ARTIGO

Entre Portugal e Espanha: leitura morfológica das permanências urbanas de Tefé

Leitura situada entre memória, experiência e reflexão crítica, orientada pela tentativa de reencontrar as estruturas sedimentadas que ainda organizam a inteligibilidade da cidade

Adalberto da Silva Retto Jr
18/05/2026 às 11:57.
Atualizado em 18/05/2026 às 11:59

Fachada principal do Seminário São José, voltada mais para o interior da península, antecipou reorganização espacial da cidade (Janailton Falcão/Amazonastur)

Escrever sobre Tefé a partir do campo da arquitetura e urbanismo, em interlocução com a história da cidade e do território, implica confrontar-se com uma condição paradoxal: à medida que o tempo e a distância ampliaram os instrumentos críticos de interpretação da urbanização amazônica, tornaram-se mais rarefeitas as mediações imediatas com aquilo que originalmente constituiu a cidade como experiência vivida. A trajetória acadêmica produziu deslocamentos geográficos, intelectuais e temporais que dificultaram o retorno sistemático aos arquivos e às fontes documentais capazes de sustentar, com o rigor historiográfico desejável, uma reconstituição exaustiva de sua formação urbana.

Esse distanciamento, contudo, não produziu apagamento. Ao contrário, permitiu que determinadas permanências emergissem com maior nitidez, tornando mais legíveis as camadas profundas da cidade. A memória não aparece, aqui, como contraposição à historiografia, mas como procedimento interpretativo complementar, capaz de apreender dimensões da experiência urbana frequentemente ausentes da documentação oficial: os percursos cotidianos, as formas de sociabilidade, os modos de habitar e as ambiências que atribuíam sentido aos espaços urbanos.

Nesse intervalo, Tefé permaneceu inscrita de outra maneira: não apenas nos registros documentais, mas também na memória. Os nomes das ruas tornam-se imprecisos e parcialmente dissolvidos pelo tempo; persistem, entretanto, as famílias, as relações de vizinhança, os deslocamentos reiterados e os modos de convivência que singularizavam cada setor da cidade. A cartografia afetiva daí resultante organiza-se menos pela nomenclatura oficial do que pelas práticas sociais sedimentadas no território. Mais do que evocação subjetiva, essa memória opera como instrumento de reconhecimento das permanências espaciais e das continuidades morfológicas que estruturam a cidade para além de suas transformações imediatas.

Tal perspectiva aproxima-se das formulações de Vittorio Gregotti (1927–2020), para quem a materialidade urbana — suas permanências, sedimentações e formas construídas — constitui fonte primária de interpretação histórica. Em chave semelhante, os estudos tipológicos de Saverio Muratori (1910–1973) e as leituras morfológicas desenvolvidas por Philippe Panerai (1940–2023) permitem compreender a cidade como resultado de sucessivas camadas de sedimentação, nas quais traçados, alinhamentos, tipologias edilícias e relações territoriais preservam temporalidades sobrepostas. A cidade não se revela apenas nos documentos escritos, mas também nas persistências formais, nos vazios, nas continuidades espaciais e nas relações entre arquitetura e território que operam como arquivo material de longa duração.

O que se apresenta, portanto, não pretende constituir uma história definitiva de Tefé, tampouco uma interpretação totalizante de seu processo de urbanização. Trata-se de uma leitura situada entre memória, experiência e reflexão crítica, orientada pela tentativa de reencontrar, nas espacialidades vividas e nas permanências morfológicas, as estruturas sedimentadas que ainda organizam a inteligibilidade da cidade.

Parte das informações históricas mobilizadas nesta leitura — especialmente aquelas relativas às missões religiosas, às disputas territoriais luso-espanholas e à formação inicial de Tefé — provém de uma tradição historiográfica regional amplamente difundida em compilações secundárias, documentos locais e materiais de circulação pública, muitas vezes reproduzidos sem indicação precisa de fontes primárias. Tais dados são aqui empregados não com pretensão de revisão historiográfica exaustiva, mas como contextualização necessária para uma interpretação centrada nas permanências morfológicas e territoriais da cidade.

Três camadas e três tempos

A morfologia de Tefé organiza-se a partir de três momentos estruturantes de sua formação urbana: inicialmente, a ocupação articulada à Rua da Frente e às dinâmicas do lago; posteriormente, a interiorização da centralidade na península em torno da Catedral de Santa Teresa; e, por fim, a consolidação do aparato republicano, responsável por introduzir nova escala institucional na paisagem urbana com a implantação da Prefeitura Municipal — atual Palácio Bertholetia excelsa.

Vista aérea de Tefé, município do Médio Solimões, região centro-oeste do Estado do Amazonas

 1.A ocupação articulada ao lago e a formação da frente fluvial

O primeiro tempo define a lógica originária da ocupação articulada ao lago. Em Tefé, o casario e a presença da Igreja do Bom Jesus evidenciam uma configuração urbana em que a frente d’água constitui o principal eixo organizador da vida urbana. Ali concentram-se trocas comerciais, circulação de mercadorias, deslocamentos e formas de sociabilidade diretamente associadas à dinâmica fluvial. A água, nesse contexto, não opera como limite, mas como matriz territorial da urbanização.

Essa relação entre ocupação humana e território antecede a própria colonização portuguesa. A literatura histórica e etnográfica clássica sobre a Amazônia registra a presença de diferentes grupos indígenas na região do lago Tefé, entre eles os Tupebas ou Tapibas, aos quais costuma ser associada a origem do próprio nome da cidade. Mais do que reconstituir precisamente essas ocupações iniciais — tarefa que exigiria investigação arqueológica e documental específica —, interessa aqui reconhecer que a lógica de apropriação territorial anterior à colonização europeia já se organizava em estreita relação com os sistemas fluviais, os ciclos sazonais e as dinâmicas de mobilidade na floresta. Nesse sentido, é possível supor que determinados percursos posteriormente incorporados à ocupação colonial — inclusive trechos da própria Rua da Frente ou caminhos associados aos eixos peninsulares — tenham assimilado trajetos preexistentes vinculados à circulação entre lago, terra firme e áreas de ocupação sazonal.

Essa primeira camada aproxima-se, ainda que de maneira crítica e necessariamente revisada à luz da historiografia contemporânea, da interpretação do “semeador” formulada por Sérgio Buarque de Holanda (1902–1982) em Raízes do Brasil (1936). Embora tal formulação tenha sido posteriormente relativizada por estudos que evidenciaram maior complexidade e diversidade nos processos de urbanização luso-americanos, ela permanece relevante como chave interpretativa para compreender formas de ocupação mais adaptativas, moldadas menos por geometrias abstratas e mais pelas condições concretas do território, da hidrografia e das dinâmicas ambientais amazônicas.

A consolidação inicial de Tefé insere-se no contexto mais amplo das disputas territoriais entre Portugal e Espanha pela ocupação da Amazônia. Entre o final do século XVII e o início do XVIII, missões religiosas, deslocamentos populacionais e sucessivos conflitos de soberania contribuíram para redefinir continuamente os núcleos de ocupação ao longo do Solimões. Mais do que reconstruir detalhadamente esse processo histórico, interessa aqui compreender de que maneira tal condição fronteiriça repercutiu na configuração espacial da cidade nascente. Nesse contexto de instabilidade territorial, a região do lago Tefé consolidou-se progressivamente como ponto estratégico de fixação populacional e articulação fluvial, favorecendo a formação dos primeiros assentamentos permanentes na margem direita do lago. Essa condição territorial instável e continuamente renegociada marcaria posteriormente a própria organização espacial de Tefé, situada entre adaptação ao sítio amazônico e afirmação institucional do domínio colonial.

A distância em linha reta entre Tefé, na foto acima, e a capital do Amazonas, Manaus, é de aproximadamente 525 km

 2. O deslocamento da centralidade e a consolidação do núcleo peninsular

O segundo tempo corresponde ao deslocamento progressivo da centralidade urbana para o interior da península sobre a qual se organiza a cidade. A constituição desse núcleo interiorizado, contudo, não se inicia exclusivamente com a Catedral de Santa Teresa. A própria implantação do Seminário São José, construído anteriormente à catedral, já indicava uma inflexão significativa na lógica de orientação urbana de Tefé. Sua fachada principal, voltada menos para a frente fluvial e mais para o interior da península, antecipava uma reorganização espacial posteriormente consolidada pela catedral e, em outro registro institucional, reforçada pela implantação da Prefeitura. Mais do que episódios arquitetônicos isolados, esses edifícios participam de um mesmo processo de redefinição da centralidade urbana e de interiorização progressiva da estrutura da cidade.

A consolidação desse conjunto institucional introduz novas relações de axialidade, hierarquia espacial e ordenação compositiva no desenvolvimento urbano de Tefé. A leitura morfológica do núcleo formado pela Catedral de Santa Teresa, pelo Seminário São José e pelos edifícios posteriormente implantados em seu entorno evidencia uma transformação decisiva na organização espacial da cidade. A partir desse momento, Tefé deixa de estruturar-se exclusivamente pela linearidade da margem fluvial e passa a articular também eixos transversais, perspectivas internas e relações compositivas voltadas ao interior da península, redefinindo a inteligibilidade territorial de sua forma urbana. Implantada aproximadamente no centro da península, a Catedral de Santa Teresa assume papel articulador fundamental nesse processo, organizando uma estrutura espacial em cruz que projeta vetores urbanos em diferentes direções e passa a abraçar visual e territorialmente o lago como totalidade, e não apenas como frente linear de ocupação.

Essa transformação explicita uma condição híbrida particularmente reveladora. Se a adaptação ao sítio amazônico e às margens fluviais aproxima Tefé da tradição portuguesa de urbanização — caracterizada pela acomodação topográfica e pela relativa flexibilidade do traçado —, a constituição desse núcleo interiorizado introduz espacialidades que evocam, ainda que parcialmente, repertórios associados às experiências urbanas hispano-americanas. Embora Tefé jamais tenha assumido a rigidez geométrica prescrita pelas Leyes de Indias, determinados elementos — como a centralidade monumental da catedral, os alinhamentos perspectivos e a articulação entre edifícios institucionais e eixos territoriais — aproximam-se de uma lógica urbana mais hierarquizada e compositivamente estruturada, reinterpretada, contudo, pelas condições ambientais amazônicas e pela tradição luso-brasileira de adaptação ao relevo e à hidrografia.

Tal ambiguidade não se restringe à dimensão formal, mas expressa igualmente uma condição histórica e geopolítica específica. A ocupação portuguesa da Amazônia consolidou-se em territórios que ultrapassavam os limites originalmente estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas, posteriormente legitimados pelo princípio do uti possidetis e pelas negociações diplomáticas que culminariam no Tratado de Madri, em 1750. A antiga Vila de Ega — denominação atribuída a Tefé quando elevada à categoria de vila, em 1759 — situava-se precisamente nesse espaço de fronteira continuamente negociado entre as coroas ibéricas. Nesse contexto, a permanência da devoção a Santa Teresa d’Ávila, vinculada ao universo espiritual hispânico, revela como determinadas referências simbólicas associadas à presença espanhola permaneceram inscritas na formação cultural e institucional da cidade, mesmo após sua consolidação como território português.

Ao longo do século XIX, Tefé consolidou-se como importante centro territorial do Alto Amazonas. Em diferentes momentos, seu vasto território administrativo abrangia áreas que posteriormente dariam origem a diversos municípios amazônicos, condição que reforça sua relevância regional na estruturação da Amazônia ocidental. A elevação à categoria de cidade, em 1855, coincide com um período de maior estabilização institucional e fortalecimento de sua centralidade político-administrativa, consolidando o papel de Tefé como núcleo articulador de uma extensa rede territorial amazônica.

3. O aparato republicano e a estabilização da cruz urbano-territorial

O terceiro tempo corresponde à consolidação do aparato representativo da República e à afirmação de uma nova racionalidade cívico-institucional no espaço urbano de Tefé. A Prefeitura Municipal — atual Palácio Bertholletia excelsa —, o Grupo Escolar Santa Teresa e, posteriormente, edifícios escolares como o Grupo Escolar Eduardo Ribeiro introduzem uma presença institucional concebida em escala urbana e portadora de forte representação simbólica. Mais do que novos equipamentos públicos, esses edifícios participam da consolidação de uma ordenação espacial que amplia e estabiliza a estrutura morfológica anteriormente organizada em torno do núcleo religioso.

A Prefeitura constitui a expressão mais evidente dessa transformação. Elevada em relação ao nível da rua por meio de uma balaustrada que lhe confere caráter de plinto cívico, o edifício afirma uma solenidade própria da representação republicana. Sua implantação e sua linguagem arquitetônica introduzem no tecido urbano uma gramática institucional distinta daquela anteriormente concentrada na catedral. Se o Seminário São José e a Catedral haviam iniciado o deslocamento da centralidade para o interior da península, a Prefeitura reforça essa inflexão ao conferir ao novo núcleo urbano uma dimensão explicitamente cívica e administrativa.

Os grupos escolares participam da mesma lógica de afirmação territorial do Estado republicano. Mais do que equipamentos educacionais, esses edifícios operam como marcos espaciais capazes de estabilizar alinhamentos, perspectivas urbanas e relações entre diferentes setores da península. A partir desse momento, a cidade deixa de organizar-se apenas pela coexistência entre margem fluvial e núcleo religioso e passa a consolidar uma configuração urbana mais claramente estruturada por eixos institucionais permanentes.

Tendo a Catedral de Santa Teresa como núcleo articulador, a cruz urbano-territorial consolida-se então como principal matriz morfológica de Tefé. O eixo transversal, formado pela Catedral, pelo Seminário São José e pelo Grupo Escolar Santa Teresa, estrutura espacialmente a largura da península e estabiliza o núcleo institucional da cidade. O eixo longitudinal, por sua vez, articula a extremidade voltada ao lago e projeta os principais vetores de expansão urbana: a sudoeste, em direção ao cemitério e, posteriormente, ao aeroporto e aos novos bairros; e ao sul, em direção ao Hospital São Miguel.

Essa estrutura em cruz não constitui apenas figura interpretativa, mas dispositivo efetivo de organização territorial. Ela articula representação institucional, continuidade morfológica e direções de crescimento urbano, conferindo inteligibilidade à forma peninsular de Tefé. Ao consolidar o centro da península como núcleo irradiador da urbanização, essa cruz espacial passa também a reorganizar a relação da cidade com o lago, não mais compreendido apenas como frente linear de ocupação, mas como horizonte territorial abrangido e articulado pela própria estrutura urbana.

As transformações contemporâneas, contudo, introduzem tensões crescentes sobre essa matriz histórica. A expansão periférica, a dispersão urbana e a ocupação progressiva das bordas da península tornam menos legível a clareza morfológica anteriormente produzida pela cruz urbano-territorial e pelos eixos estruturadores da cidade. Ainda assim, alguns traços morfológicos continuam perceptíveis no espaço urbano e seguem sugerindo relações importantes entre forma, território e processos históricos de ocupação.

Tefé apresenta-se, assim, menos como resultado de uma evolução linear do que como campo de sedimentações sucessivas, no qual a ocupação articulada às dinâmicas do lago, a interiorização da centralidade cívico-religiosa e a posterior consolidação do aparato republicano sobrepõem-se sem eliminar integralmente as estruturas anteriores. Sua configuração urbana parece derivar menos de uma matriz única ou de um traçado previamente definido do que de um processo contínuo de acomodação entre hidrografia, adaptação topográfica, institucionalização espacial e representação simbólica do poder.

Nessa perspectiva, a condição híbrida de Tefé — simultaneamente portuguesa e hispano-americana, fluvial e axial, orgânica e monumental — pode ser compreendida como uma chave interpretativa possível para a leitura de sua morfologia urbana e de suas permanências territoriais. Mais do que propor uma síntese definitiva sobre a formação da cidade, este ensaio procura indicar algumas relações entre memória, espacialidade e estrutura urbana que talvez contribuam para futuras interpretações sobre os processos históricos de urbanização na Amazônia.


Adalberto da Silva Retto Jr é professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP), com atuação nos campos do planejamento urbano e territorial e da história da cidade e do território. Foi professor-pesquisador visitante Université Panthéon-Sorbonne (Paris I), representante da UNESP no CONDEPHAAT e coordenador do PlanUPP Curso Internacional de Especialização lato sensu em Planejamento Urbano e Políticas Públicas: Urbanismo, Paisagem, Território. Doutor pela FAU-USP (FAPESP), realizou estágio de doutorado sanduíche e pós-doutorado na Università Iuav di Venezia (CNPq/FAPESP).

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