Em 1876, o inglês Henry Wickham retirou da Amazônia cerca de 70 mil sementes de seringueira, naquilo que hoje chamaríamos de biopirataria, e as levou para o Jardim Botânico de Londres.
(Foto: Divulgação)
Todos conhecem a história da prosperidade que tomou conta da Amazônia no final do século XIX e início do século XX. Manaus e Belém, respectivamente no Amazonas e no Pará, enriquecidas pela economia da borracha, ganharam ares de metrópoles europeias. Também sabemos como aqueles tempos de abundância chegaram ao fim.
Em 1876, o inglês Henry Wickham retirou da Amazônia cerca de 70 mil sementes de seringueira, naquilo que hoje chamaríamos de biopirataria, e as levou para o Jardim Botânico de Londres. Leia, a respeito, “O ladrão do fim do mundo”, de Joe Jackson. Apenas uma pequena parcela germinou, mas foi suficiente. Mudas produzidas a partir dessas sementes acabaram transferidas para possessões britânicas na Ásia, onde a seringueira encontrou condições para o cultivo organizado em grandes plantações. Em algumas décadas conquistaria o mercado internacional, tornando-nos irrelevantes.
As razões do declínio foram muitas. Entre elas estava um modelo econômico dependente de um único produto e baseado na exploração extrativista, dispersa pela imensidão da floresta, muitas vezes em lugares de difícil acesso. Havia, contudo, outra grande fragilidade, talvez ainda mais grave quando observada à distância de mais de um século, consubstanciada na falta de investimentos continuados e estratégicos em pesquisa, ciência e tecnologia sobre as riquezas da floresta, inclusive sobre o próprio produto que sustentava a economia regional.
E é justamente aí que os fatos adquirem contornos de ironia e de tragédia. Vocês sabiam que o Amazonas tinha, naquele momento, uma instituição que poderia ter ajudado a construir outro e promissor caminho?
Sim, pois em pleno Império do Brasil, Manaus abrigou o Museu Botânico do Amazonas, criado pela Lei Provincial nº 629, de 18 de junho de 1883, e inaugurado em 16 de fevereiro de 1884, com o apoio da princesa Isabel, durante o governo de José Paranaguá.
Para dirigi-lo foi convidado João Barbosa Rodrigues, um dos mais importantes botânicos brasileiros de sua época. Homem culto, de pensamento conjugado à ação, Rodrigues não limitou seus estudos à botânica, dedicou-se também à arqueologia, à etnografia, à linguística indígena e à história natural.
Sob sua direção, o Museu Botânico desenvolveu pesquisas sobre a flora amazônica, procurando identificar propriedades medicinais e outras possíveis aplicações econômicas das plantas. A entidade mantinha intercâmbio com museus e pesquisadores brasileiros e estrangeiros e chegou a contar com laboratório de química, herbário, coleções etnográficas e uma coleção viva de plantas amazônicas. Produzia, ainda, uma revista científica, a Vellosia.
E funcionou, a princípio, na Ilha de Caxangá, onde hoje fica a Manaus Moderna, às margens do Rio Negro.
Isso pode parecer algo corriqueiro aos olhos do século XXI. Não era. Na época, criar uma instituição dedicada a estudar sistematicamente a biodiversidade amazônica representava uma visão extraordinariamente avançada. Apesar das limitações materiais e financeiras, o Museu Botânico do Amazonas figurava entre as iniciativas pioneiras de produção científica na região.
Barbosa Rodrigues, que mais tarde dirigiria o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, deixou uma marca tão expressiva na vida intelectual amazonense que se tornou patrono da cadeira nº 38 da Academia Amazonense de Letras.
Aquela experiência, porém, duraria pouco. Com o advento da República, o Museu Botânico encontrou seu fim. Em 1890, durante o governo de Augusto Ximeno de Villeroy, ele foi extinto em meio às medidas de reorganização das finanças públicas.
O Museu já enfrentava dificuldades de financiamento, é verdade, mas a decisão de encerrá-lo revelou algo que atravessaria gerações, qual seja, a dificuldade de compreender investimento em ciência não como despesa, mas como construção de pontes para o futuro.
É impossível saber o que teria acontecido caso o Museu Botânico tivesse sobrevivido e se fortalecido. Talvez nem mesmo uma instituição científica consolidada fosse capaz de impedir a derrocada da economia da borracha, sobretudo porque a concorrência asiática já se organizava em bases produtivas muito mais eficientes.
Outra pergunta, todavia, é inevitável: o que poderia ter sido descoberto? Quantos produtos, princípios ativos, alimentos, fibras, óleos, essências e outras aplicações econômicas da biodiversidade amazônica poderiam ter sido estudados?Quantas alternativas econômicas, complementares ou substitutas à borracha, poderiam ter surgido a partir do conhecimento produzido sobre a floresta? O quanto de respostas teríamos, enfim, para enfrentar os dilemas ambientais e econômicos do presente?
(Continua)
Júlio Antonio Lopes Advogado e jornalista
julioajlopes24@gmail.com