Especialista em gestão de projetos aponta que integração entre recursos, equipes, governança e execução se tornou parte crítica de iniciativas de tecnologia e educação
A expansão dos investimentos em transformação digital trouxe uma mudança menos visível para quem observa o setor de fora: projetos de tecnologia passaram a exigir estruturas de gestão capazes de conectar orçamento, pessoas, fornecedores, infraestrutura e objetivos institucionais em uma mesma operação.
Pesquisa global divulgada pelo Project Management Institute em 2025, com mais de 5,8 mil profissionais e stakeholders, mostrou que apenas metade dos projetos analisados alcançou uma definição moderna de sucesso, baseada na geração de valor proporcional ao esforço e ao investimento. Outros 37% entregaram apenas parcialmente os resultados esperados e 13% fracassaram. Entre executivos ouvidos pelo instituto, a desconexão entre planejamento e execução apareceu como a principal barreira à reinvenção organizacional.
É nesse ponto que a atuação do gerente de projetos deixou de ser predominantemente operacional e passou a ocupar uma posição de integração dentro das organizações, segundo Ann Jakelynne Magalhães Rodrigues, profissional com mais de duas décadas de experiência em gestão administrativa, financeira e institucional.
“O cronograma continua importante, assim como o orçamento, mas eles não explicam sozinhos se um projeto está funcionando. Em iniciativas complexas, é preciso observar como as áreas se conectam, onde estão os riscos, se os recursos acompanham as prioridades e se a estrutura administrativa consegue sustentar aquilo que está sendo desenvolvido”, afirma Ann.
A avaliação encontra paralelo em outra pesquisa do PMI. Em estudo sobre escritórios de projetos de alto desempenho, 80% das estruturas classificadas entre as de melhor desempenho demonstraram capacidade de entregar valor aos clientes, ante 43% entre aquelas de desempenho inferior.
Na prática, essa integração ganha dimensão maior em projetos que combinam educação e tecnologia. Ann atua na gestão do projeto Apple Developer Academy desenvolvido no Instituto Federal do Ceará, com apoio da Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura. O programa é voltado à pesquisa, inovação e formação de estudantes para o desenvolvimento de produtos nas plataformas Apple.
Dados oficiais do Polo de Inovação do IFCE dimensionam a operação: o ciclo do programa com vigência entre dezembro de 2023 e dezembro de 2026 possui orçamento de R$ 30.625.617,65 e tem a FCPC como fundação de apoio.
Nesse ambiente, Ann responde por uma frente que ultrapassa o acompanhamento convencional de projetos. Sua atuação reúne planejamento de custos e riscos, ordenação de despesas, relatórios financeiros, folha de pagamento, aquisições nacionais e internacionais, infraestrutura tecnológica, prestação de contas e coordenação de equipes.
“Quando várias frentes dependem umas das outras, uma decisão administrativa aparentemente pequena pode produzir efeitos em orçamento, prazo, contratação ou infraestrutura. Por isso, procuro trabalhar com uma visão integrada, acompanhando as interfaces entre as áreas e não apenas cada atividade separadamente”, explica.
Essa forma de organização representa um dos elementos mais consistentes da experiência profissional de Ann. Antes da atual posição, ela já havia atuado na coordenação administrativa e financeira de projetos de qualificação profissional e pesquisa e desenvolvimento, inclusive iniciativas relacionadas à Lei de Informática, além de ocupar funções executivas em organizações ligadas à tecnologia e ao desenvolvimento institucional.
A experiência também inclui processos de implantação e expansão institucional. Desde setembro de 2025, Ann ocupa paralelamente a Diretoria-Presidência do Instituto de Tecnologia e Treinamento do Norte, o Open Innovation Lab, onde participa do planejamento institucional, governança, desenvolvimento organizacional e expansão da estrutura, incluindo a implantação de uma unidade em Fortaleza.
Sua trajetória permite demonstrar de maneira mais consistente a aplicação recorrente de um modelo de gestão baseado na integração entre planejamento, controle financeiro, riscos, infraestrutura, pessoas, prestação de contas e articulação institucional.
“Gestão não deveria aparecer apenas quando surge um problema. Quanto mais cedo orçamento, infraestrutura, pessoas e objetivos são tratados como partes do mesmo projeto, maior é a capacidade de identificar desvios e tomar decisões antes que eles comprometam a execução”, afirma Ann.
Essa visão acompanha uma transformação mais ampla da profissão. Em vez de medir projetos exclusivamente pela entrega no prazo, dentro do orçamento e do escopo, pesquisas recentes do PMI vêm defendendo uma avaliação centrada também no valor efetivamente produzido.
Para Ann, essa mudança torna a gestão especialmente relevante em projetos de inovação. “A tecnologia pode ser o elemento mais visível, mas existe uma estrutura inteira que permite que uma iniciativa avance. Quando essa estrutura funciona de forma coordenada, as equipes técnicas conseguem concentrar energia naquilo que realmente precisam desenvolver.”