA cobram ação integrada do poder público no combate às queimadas urbanas e florestais que expôs Manaus à fumaça pelo quarto dia neste mês.

Omissão

Ex-titular da Semmas e Ipaam Antônio Stroski apontou a falta de planejamento para o enfrentamento das queimadas desde o início do ano.

3.070 incêndios

Foi o número de queimadas registradas no Amazonas de janeiro até quarta-feira.

Governo está atuando, diz deputada

 Em nota à imprensa, a deputada estadual Joana Darc (União), presidente da Comissão de Proteção Animal, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (ALE-AM), destacou que a gestão estadual já está atuando no combate às queimadas e que tem dialogado com o Executivo para fortalecer ações de prevenção, fiscalização e combate aos incêndios.

“A gente sabe que grande parte dessas queimadas tem origem na ação humana. E estamos vendo uma situação preocupante em municípios, como Iranduba, Caapiranga, Lábrea, Manicoré, entre outros, além de Manaus, que também vem sofrendo muito com a fumaça. E essa é uma pauta que eu já venho trabalhando há algum tempo. Recentemente, tivemos uma lei de minha autoria reconhecendo o serviço de brigadista voluntário de combate a incêndios florestais no Amazonas”, disse.

A parlamentar informou ainda que possui duas propostas em andamento sobre a questão, uma para formar brigadistas voluntários nas escolas públicas e outra voltada à proteção dos animais de água doce durante a estiagem.

Blog

Artista amazonense Isabelle Nogueira

“Estão esperando pessoas morrerem para dar atenção ao Amazonas? O que está acontecendo no Amazonas é desesperador, e o silêncio da mídia brasileira é ensurdecedor! Enquanto isso, comunidades enfrentam uma seca severa, rios em níveis críticos e uma fumaça que toma o céu e compromete a vida de quem está na região. Neste momento, o que nós podemos fazer, enquanto sociedade e amazonenses, é compartilhar informações. Precisamos que essa realidade seja vista, conhecida e, principalmente, enfrentada. É urgente um plano de ação. É urgente mobilização. É urgente estrutura para combater as queimadas e proteger as comunidades: aeronaves, drones, brigadistas, equipamentos e recursos para levar água e assistência a quem está sofrendo”.

Conselho se manifesta

 Os efeitos da fumaça levaram o Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (Cremam) a divulgar uma nota manifestando preocupação com o agravamento do problema. O conselho lembrou que a exposição à fumaça pode provocar sintomas respiratórios e agravar doenças em grupos vulneráveis como crianças, idosos, gestantes e portadores de doenças crônicas.

A autarquia recomendou que a população permaneça hidratada, evite atividades ao ar livre nos horários de pico da fumaça, mantenha portas e janelas fechadas para evitar a entrada dela em casa e utilize máscaras do tipo PFF2 ou N95 em ambientes externos quando houver alta concentração de fumaça.

“Em caso de falta de ar intensa, dor no peito, piora de doenças respiratórias ou cardiovasculares ou agravamento dos sintomas, a população deve procurar atendimento médico imediatamente na unidade de saúde mais próxima”, informaram. 

Frase

“A fumaça afeta a saúde da população, o comércio e toda a economia. É fundamental a união de esforços entre poder público, setor privado e sociedade para prevenir novos focos e proteger a população e o meio ambiente”

Bruno Pinheiro
Presidente da ACA

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