Expansão do diabetes e desigualdade de acesso ampliam o interesse por rastreamento remoto, mas especialista ressalta que tecnologia precisa estar ligada a diagnóstico, encaminhamento e tratamento
A ampliação do número de pessoas com diabetes e a persistência de barreiras ao atendimento oftalmológico colocaram a teleoftalmologia no centro das estratégias de prevenção da perda visual. A Organização Mundial da Saúde estima que ao menos 2,2 bilhões de pessoas convivem com algum grau de deficiência visual e que pelo menos 1 bilhão desses casos poderiam ter sido prevenidos ou ainda não receberam cuidados adequados. Para a retinopatia diabética, a detecção precoce e o tratamento oportuno são considerados essenciais porque alterações da retina podem avançar antes de o paciente perceber sintomas.
O modelo mais difundido combina a captura de fotografias do fundo do olho em unidades próximas à população com análise posterior por profissionais capacitados ou sistemas validados. Pessoas sem sinais referenciáveis podem seguir no acompanhamento periódico, enquanto imagens alteradas, inconclusivas ou associadas a risco clínico levam à avaliação presencial. A proposta busca reduzir deslocamentos e usar consultas especializadas de forma mais direcionada, sem substituir o exame completo quando ele é necessário.
Uma revisão sistemática publicada no BMJ Open Ophthalmology em 2022 reuniu 28 estudos e encontrou, para qualquer retinopatia diabética, sensibilidade agregada de 91% e especificidade de 88%. Para a doença considerada referenciável, os valores foram 88% e 86%. Os resultados sustentam a utilidade do rastreamento remoto, mas os autores observaram diferenças entre estudos e classificaram a certeza das evidências entre baixa e moderada, conforme o desfecho.
Para o oftalmologista João Neves de Medeiros, que há mais de 18 anos atua na medicina e reuniu experiência em córnea, telemedicina, regulação, auditoria e liderança de serviços, os números precisam ser lidos dentro da organização do cuidado. “Uma imagem de boa qualidade pode ajudar a identificar quem necessita de avaliação especializada, mas ela só produz benefício quando o resultado chega ao paciente e existe um caminho definido para consulta e tratamento. Rastreamento não é apenas fotografar a retina; é acompanhar a pessoa até a decisão clínica adequada”, afirma.
“A teleoftalmologia permite aproximar o rastreamento da atenção primária e organizar prioridades, especialmente em populações que enfrentam distância ou escassez de especialistas. Mas o programa precisa medir imagens não avaliáveis, tempo de resposta, comparecimento ao encaminhamento e acesso ao tratamento. Se acompanharmos apenas o número de exames, corremos o risco de confundir produção com cuidado”, acrescenta João de Medeiros.
A preocupação é compatível com as recomendações da OMS para cuidado ocular integrado e centrado na pessoa. A organização defende que serviços de saúde ocular sejam articulados ao sistema de saúde, com indicadores de cobertura, qualidade e continuidade. Na prática, isso significa conectar o resultado da triagem ao prontuário, definir níveis de urgência e monitorar pessoas que não conseguem completar o percurso assistencial.
A discussão também atravessou sua atuação institucional. Medeiros coordenou serviço e programa de residência médica, presidiu a Sociedade Mineira de Oftalmologia entre 2021 e 2023 e participou de atividades do Conselho Brasileiro de Oftalmologia relacionadas à saúde suplementar e ao Sistema Único de Saúde. Em 2016, recebeu o primeiro lugar no 2º Ciclo de Inovação da Unimed-BH e, em 2022, uma distinção da Sociedade Brasileira de Oftalmologia por contribuição à especialidade. Os reconhecimentos dão dimensão à trajetória, enquanto o mérito de cada programa permanece sujeito a evidências, indicadores e resultados.
A inteligência artificial começa a participar dessa estrutura ao classificar imagens ou indicar casos que exigem revisão. Sistemas automatizados podem aumentar a escala, mas seu desempenho varia conforme equipamento, qualidade da imagem e população. “Automação responsável não elimina governança clínica. É preciso saber em quais condições o sistema foi validado, como ele se comporta em diferentes grupos e o que acontece quando não consegue produzir uma resposta segura”, observa o oftalmologista.
O interesse por soluções remotas cresce ao mesmo tempo em que os serviços tentam lidar com filas e recursos limitados. Para Medeiros, o ganho mais consistente ocorre quando a tecnologia reorganiza o fluxo sem afastar o especialista dos casos de maior risco. “A consulta presencial continua indispensável para sintomas, imagens inadequadas, suspeita de doença relevante e acompanhamento terapêutico. A tecnologia deve ampliar a capacidade de cuidado, e não criar uma falsa sensação de que todo exame ocular cabe em uma fotografia”, conclui.
A partir dessa experiência acumulada, Joãl estuda estruturar uma futura iniciativa profissional nos Estados Unidos, ainda em fase de planejamento, voltada à integração entre saúde ocular, tecnologia, gestão assistencial e educação. A proposta aparece como extensão de uma trajetória dedicada a aproximar evidência clínica, organização de serviços e prevenção da perda visual, sem antecipar formato definitivo ou resultados.