OPINIÃO

A conta do clima chega mais cedo para as crianças

Pesquisa de 2024 apontou que, só nas capitais brasileiras, cerca de 370 mil alunos estudam em escolas localizadas em áreas de risco

Carolina Maciel e Claudia Vidigal
25/09/2026 às 09:05.
Atualizado em 25/09/2026 às 09:05

(Eliton Santos/Semed)

Crianças e adolescentes são os mais vulneráveis às mudanças climáticas. Quanto mais nova a criança, maior o impacto no seu desenvolvimento, porque a regulação térmica de um bebê ainda está se ajustando e tem muito mais dificuldade em resfriar o próprio corpo do que um adulto. O corpo infantil, em formação, desidrata mais rápido sob calor intenso, transpira menos, sofre mais com a poluição do ar e com as arboviroses, como a dengue. Crianças também precisam de mais apoio para sair de situações de desastres climáticos, especialmente de áreas alagadas ou sob risco de deslizamento, situações que se tornaram mais frequentes diante da emergência climática.

O tema ganhou peso na agenda de governos, organizações da sociedade civil e também do UNICEF na última década. O Relatório de Risco Climático para Crianças 2026, publicado em junho, aponta que quase todas as crianças do planeta estão expostas a pelo menos um risco climático, e 1,1 bilhão delas, perto da metade, convive com três ou mais riscos sobrepostos.

Além dos riscos à própria vida de crianças e adolescentes, a emergência climática tem potencializado desigualdades estruturais e produzido efeitos profundos sobre outros direitos, como o acesso à água, à alimentação saudável, à saúde e à educação. Só em 2025, ainda segundo o UNICEF, eventos extremos interromperam os estudos de 171 milhões de alunos em 106 países. Entre 2016 e 2023, os desastres climáticos provocaram 62 milhões de deslocamentos internos de crianças no mundo, mais de 21 mil por dia.

O Brasil não escapa dessa estatística. Seis em cada dez crianças e adolescentes brasileiros, mais de 30 milhões, vivem expostos a dois ou mais riscos climáticos ao mesmo tempo, e 16 milhões, a três ou mais. Só em 2024, 1,17 milhão teve as aulas interrompidas por eventos extremos, entre as enchentes no Rio Grande do Sul e a seca na Amazônia. Aqui, a exposição é desigual: o maior impacto recai sobre populações vulnerabilizadas em diferentes regiões do país, onde o perigo climático encontra falta de saneamento e serviços públicos mais precários, aprofundando fragilidades já existentes.

As desigualdades regionais brasileiras somam-se também às desigualdades sociais e raciais. Uma pesquisa de 2024 do Instituto Alana com Mapbiomas apontou, por exemplo, que, só nas capitais brasileiras, cerca de 370 mil alunos matriculados na educação infantil e no ensino fundamental estudam em escolas localizadas em áreas de risco, sendo que 90% dessas escolas estão dentro ou em um raio de até 500 metros de favelas e comunidades urbanas. A maior parte dessas escolas (51%) têm maioria de alunos negros.

Em 2026, o cenário já bastante preocupante ganha ainda mais força. O El Niño atual tem mais de 90% de chance de atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão, segundo a NOAA, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, e 75% de chance de superar todos os episódios registrados desde 1950. O boletim do governo federal sobre o fenômeno, publicado no início de setembro, prevê para os próximos meses chuva abaixo da média e calor no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, e chuva em excesso, com mais risco de eventos extremos, no Sul.

Contudo, as ações de prevenção locais e territoriais ainda são insuficientes diante da escala do problema. Mais do que acompanhar a chegada do fenômeno, é preciso investir em diagnósticos locais e territoriais de risco: são os bairros e as escolas que melhor conhecem suas próprias vulnerabilidades e onde a água sobe primeiro, onde o calor é mais intenso, onde a infraestrutura é mais precária e onde o poder público está mais ausente. É esse conhecimento territorial, articulado ao monitoramento científico, que transforma alertas em prevenção real.

O alerta está dado, e poucas vezes ele veio com tamanha antecedência. A urgência agora é para que o poder público, para além de buscar dar resposta a situações de desastres, coloque em prática medidas de prevenção e mitigação de eventos extremos e que possa ter planos de contingência para os efeitos do fenômeno, priorizando aqueles potencialmente mais impactos: bebês, crianças, adolescentes, idosos e pessoas com deficiência.    

O tamanho dos riscos, porém, não se reflete no orçamento. Estudo do Ipea com o UNICEF mostra que, em 2024, o governo federal destinou 4,9% do orçamento a políticas para a infância e a adolescência, menos de 2,5% do PIB e longe da prioridade absoluta que a Constituição determina. No Congresso, o descompasso é ainda mais explícito. Levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) mostra que menos de 1% das emendas parlamentares dos últimos três anos foi para ações exclusivas para crianças e adolescentes. Em 2026, foram R$ 208,8 milhões, ou 0,4% dos R$ 51,5 bilhões previstos, menos da metade do valor de 2025.

O problema não termina em 2027, quando os efeitos deste El Niño devem se dissipar. A emergência climática é parte da nova realidade do país, e a prevenção precisa entrar no planejamento e no orçamento de todos os entes federativos, com as crianças em primeiro lugar. É o que propõe a Agenda 227 – movimento que reúne mais de 520 organizações da sociedade civil – às candidaturas à presidência e aos governos estaduais: tratar a adaptação climática como política de infância. Entre as propostas estão: a inclusão de crianças, adolescentes e gestantes na estratégia nacional de adaptação, a regulamentação do Plano Nacional de Enfrentamento ao Calor Extremo com esse mesmo recorte e planos de contingência para eventos extremos em todas as redes de ensino. Está lá também a prioridade de acesso a água tratada e esgoto nos domicílios com crianças pequenas, medida básica de adaptação que o país adia há décadas.

Em 23 de setembro, foi sancionada, sem vetos, a Lei nº 15.512/2026, o “ECA Ambiental”. A norma altera o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Política Nacional do Meio Ambiente e a Política Nacional sobre Mudança do Clima para garantir, com absoluta prioridade, o direito de crianças e adolescentes à natureza e a políticas climáticas que os protejam, com atenção redobrada à primeira infância, a crianças e adolescentes com deficiência e a quem vive em situação de mais vulnerabilidade social.

Em outubro, o país escolherá presidente, governadores e parlamentares que vão administrar os efeitos deste El Niño e dos que virão. Todos dirão que criança é prioridade, mas cabe ao eleitor perguntar quanto do orçamento cada candidatura reserva a essa população e que lugar ela ocupa de fato em seus planos de governo. Entre o aviso e o auge do fenômeno restam poucos meses, tempo ainda suficiente para preparar escolas, postos de saúde e defesa civil. O que nenhum governo poderá dizer, em janeiro, é que foi pego de surpresa.

 *Carolina Maciel, bióloga e gestora ambiental, especialista em clima e periferias. É analista de natureza no Instituto Alana e conselheira do Conama e integrou o Núcleo de Cidades Sustentáveis, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas da Agenda 227.  


*Claudia Vidigal, psicóloga, especializada em administração no terceiro setor, fundadora do Instituto Fazendo História e representante da Fundação Van Leer no Brasil, instituição que integra a Agenda 227. 

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