Meteorologista explica por que a umidade elevada dificulta a evaporação do suor e faz o pico de estresse térmico ocorrer entre 13h e 15h em Manaus
Com recorde de altas temperaturas, umidade faz calor em Manaus parecer maior do que o registrado nos termômetros (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)
Manaus viveu, em setembro, um dos dias mais quentes do ano. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), no dia 22 de setembro, os termômetros chegaram a 38,6°C, superando em 1°C o recorde anterior de 37,6°C, registrado no dia 1º do mesmo mês. Foi a primeira vez em 2026 que a capital passou dos 38°C.
Mas, para quem vive em Manaus, não é preciso chegar aos 38°C para que o corpo sinta que calor parece ser muito maior. Basta sair de um ambiente com ar-condicionado e colocar o pé na rua para sentir o ar quente bater no rosto e o suor aparecer em poucos minutos. No termômetro, pode estar marcando “apenas” 35 ou 36°C, mas a sensação é que esse número poderia ser bem maior.
E não é só impressão. De acordo com o meteorologista Leonardo Vergasta, o número mostrado pelo termômetro não conta sozinho como o calor será percebido pelo corpo. Umidade, vento, sol e até as superfícies ao redor interferem nessa troca de calor, segundo ele.
O especialista explica que, para entender essa diferença, é preciso separar três conceitos. A temperatura do ar é o valor registrado pelo termômetro. Já o índice de calor é calculado a partir da temperatura e da umidade e mostra como aquela combinação é sentida pelo corpo. A sensação térmica divulgada pelo Inmet usa um cálculo mais amplo, que também considera o vento e um modelo de resposta do organismo.
É por isso que um termômetro de rua ou o painel de um carro estacionado no sol, por exemplo, pode mostrar uma temperatura bem maior que a registrada oficialmente. O sensor está exposto ao calor e não está nas mesmas condições do equipamento usado para a medição meteorológica.
Meteorologista explica por que o calor em Manaus parece bem maior (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)
“Sol e asfalto aumentam, e muito, esse índice. Vale explicar por quê: o índice de calor divulgado nos boletins não leva nada disso em conta. A fórmula foi construída supondo uma pessoa à sombra e com vento fraco. Sol, asfalto quente e ar parado ficaram de fora da conta. Quem está no sol, parado na rua, está sempre em situação pior do que o boletim indica. O quanto pior, o próprio serviço que criou o índice estimou: a exposição ao sol pleno pode acrescentar até 8 graus ao valor calculado”, disse.
Mas o que faz os 35°C parecerem muito mais do que isso? Em Manaus, um dos principais fatores é a umidade. Segundo Vergasta, em um dia quente durante a estação seca, o índice de calor costuma ficar de 5 a 6 graus acima da temperatura registrada.
Com o calor nas alturas, o corpo tenta se refrescar por meio do suor. Mas não basta suar. Para perder calor, o suor precisa evaporar da pele. Quando o ar está muito úmido, essa evaporação fica mais difícil, e o organismo perde calor com menos eficiência.
“Enquanto o ar está a uma temperatura mais baixa que a da pele, ele trabalha a nosso favor: encosta no corpo, leva um pouco do nosso calor e vai embora. Passando dos 35, a conta se inverte. O ar para de levar calor e passa a entregar. A partir daí, o corpo só tem uma saída, que é o suor. E é aí que a umidade decide o dia”, explicou Vergasta.
Em um dos dias analisados pelo meteorologista, a temperatura máxima chegou a 36,5°C, enquanto o índice de calor alcançou 42°C no início da tarde, com umidade relativa em torno de 44%. Em um ambiente mais seco, a diferença poderia ser menor. Com 37°C e 20% de umidade, por exemplo, o índice de calor poderia ficar próximo de 35°C, segundo Vergasta.
Em Manaus, os 35°C ou 36°C continuam sendo a temperatura do ar. O que muda é tudo aquilo que acontece ao redor dela. Umidade, sol, vento, asfalto e até a dificuldade de o corpo perder calor ajudam a explicar por que, na prática, o calor pode parecer muito maior do que o número mostrado no termômetro.
Outro detalhe que costuma surpreender é o horário do pico do calor. Apesar de o “sol do meio-dia” ser popularmente associado ao momento mais quente, a temperatura máxima geralmente aparece um pouco depois, porque o solo continua acumulando calor.
Capital registrou 38,6°C na estação oficial, o maior recorde de 2026 (Foto: Junio Matos/A CRÍTICA)
“A temperatura máxima nas estações de Manaus, de 36,5 graus, ocorreu entre 13h e 14h. O índice de calor chegou ao seu pico, 42 graus, entre 13h e 15h, portanto ainda mais tarde. O meio-dia, que todo mundo aponta como o pior momento, já estava um grau e meio abaixo da máxima”, exemplificou o especialista.
E quem mora em Manaus sabe que o problema também não termina quando anoitece. Na capital amazonense, a temperatura costuma cair menos durante a madrugada do que em regiões de clima seco. Isso significa que o corpo tem menos tempo para se recuperar do calor antes do dia seguinte.
“Isso importa porque o corpo humano se recupera do calor à noite. É nesse intervalo que a temperatura interna volta ao normal e o organismo repõe o que perdeu. Quando a noite não esfria, essa recuperação não acontece, e o dia seguinte começa de um ponto pior que o anterior. O efeito vai se somando”, disse.