OPINIÃO

A emergência de instaurar o valor do sentido de viver junto

Por Ivânia Vieira
24/06/2026 às 11:06.
Atualizado em 24/06/2026 às 11:06

Brexit: a ordem de abrir fronteiras e o fascínio de se conectar com o distante se converte em desejo de desglobalização (Carlos Jasso/AFP)

Em tempo de exacerbações globais/locais e de tentativas de naturalizar a barbárie como ato cotidiano, a leitura é bússola. Eis alguns tópicos de uma leitura retirados de Néstor García Canclini em ‘Cidadãos Substituídos por Algoritmos’ (Edusp, 2021):

  • Há um lugar onde houve direitos e agora há perplexidade: o dos cidadãos e das cidadãs no capitalismo global e eletrônico. Quem se importa com os cidadãos, as cidadãs? Muitos partidos e sindicatos parece que estão reduzidos a cúpulas nas quais se distribuem regalias;
  • A partir da expansão da vídeo-política, a televisão canaliza queixas e críticas sociais aos governantes tratando os cidadãos e as cidadãs como espectadores/as. As redes prometem horizontalmente a participação, mas costumam gerar movimentos de alta intensidade e curta duração;
  • Nossas opiniões e comportamentos, capturados por algoritmos, ficam subordinados às corporações globalizadas. O espaço público se torna opaco e distante. A descidadanização se radicaliza, enquanto alguns setores se reinventam e ganham batalhas parciais: pelos direitos humanos, pela igualdade de gênero, contra a destruição ecológica. Mas, os neoliberais das tecnologias mantêm e aumentam as desigualdades crônicas do capitalismo;
  • Quais as alternativas temos diante dessa desapropriação? Dissidências, hacking? Qual é o lugar do voto, essa relação entre Estado e sociedade reprogramada pelas tecnologias e pelo mercado, cujo valor é questionado pelos movimentos sociais independentes?
  • No fim, a única coisa que parece ter se globalizado é a sensação de que quase todos perdemos. Em poucos anos, a ordem de abrir as fronteiras e o fascínio de se conectar com o distante se converterem em desejos de desglobalização. Os ingleses votaram a favor de deixar a União Europeia. Outras fraturas dividem essa união regional: entre o leste e o oeste, entre o norte e o sul pelo Euro, assim como diversas maneiras de lidar com a estagnação e a agitação social;
  • O que esses novos acordos mostram são integrações regionais e não globais. Muitos outros dados revelam que as guerras comerciais e a competição por se incrementam, e que a perseguição a imigrantes e a transgressão de Direitos Humanos prevalecem nas relações internacionais. A questão central e histórica dos convênios comerciais assinados nos últimos vinte e trinta anos impõe outras perguntas: ‘o que trazem aqueles e estes novos acordos para os cidadãos, os consumidores e os usuários?’ Mais empregos e melhores salários, ou mais precariedade, cidades vazias, migrações que dividem famílias e tiram direitos?
  • O cenário é de mais muros, naufrágios e circulação hipervigiada ou proibida entre as sociedades. Redução de fundos para controlar a mudança climática e a pesquisa científica, promoção da exploração devastadora do solo, descaso com a proteção da biodiversidade da floresta amazônica e dos bosques andinos.
  • A perturbação gerada pelas aventuras do capital na subsistência cotidiana de consumidores e cidadãos foi e é paralela à manipulação algorítmica dos dados. As dificuldades de agir na desordem do mundo vêm junto com as dificuldades de conhece-lo e nos comunicarmos;
  • Assumiremos que os Gafa (Google, Apple, Facebook e Amazon), ao reformatar o poder econômico-político, redefinem o sentido social: os hábitos e os significado do trabalho e do consumo, a comunicação e isolamento de pessoas. Eles, os Gafa, não são apenas os maiores polos industriais e inovadores tecnológicos; reconfiguram o significado do convívio e das interações. Destroem o sentido de viver junto.
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