MEDO CONSTANTE

Trabalhadores de Urucu denunciam falhas em voos da Voepass após acidente fatal em Vinhedo

A Petrobras confirmou que o avião ATR-72 que caiu em Vinhedo realizou um voo para Urucu em outubro do ano passado. Sindicato dos Petroleiros afirma que já vinha reclamando dos voos antes mesmo do acidente

Amariles Gama
14/08/2024 às 09:13.
Atualizado em 15/08/2024 às 09:47

Bruno Terribas (ponta esquerda) ao lado de outros trabalhadores que integram a Sindipetro, no momento de embarque para Urucu, em uma aeronave da Voepass (Foto: Bruno Terribas/Sindipetro)

Trabalhadores da Petrobras que dependem dos voos da Voepass para a Província Petrolífera de Urucu, em Coari (município a 362 quilômetros de Manaus), expressam preocupação quanto à segurança das operações aéreas. Após a queda do avião operado pela companhia na última sexta-feira (9), em Vinhedo, São Paulo, os voos para Urucu foram suspensos temporariamente, retornando somente nesta terça-feira (13) após uma série de inspeções.

Durante reunião nesta terça-feira (13) com representantes da Petrobras e do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Petróleo (Sindipetro) PA/AM/MA/AP, a Petrobras confirmou que o avião ATR-72 que caiu em Vinhedo realizou um voo para Urucu em outubro do ano passado, substituindo um modelo comumente utilizado nessa rota. Conforme estabelecido em contrato, a Petrobras utiliza na região um modelo menor da mesma família, o ATR-42.

No dia 13 de outubro de 2023, a Voepass chegou a utilizar a aeronave ATR-72, a mesma que veio a cair em Vinhedo (SP), na última sexta-feira (9)

Segundo o diretor do Sindipetro PA/AM/MA/AP e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), Bruno Terribas, antes mesmo do acidente em Vinhedo, em março do ano passado, o sindicato já havia denunciado problemas de segurança de voos em Urucu. Entre as principais preocupações levantadas estavam as tentativas de decolagens frustradas por recorrentes panes na aeronave.

Publicação do site do Sindipetro de março de 2023 já denunciava problemas na segurança de voos de Urucu via Voepass

Após um desses episódios de pane na aeronave, uma trabalhadora contratada se recusou a embarcar novamente e foi demitida, segundo uma denúncia apresentada pelo Sindipetro. Em outra ocasião, o sindicato afirma que houve falta de apuração de uma denúncia de um ex-mecânico da companhia que relatou problemas de segurança na aeronave. O trabalhador também foi demitido, segundo o sindicato.

“Desde que essa empresa assumiu o contrato, as reclamações são constantes, principalmente quanto ao cancelamento de voos, retornos de voos de Urucu e as consequências disso para quem precisa fazer outro trajeto até o destino final. Mais recentemente, tivemos problemas com o ar-condicionado durante a onda de calor. Também houve o caso de uma terceirizada que se recusou a voar em um desses voos por temor e acabou sendo demitida”, destacou Bruno.

Publicação de novembro de 2023, também do Sindipreto, denunciava suposta onda de calor nos voos da Voepass para Urucu

Demandas dos petroleiros

Durante a reunião desta terça, o Sindipetro pediu informações sobre os planos de manutenção das aeronaves, recapitulou todas as denúncias feitas anteriormente quanto aos problemas operacionais e de segurança. Além disso, o sindicato solicitou a ampliação da pista do aeroporto de Urucu para que seja possível utilizar aeronaves mais novas e de tecnologia mais moderna.

"Os incidentes e falhas de manutenção são recorrentes. Teve caso de o avião arremeter, o avião retornar para Manaus, mas não há uma política de transparência para informar exatamente o que houve, ou por que o avião parou para manutenção. Então, ficamos muito dependentes das denúncias dos trabalhadores. E só depois que levamos o caso para a companhia, em geral, recebemos algum esclarecimento, mas não recebemos proativamente esse tipo de informação", disse Bruno.

Em contrapartida, segundo os petroleiros, a Petrobras informou durante a reunião que, nesta terça, foi concluída a inspeção final e realizados dois voos de teste, e que ainda durante a tarde os voos foram retomados. A empresa informou que seriam priorizados nos voos os trabalhadores que estão há mais tempo na fila de embarque e os trabalhadores da área de operação, atendendo a uma solicitação do sindicato.

Os trabalhadores da Petrobras dependem dos voos da Voepass para a Província Petrolífera de Urucu

A Petrobras também teria informado durante a reunião que na terça-feira (6) foi realizada uma inspeção rotineira do contrato, e que na sexta-feira (9), dia do acidente em Vinhedo, decidiu, mesmo sem recomendação do fabricante, suspender os voos para Urucu. No sábado (10), uma equipe da Segurança e Competência em Aviação (SCA) chegou a Manaus e, no domingo (11), a equipe realizou inspeção documental na Voepass.

Nesta terça-feira (13), após a realização da inspeção final na aeronave, a Petrobras informou ao representante do Sindipetro que está sendo feito o recapeamento da pista de Urucu e que o primeiro voo após a retomada das operações seria acompanhado por um dos técnicos da SCA.

A reportagem de A CRÍTICA entrou em contato com a Petrobras para saber quais medidas estão sendo tomadas para garantir a segurança dos voos e dos trabalhadores que dependem dessa rota, e aguarda um posicionamento. A reportagem também pediu nota da Voepass sobre as denúncias de calor e falta de segurança nos voos. 

Leia as notas abaixo:

Petrobras

“A Petrobras reafirma seu compromisso com a segurança e o bem-estar de suas equipes ao informar que, desde sexta-feira (09/08), interrompeu temporariamente as operações da aeronave que realiza os voos para a Província Petrolífera de Urucu, localizada em Coari, a 650 km de Manaus, no Amazonas. Essa medida foi adotada para garantir a segurança de todos os procedimentos de voo, por meio de uma inspeção preventiva, além das vistorias regulares já realizadas. A inspeção foi conduzida pela equipe de Segurança e Competência em Aviação da companhia.

Após a conclusão de uma auditoria, reuniões de alinhamento com representantes sindicais e um voo de inspeção realizado na terça-feira (13/08), as operações foram integralmente retomadas nesta quarta-feira (14/08).

A Petrobras destaca sua presença constante e ativa nas operações aéreas, contando com um consultor especializado contratado pela companhia, assim como o acompanhamento que realiza com os helicópteros. Esse monitoramento inclui Auditorias de Conformidade Contratual (ACCs), que são realizadas mensalmente para assegurar a conformidade e a segurança das operações.”

Voepass

"A VOEPASS informa que todas as nossas aeronaves em operação estão aeronavegáveis e aptas a realizar voos, com todos os sistemas requeridos em funcionamento, cumprindo o que estipulam as autoridades e a legislação setorial vigente. A VOEPASS possui IOSA, requisito de excelência operacional emitido para os membros da IATA desde 2006".
Thiago Pires Manolio

  

Informações da aeronave ATR-72, usada para um voo em Urucu. Na parte de baixo das informações, há o último local onde a aeronave foi vista, justamente em Vinhedo, local onde aconteceu o acidente com 62 vítimas

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