Memória social, identidade cultural e saberes da floresta marcam o mês de junho no Amazonas com contornos singulares
Currupião: encenação popular em torno de ave rara e encantada era um poderoso agente formador e aglutinador social na cidade
Como observou Luís da Câmara Cascudo, a cultura popular brasileira constitui um vasto patrimônio tecido pelo encontro de povos, tradições e experiências históricas diversas. Muitas de suas manifestações coexistiram com as celebrações religiosas, compartilhando tempos e espaços, mas desenvolvendo significados próprios, relacionados à sociabilidade, à memória coletiva e às formas pelas quais as comunidades se reconhecem e se representam. Em perspectiva semelhante, Mikhail Bakhtin compreendeu as festas populares como momentos privilegiados da vida social, ocasiões em que a coletividade reafirma seus vínculos, celebra sua diversidade e produz linguagens simbólicas capazes de renovar o sentimento de pertencimento.
O mês de junho talvez seja uma das expressões mais eloquentes desse fenômeno. Tradicionalmente associado às festividades de Santo Antônio, São João e São Pedro, tornou-se também, em inúmeras regiões do Brasil, um tempo de encontros comunitários, festivais folclóricos e manifestações culturais de distintas naturezas. Ao lado das novenas, procissões e ritos devocionais, floresceram apresentações artísticas, danças, competições e celebrações populares que possuíam organização, sentido e dinâmica próprios. Havia uma convergência temporal, mas não necessariamente uma identidade de origem ou de finalidade.
No Amazonas, essas manifestações assumiram contornos singulares. A contribuição de povos indígenas, africanos, caboclos, ribeirinhos, nordestinos e migrantes de diferentes procedências produziu um universo cultural marcado pelo entrelaçamento de saberes, musicalidades, narrativas e formas de sociabilidade.
Nesse panorama, o Festival de Parintins alcançou projeção nacional e internacional, consolidando-se como um dos maiores espetáculos culturais do país. Estruturado em torno da disputa simbólica entre os bois Caprichoso e Garantido, tornou-se uma das mais vigorosas expressões da criatividade amazônica contemporânea. Seu sucesso projetou o Amazonas para o mundo e contribuiu decisivamente para o reconhecimento das manifestações culturais da região.
O reconhecimento alcançado por Parintins é uma conquista de toda a cultura amazonense. Ainda assim, sua extraordinária visibilidade não deve obscurecer a memória dos festivais realizados nas demais cidades do estado. Cada município construiu suas próprias formas de celebrar, refletindo histórias locais, modos particulares de sociabilidade e expressões culturais que contribuíram para a formação da identidade amazônica em toda a sua complexidade.
Tefé foi uma dessas cidades.
Durante anos, junho ocupou um lugar singular na vida tefeense. As comemorações do aniversário da cidade, em 15 de junho, a tradicional festa realizada no Humaitá Atlético Club, em 19 de junho, e o Festival Folclórico que encerrava o mês compunham uma sequência de acontecimentos aguardada com entusiasmo pela população. Não se tratava apenas de um calendário festivo, mas de um ciclo de celebrações que contribuía para reforçar os laços comunitários e renovar o sentimento de pertencimento à cidade.
O Festival Folclórico encontrou sua origem e sua consolidação na mobilização da comunidade, dos clubes sociais, das associações, das escolas e dos grupos culturais que viam naquele espaço uma oportunidade para celebrar suas tradições, fortalecer seus vínculos e afirmar seu sentimento de pertencimento.
Mais do que entretenimento, o festival constituía uma forma de autorrepresentação da cidade. Por meio dos cordões, quadrilhas, danças indígenas e africanas, músicas e encenações, Tefé narrava a si mesma. Durante alguns dias, a cidade convertia-se em palco de suas lembranças, de seus afetos e de suas múltiplas identidades. A cultura transformava-se em linguagem coletiva, permitindo que a comunidade se visse refletida em suas próprias tradições.
Seu maior valor residia justamente na capacidade de reunir diferentes matrizes culturais em um mesmo espaço simbólico, convertendo o festival em uma rara experiência de encontro entre culturas. Tal riqueza encontrava uma de suas manifestações mais emblemáticas em um dos cordões folclóricos de Tefé: o Currupião*.
Muito além de uma simples brincadeira junina, o Currupião apresentava-se como uma sofisticada encenação popular, levada tanto ao palco do Festival Folclórico quanto para o Teatro do Seminário São José. Tratava-se de uma verdadeira obra teatral popular, reunindo personagens, músicas, figurinos, cenários e símbolos oriundos de diferentes universos culturais. Sua permanência na memória de gerações de tefeenses não se explica apenas pela beleza do espetáculo, mas também pela extraordinária densidade simbólica de sua trama.
Longe de limitar-se à representação artística, o Currupião atuava como um poderoso agente formador e aglutinador social na cidade. Por muitas gerações, o cordão reuniu e uniu profundamente as pessoas de Tefé, entrelaçando a ficção e a realidade de seus participantes: histórias locais recordam afetuosamente os pares que interpretaram o Príncipe e a Princesa e acabaram por se casar na vida real, bem como as jovens que, após viverem a altivez da Índia Branca Iacy no festival, foram coroadas Misses Tefé. O cordão era, portanto, um celeiro de identidades, afetos e prestígio comunitário.
A trama girava em torno de uma ave rara e encantada, o Currupião, pertencente à Índia Branca Iacy, personagem envolto por uma aura quase mítica. Dotada de características singulares em relação aos demais membros de sua tribo, Iacy evocava a memória das lendárias amazonas presentes no imaginário regional. Em determinado momento da lenda, o pássaro era oferecido como presente a uma princesa de uma corte estrangeira. Retirado de seu ambiente natural e transformado em objeto de desejo e cobiça, perseguido por personagens como a feiticeira, o Currupião acabava por sucumbir.
A morte do pássaro, precisamente após sua retirada do ambiente amazônico ao qual pertencia, não deixa de sugerir uma ruptura simbólica com a ordem natural que sustentava sua existência. O desequilíbrio provocado por esse deslocamento não afeta apenas o destino do Currupião, mas toda a lógica do enredo, que passará a buscar formas de restaurar a harmonia perdida.
É precisamente a partir dessa perda que a narrativa alcança sua maior profundidade. Inicia-se então uma busca para restituir a vida ao pássaro. A princesa convoca sucessivamente personagens oriundos de diferentes tradições culturais: a fada, representante do imaginário europeu; o vassalo e o serafim, vinculados ao universo cortesão e religioso; a cigana, apresentada na narrativa como nascida em Jerusalém e portadora de saberes associados ao imaginário oriental; a camponesa, ligada às virtudes da natureza; e o médico, símbolo do conhecimento científico moderno. Todos fracassam em sua missão.
Somente ao final da narrativa, por meio da realização de uma pajelança, o Currupião retorna à vida.
A solução da trama está longe de ser casual. Ela expressa o reconhecimento dos saberes indígenas e amazônicos como elemento central daquela construção simbólica. Aquilo que não pôde ser alcançado pela magia europeia, pela religiosidade institucional, pelos saberes populares itinerantes ou pela ciência moderna é realizado pelo pajé, cuja intervenção restabelece a harmonia rompida entre o ser humano, a natureza e o mundo espiritual.
Vista sob essa perspectiva, a lenda do Currupião ultrapassa os limites do entretenimento. Sua narrativa sintetiza o encontro entre diferentes matrizes culturais que participaram da formação histórica da Amazônia. Nela convivem referências indígenas, europeias e orientais, mas também ecos das tradições africanas que, ao longo dos séculos, integraram-se profundamente à cultura popular brasileira e amazônica, influenciando musicalidades, ritmos, corporalidades, formas de celebração e modos de compreender a relação entre o mundo material e o espiritual.
Mais do que uma simples encenação, o Currupião representava uma síntese simbólica da experiência amazônica: um universo social formado pela convergência de diferentes tradições e pela permanente reelaboração de suas heranças históricas. O drama do pássaro retirado de seu habitat, a ruptura dos vínculos com seu mundo de origem e sua posterior restauração por meio dos saberes da floresta sugerem uma poderosa metáfora sobre a necessidade de reconciliação entre sociedade, cultura e natureza.
Talvez resida aí a razão de sua permanência no imaginário coletivo de Tefé. O Currupião não era apenas um cordão folclórico. Era uma narrativa sobre pertencimento, equilíbrio e transmissão de heranças coletivas. Era uma forma poética de recordar que a vida floresce quando permanecem vivos os vínculos entre as pessoas, o território e seus repertórios culturais.
Ao celebrar os 171 anos de Tefé, vale recordar não apenas sua trajetória histórica, mas também as tradições que ajudaram a moldar sua identidade coletiva. Os antigos festivais folclóricos não eram apenas festas. Eram momentos em que a comunidade se reunia para celebrar sua história, reafirmar seus vínculos e apresentar a riqueza de suas múltiplas heranças culturais. Em uma época marcada pela crescente uniformização dos grandes espetáculos, recordar esses encontros significa reconhecer que a verdadeira força da cultura amazônica reside justamente em sua diversidade.
Se a antiga lenda do Currupião ensina que a vida somente retorna quando se restabelecem os vínculos rompidos com a floresta e com seus conhecimentos, talvez ainda tenha algo a dizer à Tefé contemporânea. Que sua mensagem de reconciliação entre o ser humano, a natureza e os saberes ancestrais possa inspirar os novos tempos da cidade. Afinal, poucas narrativas expressam tão bem a vocação de Tefé para o diálogo entre culturas, para a diversidade e para a convivência entre povos que, ao longo do tempo, ajudaram a construir a trajetória da cidade.
Dedico este texto à memória de Dona Neomésia Cardoso Retto (Dona Nenén e minha avó), Domingos Franco de Amorim (Moreno) e Everaldino Ferreira (Dino), cujos esforços, histórias e encanto mantiveram essas festas vivas, inspirando o sonho de sucessivas gerações.
* A adaptação da lenda do Currupião realizada por Dona Neomésia Cardoso Retto (Dona Nenen Retto) teve como ponto de partida a versão encenada por Dona Esmeralda, importante referência cultural do bairro de São Jorge, em Manaus. Em 1959, acompanhada de seu neto primogênito, Manoel Augusto Retto, Dona Neomésia assistiu aos ensaios da apresentação, registrando atentamente seus enredos, diálogos e canções. Conforme recorda Manoel Augusto, “a vovó anotava tudo e me incumbiu de memorizar as canções”. A partir dessa vivência, ela desenvolveu uma nova versão da lenda, enriquecida por referências e elementos próprios da tradição amazônica. Concluído o trabalho de adaptação, os diálogos e expressões foram submetidos à apreciação do professor Izidoro Gonçalves de Souza, que promoveu revisões e ajustes linguísticos, contribuindo para a elaboração da versão definitiva da obra. Optou-se por preservar, ao longo deste texto, a grafia original Currupião, conforme registrada na versão adaptada por Dona Neomésia Cardoso Retto. Embora existam variantes ortográficas da denominação em diferentes registros da tradição popular amazônica, manteve-se a forma empregada no manuscrito original em respeito à sua autenticidade histórica e documental.
Sobre o autor: Adalberto da Silva Retto Jr., nascido em Tefé (AM), é arquiteto urbanista e engenheiro agrônomo. Atua como professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). É doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP) e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV), com pós-doutorado no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza - Itália. Foi professor-pesquisador visitante na Universitè Panthéon Sorbonne -Paris I - França.