Sustentabilidade

Mulheres unem ciência e saber tradicional para produzir chocolate no Amazonas

O Instituto Mamirauá acompanha a produção, que já é vendida para marcas. A produção é feita de maneira manual e sem uso de insumos sintéticos

Portal A Crítica
04/04/2026 às 11:36.
Atualizado em 04/04/2026 às 11:36

Produção tem selo de produto orgânico e já é vendido para marcas (Tácio Melo/ Instituto Mamirauá)

O cultivo na Comunidade da Missão, em Tefé (AM), nasceu muito antes dos que hoje vivem ali. Sem ter acesso ou dinheiro para comprar nos mercados, a solução para os avós e pais da coordenadora do Grupo de Agricultores Orgânicos da Missão, Bernardete Araújo, e de tantos outros da região, era produzir seus próprios alimentos. O que antes era majoritariamente para consumo próprio, se transformou em um comércio sustentável de insumos. A principal matéria-prima é o cacau que, com a proximidade da Páscoa, está sendo transformado em barras e ovos de chocolate artesanal.

"O cultivo nasceu antes de nós. Quando nós nos tornamos gente, já tínhamos o cultivo do cacau e de tantos outros alimentos. Hoje, apenas damos continuidade ao que aprendemos com as nossas famílias”, explica Bernardete, conhecida na região como Dona Bete. Todo o cacau e chocolate produzido pela organização é fruto do trabalho de 22 mulheres.

Cultivo de cacau une saberes passados de geração em geração e ciência

 Segundo a coordenadora, o chocolate amargo que sua mãe fazia sempre esteve presente na sua infância.

“Quando eu e meus irmãos íamos para a escola, ela dizia que nós tínhamos que tomar o chocolate para não sermos rudes, para absorver conhecimento com maior facilidade e para deixar nosso corpo mais forte”, conta.

Foi por histórias como essas que o grupo de agricultores foi criado. A produção do doce funciona de maneira simples, sem uma fábrica especializada e sem uso de insumos sintéticos.

“Cada mulher cultiva seu próprio cacau, faz seu próprio chocolate e tem sua própria especialidade, seu próprio jeito diferente de fazer, que herdou dos seus avós e pais”, detalha a coordenadora.

A mãe de Dona Bete, por exemplo, quebrava o cacau, tirava o suco, colocava no sol para secar, descascava e moía.

“Minha mãe fazia principalmente chocolate amargo. Nós não tínhamos açúcar e, quando ela queria adoçar o chocolate, ela usava garapa de cana. Então, o chocolate que ela fazia era o cacau, garapa, leite de castanha e ovos de galinha”, explica.

Grupo de mulheres cultivam o próprio cacau para produzir chocolate artesanal

 O Instituto Mamirauá, organização social vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), acompanha a produção do grupo, que já vende seu chocolate para marcas.

“Por meio do assessoramento técnico, temos contribuído com o fortalecimento da produção orgânica, cursos de manejo agroecológico, apoio nas etapas de certificação e acesso a políticas públicas”, explica a coordenadora do Programa de Manejo de Agroecossistemas do instituto, Fernanda Viana.

Segundo a pesquisadora, o conhecimento técnico fortalece, apoia e se integra ao conhecimento tradicional que as mulheres já possuem. A ciência leva informações fundamentais para subsidiar as atividades de manejo que são feitas pelas comunidades tradicionais a partir das pesquisas que já foram e que vêm sendo produzidas ao longo de anos na região do médio Solimões.

“Quando a gente integra o conhecimento técnico-científico ao conhecimento tradicional, tem a ciência sendo aplicada na ponta e apoiando a transformação de realidades para um cenário que é mais condizente com essas realidades locais”, continua.

Com isso, hoje, a produção do chocolate artesanal do grupo conta com algumas mudanças.

“Nós selecionamos muito bem os grãos do cacau e colocamos em um paneiro ou uma saca bem limpa e deixamos escorrer o mel por dois dias. Depois, cobrimos eles com uma folha de bananeira e deixamos secar no sol por seis dias para fazer a fermentação, para depois torrar e moer”, descreve Dona Bete.

Em 2021, o grupo conquistou a certificação orgânica que garante que os produtos não têm agrotóxicos, transgênicos ou fertilizantes químicos. Eles foram a primeira iniciativa da região a conquistar o reconhecimento.

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