OPINIÃO

Entre a orla e a floresta: projeto urbano, paisagem e crise climática em Tefé

Em contextos de calor intenso e elevada umidade, o sombreamento das árvores não é um atributo secundário, mas uma condição essencial de habitabilidade

Adalberto da Silva Retto Jr*
23/04/2026 às 11:37.
Atualizado em 23/04/2026 às 11:37

Vista aérea da nova orla da cidade de Tefé, no interior do Amazonas (Divulgação/Prefeitura)

Em outubro de 2023, ao abordar a estiagem do Lago de Tefé e a morte de botos em águas superaquecidas, um dado se destacou: um tema aparentemente localizado – relativo a uma cidade frequentemente percebida como periférica – tornou-se um dos textos mais lidos do Le Monde Diplomatique Brasil. Mais do que um interesse circunstancial, esse alcance indicava um deslocamento de perspectiva: a Amazônia – e suas cidades – deixava de ser margem para se afirmar como centro de uma questão global incontornável.

Retomar Tefé hoje, à luz da recente inauguração de sua orla, permite deslocar o debate da emergência para a construção cotidiana da cidade. Se, naquele momento, a crise expunha a fragilidade dos sistemas ambientais, agora é o projeto urbano que se apresenta como campo de ação – e, sobretudo, de responsabilidade.

Nas cidades amazônicas, cuja formação se dá na interface dinâmica entre águas e terras altas, a orla não se reduz a um limite físico. Trata-se de um espaço estrutural, onde historicamente se articulam mobilidade, trabalho, convivência e paisagem. Em Tefé, essa condição adquire ainda maior complexidade ao se inscrever em uma geografia particular: uma península que se projeta sobre o lago e que abriga, em um de seus lados, um bairro constituído como ilha – o Abial –, evidenciando, desde a própria forma urbana, a intensidade e a ambivalência das relações entre cidade e água.

A antiga “Rua da Frente” condensava essa condição. Marcada pelas grandes mangueiras, pelo casario e por sobrados de expressiva qualidade arquitetônica, configurava uma continuidade sensível entre cidade e lago, associando sombreamento, permanência e acesso direto à água. Não se tratava apenas de uma paisagem, mas de uma infraestrutura cotidiana, onde clima, sociabilidade e território se articulavam de maneira indissociável.

Antes e depois da orla de Tefé, no interior do Amazonas, revitalizada pelo Poder Público

 É justamente essa herança que recoloca uma questão central para o debate contemporâneo: como qualificar espaços coletivos em cidades que, paradoxalmente, mesmo inseridas na maior floresta tropical do planeta, apresentam baixa presença de arborização em suas áreas urbanizadas? Em contextos de calor intenso e elevada umidade, o sombreamento não é um atributo secundário, mas uma condição essencial de habitabilidade.

A intervenção recente na orla pode ser compreendida como parte de um processo em aberto. Ao recolocar a relação com a água no centro da experiência urbana, reafirma a importância política de investir nesses espaços e de reconhecer sua dimensão pública e simbólica. Ao mesmo tempo, explicita desafios que extrapolam o caso específico de Tefé e se manifestam em diversas cidades brasileiras.

Entre esses desafios, destaca-se a necessidade de integrar o componente ambiental — em especial a arborização — como elemento estruturante do projeto, e não como complemento posterior. Trata-se de compreender que paisagem, conforto climático e uso social constituem dimensões indissociáveis.

Outro ponto relevante diz respeito à capacidade de mediação entre cidade e paisagem. O Seminário São José permanece como exemplo eloquente de uma inteligência territorial sedimentada no tempo. Sua implantação evidencia uma rara capacidade de operar simultaneamente em duas frentes: de um lado, organiza e qualifica o espaço da praça; de outro, estabelece uma relação direta e aberta com o lago, acompanhando seus regimes e variações. Essa condição de “dupla fachada” não é apenas um atributo formal, mas um dispositivo espacial que articula escalas, fluxos e usos distintos.

Mais do que um objeto isolado de valor patrimonial, o Seminário constitui uma lição projetual ainda atual: demonstra como a arquitetura pode atuar como interface, e não como barreira, potencializando relações entre sistemas urbanos e ambientais. À luz dessa referência, torna-se mais evidente o desafio contemporâneo de evitar soluções que, ao ocupar a borda de forma contínua e opaca, acabem por fragilizar essa mediação histórica, reduzindo a permeabilidade visual, física e simbólica entre cidade e água.

Da mesma forma, a compreensão da orla como espaço de transição – e não como limite rígido – torna-se fundamental em territórios marcados por regimes sazonais das águas. A coexistência entre praia e cais, entre usos temporários e permanentes, sugere a necessidade de soluções mais abertas e adaptativas, capazes de incorporar a variação como dado constitutivo do projeto.

Ao fundo, permanece a questão que projetou Tefé no debate internacional: a crise climática. As transformações em curso na Amazônia não são abstrações, mas processos concretos que incidem diretamente sobre a forma de habitar e de projetar as cidades. Nesse cenário, a orla deixa de ser apenas espaço público para assumir também o papel de infraestrutura ambiental, articulando proteção, adaptação e experiência.

A experiência recente, portanto, pode ser lida menos como síntese do que como ponto de inflexão. Ao reconhecer a centralidade da água, abre-se a possibilidade de avançar na construção de espaços mais permeáveis, mais sombreados e mais ajustados às condições climáticas e culturais da região. Trata-se de uma agenda em construção, que demanda continuidade, escuta e refinamento.

Se, em 2023, Tefé revelou ao mundo a urgência de sua condição, hoje ela oferece a oportunidade de refletir sobre caminhos possíveis. Entre limites e potencialidades, a orla se afirma como campo de experimentação e como dispositivo capaz de rearticular relações entre cidade, paisagem e sociedade.

Nesse horizonte, pensar Tefé a partir de sua orla implica necessariamente ultrapassar a própria borda e reconhecer sua continuidade territorial. A relação com a Ilha do Abial, nesse sentido, deixa de ser apenas uma possibilidade pontual para se afirmar como estratégia mais ampla de reequilíbrio urbano: valorizar outro quadrante da cidade, reduzir assimetrias históricas e construir uma passagem efetiva entre partes até então dissociadas.

Mais do que estabelecer uma ligação física, trata-se de ativar a própria condição peninsular como projeto, reconhecendo na água não um limite, mas um meio de articulação. A orla, nesse contexto ampliado, deixa de ser margem para se tornar eixo: não apenas de circulação, mas de integração entre paisagem, infraestrutura e vida coletiva.
Entre a orla e a floresta, entre a cidade construída e os sistemas naturais que a sustentam, abre-se, assim, um campo decisivo para o projeto contemporâneo. É nesse intervalo — ao mesmo tempo físico, cultural e político — que se delineiam as possibilidades de um urbanismo mais atento às especificidades amazônicas e mais comprometido com o futuro.

 * Adalberto da Silva Retto Jr., nascido em Tefé (AM), é arquiteto urbanista e engenheiro agrônomo. Atua como professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). É doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP) e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV), com pós-doutorado no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza - Itália. Foi professor-pesquisador visitante na Universitè Panthéon Sorbonne -Paris I - França.

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