Relatório da ONU aponta que o chamado overshoot climático é inevitável e defende ações urgentes para reduzir os impactos sobre a Amazônia e o clima global
O relatório inédito publicado ontem pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente traz um choque de realidade definitivo: a Terra ultrapassará o limite crítico de 1,5°C de aquecimento global nos próximos anos. O teto de segurança climática do Acordo de Paris deixou de ser uma linha de defesa preventiva para se tornar um marco que precisará ser administrado e, urgentemente, revertido. Diante dessa ultrapassagem inevitável, conhecida cientificamente como overshoot, o multilateralismo e a ação conjunta dos países deixam de ser escolhas políticas e passam a ser as únicas ferramentas capazes de evitar um colapso em cadeia.
O cenário desenhado pela ONU projeta que, mesmo se todas as promessas climáticas atuais forem cumpridas, o aquecimento deve atingir um pico de 1,8°C antes de começar a recuar. Sem ações drásticas adicionais, as políticas em vigor ameaçam empurrar as temperaturas globais para novo aumento desastroso. Cada fração de grau adicional de calor não é apenas um número estatístico; representa a multiplicação de eventos meteorológicos extremos, a submersão de cidades costeiras e o risco real de atingir pontos de não retorno ecológicos.
Nesse limiar destrutivo, a Amazônia surge no centro do tabuleiro global: aproximando-se de seu ponto de inflexão para uma savana degradada, sua destruição transformaria o maior sumidouro de carbono do planeta em um emissor em massa, inviabilizando qualquer meta climática internacional. Nenhum país conseguirá blindar suas fronteiras contra o colapso do clima. A atmosfera terrestre não reconhece divisões geográficas. Por isso, a resposta global exige uma cooperação internacional sem precedentes.
A prioridade imediata deve se concentrar em coordenar esforços para fazer com que o período de overshoot seja o menor e o mais breve possível. Isso requer que as nações acelerem em bloco o fim do uso de combustíveis fósseis, blindem biomas vitais como a Amazônia e financiem ativamente a transição rumo a fontes de energia renováveis. Mais do que apenas zerar as emissões de gases de efeito estufa, a comunidade global terá de cooperar no desenvolvimento e na aplicação em larga escala de tecnologias de remoção de dióxido de carbono da atmosfera, associadas a programas massivos de reflorestamento transfronteiriço.