Apontamentos sobre o pensar de Byung-Chul Han, autor que ensina: 'O sujeito do desempenho está em guerra consigo mesmo'
(Pexels/Cottonbro)
No livro "Sociedade paliativa – a dor hoje" (Vozes, 2021), Byung-Chul Han faz recortes de nós em meio aos arremessos da bola do jogo jogado nos tempos atuais onde o movimento é o like, signo do sim, analgésico do presente. Em Han a sociedade do curtir leva a um embotamento, a uma desconstrução da realidade; a digitalização é anestesiação e curtição tem múltiplas causas.
Arte: é forçada, hoje, com toda a violência no espartilho do curtir. Artistas se encontram, eles mesmos, sob a coação de se estabelecerem como marcas. Os artistas se tornam conformes ao mercado e curtíveis.
Seja feliz: nova fórmula da dominação {...} Como capital positivo, a felicidade deve garantir capacidade para o desempenho ininterrupta. Automotivação e auto-otimização fazem o dispositivo de felicidade neoliberal muito eficiente, pois, a dominação se exerce sem nenhum grande esforço {...} o dispositivo de felicidade neoliberal nos distrai do sistema de dominação existente ao nos obrigar apenas à introspecção da alma.
Sobrevivência: o vírus é o espelho de nossa sociedade, revela em qual sociedade vivemos. Todas as forças da vida são usadas para prolongar a vida e {...} quanto mais o viver é sobreviver, mais medo se tem diante da morte. Sem resistência, sujeitamo-nos ao estado de exceção que reduz a vida à vida nua; em vista do vírus, a fé degrada-se em uma farsa. {...} a vida perde toda a dimensão metafisica e o Self -tracking (auto-rastreamento) evolui em um culto. A vida é despida de toda narrativa promotora de sentido. Não é mais o narrável, mas o mensurável e o contável.
Dor 1: {...} justo na sociedade paliativa hostil à dor, multiplicam-se as dores silenciosas, apinhadas nas margens, que persistem em sua ausência de sentido, fala e imagem. No fundamento das dores estão diferentes formas de violência. Repressões representam uma violência da negatividade. Elas são praticadas por outros; a violência não parte apenas do outro, também é o excesso de positividade que se manifesta como hiper desempenho, hipercomunicação e hiperestimulação.
Dor 2: o sujeito de desempenho comete violência consigo próprio. Ele explora a se mesmo voluntariamente, até que desmorone. O servo tira o chicote da mão do senhor e chicoteia a si próprio para se tornar senhor, sim, para ser livre. O sujeito do desempenho está em guerra consigo mesmo. As pressões internas que aí surgem o derrubam em depressão. Elas também causam dores crônicas.
Dor 3: é vínculo. Quem recusa todo o estado doloso é incapaz de constituir vínculos e vínculos que podem doer são evitados. Tudo se desenrola em uma zona de conforto paliativo. A dor é distinção. Articula a vida. Órgãos corporais se fazem conhecer primeiramente pelo seu próprio dialeto de dor, marca os limites. Sem a dor, tanto o corpo quanto o mundo afundam em uma in-diferença.