O Vale do Javari tem sido objeto de uma série de denúncias públicas quanto a atividade ilegal de grupos, as ameaças a povos indígenas e comunidades tradicionais
O Vale do Javari tem sido objeto de uma série de denúncias públicas quanto a atividade ilegal de grupos, as ameaças a povos indígenas e comunidades tradicionais (Foto: Amazônia Real / Bruno Kelly)
O desaparecimento do servidor da Fundação Nacional do Índio (Funai), Bruno Pereira, e do jornalista inglês Dom Phillips, expõe a condição de abandono da Amazônia por parte do ente Estado. A região do Vale do Javari, onde os dois se encontravam, tem sido objeto de uma série de denúncias públicas quanto a atividade ilegal de grupos, as ameaças a povos indígenas e comunidades tradicionais e à constante produção de conflitos que não conseguiram sensibilizar o governo federal para a tomada de providências efetivas.
Esse é um dos pedaços da Amazônia sob permanente instabilidade, com agressões e mortes que não foram suficientes para posicionar as autoridades governamentais brasileiras noutra direção e na adoção de medidas de prevenção e de controle. Outras áreas da região vivem situação parecida e não é falta de informações e de pedidos de providências, o que tem prevalecido é o pacto do distanciamento governamental deixando margem de liberdade para a ação das organizações que atuam na ilegalidade.
A insegurança e os ataques fazem parte da realidade dos povos do Javari e a existência de grupos isolados que deveria ser indicador de maior atenção não gera impacto capaz de alterar o modelo de atuação governamental. As iniciativas existentes que representavam a base de monitoramento dos órgãos de governo foram desestruturadas, com recursos humanos reduzidos e equipamentos técnicos limitados.
Inúmeros planos e projetos tendo a Amazônia para além das cidades urbanas como foco foram desenvolvidos e anunciados com pompa, o que se constata no dia-a-dia é um rastro da ineficácia desses procedimentos. Restam perguntas que deveriam ser respondidas pelo governo do País tais como: que ações de vigilância da Amazônia estão realmente funcionado? Qual é o nível de alcance dessas iniciativas? Como o governo brasileiro monitora e utiliza os dados desse monitoramento para elaborar as medidas de respostas governamental na região? Para isso e mais é necessário que o governo tenha disposição e vontade política de se fazer presente nesse território numa longa e permanente postura de conhecer, compreender e agir na defesa e na garantia dos direitos das populações que nele vivem bem como dos recursos naturais.
A Amazônia, se permanecer para o governo como obstáculo, continuará sendo palco de acontecimentos graves e da violência cotidiana, parte dela invisibilizada, praticada por governos e grupos contra os povos que nela habitam.