A juíza Dinah Câmara Fernandes condenou Alcenor Alves a mais de 170 anos de prisão por diversos crimes praticados entre 2011 e 2018 (Divulgação)
O judiciário amazonense, em primeiro grau, sentenciou: CONDENADO. O destino de Alcenor Alves Soeiro no Amazonas marca um capítulo muito sombrio do jiu-jitsu praticado no Amazonas. Condenado a mais de 178 anos de prisão por abusos sexuais contra 12 alunos entre 2011 e 2018, Alcenor personifica a traição máxima da confiança que deve existir entre professor e discípulo.
O caso de Alcenor não é, infelizmente, um incidente isolado, mas parte de uma sequência de revelações perturbadoras que abalaram o mundo da "arte suave" em Manaus. A prisão de Melqui Galvão expôs a vulnerabilidade de jovens atletas diante de figuras de autoridade com que convivem no meio esportivo.
Diversas estrelas mundiais da arte suave denunciaram a conduta criminosa de Alcenor Alves ao longo de sua carreira como treinador
Somando-se a essa crise decorrente de práticas criminosas, a justiça amazonense também lida com as denúncias contra Carlos Vieira Holanda, conhecido como "Esquisito". Atleta de renome e professor respeitado, Holanda tornou-se alvo de investigações após múltiplas vítimas relatarem abusos, seguindo um padrão de comportamento predatório que se assemelha aos outros casos citados.
A busca por sua responsabilização reforça a percepção de que o ambiente esportivo local permitiu, por muito tempo, o florescimento de condutas criminosas sob o manto do silêncio e da reverência hierárquica. O paralelo entre esses três homens é evidente: todos utilizaram sua posição de liderança e o carisma técnico para subjugar vítimas em situação de vulnerabilidade.
Alcenor, Melqui e Carlos Holanda representam a deturpação moderna dos valores fundamentais do jiu-jitsu, como o respeito e a proteção aos mais fracos. Onde deveria haver um porto seguro para o desenvolvimento pessoal, eles instalaram um sistema de abuso sistemático e estruturado.
No âmbito jurídico, o caso de Alcenor Alves serve como um paradigma de resposta estatal. A aplicação de uma pena que ultrapassa um século e meio de reclusão, somada a indenizações por danos morais, reflete a gravidade da violação da dignidade humana. Para os processos que envolvem Galvão e Holanda, a condenação de Alcenor estabelece um severo precedente de rigor que a sociedade amazonense agora exige, esperando que a justiça não seja condescendente com personalidades caídas em desgraças pelos próprios atos repugnantes.
A cultura do "mestre absoluto" precisa ser desafiada pela realidade, pois a segurança dos praticantes - especialmente crianças e adolescentes - deve SEMPRE prevalecer sobre qualquer linhagem ou currículo de vitórias, exigindo uma vigilância constante de pais e federações. Inclusive, o subscrevente desta coluna se posiciona formalmente contra a postura pouco contundente dos dirigentes das federações e instituições locais a respeito desses casos.
Em última análise, a condenação de Alcenor e as investigações sobre Melqui e Carlos Holanda simbolizam o fim de uma era de omissão. Embora a dor das vítimas seja irreparável, a justiça do Amazonas sinaliza que o jiu-jitsu só poderá recuperar sua honra se for capaz de extirpar de seu convívio aqueles que usam o quimono para camuflar crimes.