OPINIÃO

Eleições na era da inteligência artificial: o voto entre a verdade e a manipulação

Por Giselle Falcone Medina, advogada, ex-conselheira da OAB Amazonas, ex-juíza e ex-ouvidora do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas e candidata mais votada da lista sêxtupla da OAB/AM para o Quinto Constitucional

Giselle Falcone Medina
03/07/2026 às 19:17.
Atualizado em 07/07/2026 às 16:38

A mentira agora tem rosto, voz e movimento.

 Nas eleições de 2026, o eleitor brasileiro não enfrentará apenas discursos exagerados, promessas sedutoras ou ataques políticos. Enfrentará também uma realidade nova e preocupante: a possibilidade de receber, no próprio celular, imagens, áudios e vídeos aparentemente verdadeiros, mas fabricados por inteligência artificial.

 A democracia sempre dependeu da confiança. Confiança no processo eleitoral, nas instituições, na liberdade do eleitor e, sobretudo, na possibilidade de cada cidadão formar sua opinião a partir de informações verdadeiras. O voto é livre não apenas quando ninguém constrange fisicamente o eleitor, mas também quando sua vontade não é capturada por mentiras, falsificações ou manipulações invisíveis.

 A inteligência artificial já faz parte da vida cotidiana. Está nos aplicativos, nas redes sociais, nas mensagens instantâneas e, inevitavelmente, também estará na política. A tecnologia, por si só, não é inimiga da democracia. Pode ampliar o acesso à informação, aproximar candidatos e eleitores e tornar o debate público mais dinâmico. O problema começa quando ela deixa de servir ao esclarecimento e passa a ser usada para fabricar uma realidade artificial.

 A manipulação eleitoral não é novidade. Boatos, acusações falsas e campanhas de desinformação sempre existiram. O que mudou foi a velocidade, a escala e o grau de sofisticação. Hoje, uma imagem falsa, uma voz clonada ou um vídeo manipulado podem alcançar milhares de pessoas em poucos minutos, muitas vezes antes que a verdade consiga reagir.

 Esse é o grande risco. O eleitor pode receber um vídeo aparentemente real de uma pessoa pública dizendo algo que nunca disse. Pode ouvir um áudio com voz semelhante à de um candidato, de uma autoridade ou de um jornalista. Pode ver uma fotografia fabricada com aparência perfeita. Pode ser atingido por mensagens feitas para despertar medo, revolta ou indignação.

 Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas individual. Não se trata somente de um eleitor enganado. Trata-se da própria integridade do processo democrático. A eleição pressupõe disputa de ideias, propostas, trajetórias e programas. Mas não há disputa legítima quando a vontade popular é contaminada por falsificações tecnológicas.

 Por isso, a Justiça Eleitoral tem dado atenção crescente ao tema. As regras sobre propaganda eleitoral passaram a enfrentar expressamente o uso da inteligência artificial, especialmente quando ela é empregada para criar ou divulgar conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados. A preocupação é necessária: proteger a liberdade do voto sem sufocar a liberdade de expressão.

 Esse equilíbrio é essencial. Em uma democracia, críticas duras, sátiras, opiniões fortes e divergências políticas devem ser preservadas. O que não se pode admitir é transformar liberdade de expressão em licença para fraudar a percepção da realidade.

 No Amazonas, esse tema merece atenção especial. Vivemos em um Estado de grandes distâncias, com municípios afastados e forte circulação de informações por aplicativos de mensagem. Em muitas comunidades, a notícia chega primeiro pelo celular, pelo grupo da família, da igreja, do trabalho, da escola ou da comunidade. Nem sempre há tempo, estrutura ou hábito de verificar a origem da informação.

 Nesse ambiente, a desinformação pode viajar mais rápido que a verdade. E a mentira, quando repetida muitas vezes, pode destruir reputações, alterar percepções, estimular intolerância, descredibilizar instituições e influenciar escolhas eleitorais.

 A proteção do voto, portanto, não depende apenas dos tribunais. A Justiça Eleitoral tem papel essencial, assim como o Ministério Público, a advocacia, a imprensa, os partidos, as plataformas digitais e os candidatos. Mas há também uma responsabilidade cidadã. Cada eleitor precisa compreender que compartilhar é também participar. Quem repassa uma mentira, ainda que sem intenção, pode ajudar a produzir danos.

 Antes de encaminhar uma mensagem, é preciso perguntar: sei de onde veio? A fonte é confiável? Outros veículos confirmaram? A imagem parece manipulada? O conteúdo apela apenas para medo, ódio ou escândalo? Na dúvida, o gesto mais responsável pode ser não compartilhar.

 As eleições de 2026 serão um teste de confiança. Confiança nas instituições, na imprensa profissional, na Justiça Eleitoral e, principalmente, na capacidade do cidadão de resistir à manipulação. A inteligência artificial pode produzir textos, imagens e vozes. Mas não deve substituir a consciência crítica do eleitor.

 No fim, o voto continuará sendo um ato humano: silencioso, individual e soberano. Justamente por isso, deve ser protegido contra tudo aquilo que tenta transformar liberdade em ilusão e escolha em manipulação.

 Defender o voto começa antes da urna. Começa no cuidado com aquilo em que acreditamos, com aquilo que compartilhamos e com aquilo que aceitamos como verdade. 

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