O poder da FIFA deveria ser utilizado naquilo que sustenta os princípios de uma Copa do Mundo: universalidade, desenvolvimento global, jogo limpo e transparência
(Yuri Cortez/AFP)
As gentes mais atentas do mundo questionam cada vez mais sobre a função e a finalidade da Organização das Nações Unidas (ONU) na atualidade. Apeada por regras de nascimento, a agência está assujeitada aos interesses dos Estados Unidos. A ONU tropeça na asfixia a que foi submetida e tenta sobreviver. Como mecanismo de moderação na política governamental global e de incentivo à cooperação entre os povos nas diferentes áreas, precisa sofrer mudança radical.
Não diferente, ressalvando os campos de atuação, as perguntas sobre a função da Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa) escorrem nas bordas da panela do negócio futebol. Pífia a atuação do presidente da federação, Gianni Infantino. Aceitou ser tutelado pela política estadunidense e, em recorte, a política de Trump, apequenou-se diante da truculência do governo dos EUA a jogadores, membros de comissões técnicas do Irã e do Haiti, e veto ao árbitro somali Omar Artan.
Festejar a Copa deste ano é também escutar sobre o preço do espetáculo, os números das fortunas em desfile e assistir a profusão de marcas que são a segunda pele de jogadores e mesclam as logomarcas de veículos de comunicação. A estrutura da Copa teve um custo estimado em aproximadamente R$ 19 bilhões (ou US$ 3,7 bilhões), e projeta faturamento de R$ 55, 6 bilhões (US$ 10,9 bilhões).
Escutar, sentir, refletir e agir: o governo do país Fifa deve ser confrontado diante da sucessão de impropriedades cometidas e do silêncio cultuado no enfrentamento à escala do fascismo. É importante que um número cada vez maior de pessoas no mundo queira compreender o processo, o tamanho e o alcance do Sportswashing (a lavagem esportiva) e passe a ser uma voz questionadora em nível local, regional, nacional e global.
A Fifa tem grande poder. É uma organização que movimenta uma montanha de dinheiro e possui braços longos nas articulações políticas para além do futebol, a partir das equipes de atletas dos países, dos conglomerados industriais e de informação e da exploração dos sentimentos individuais/coletivos que o tema mobiliza.
O poder e a maneira de administração da federação deveriam ser utilizados naquilo que sustenta os princípios de uma copa mundial de futebol, a universalidade, o desenvolvimento global, o jogo limpo e a transparência. A competitividade, parte do jogo, tem os elementos que a revestem.
Se a ONU tem uma missão que não lhe permite ignorar o drama de milhões de indivíduos vítimas de governos fascistas, a Fifa igualmente está ancorada em uma missão que não pode ser banalizada. Diz respeito a instaurar e melhorar a democracia no mundo do futebol, as formas de acesso, de defender os valores humanos e da natureza. Significa que devemos exigir uma Fifa com atuação firme e permanente pelo combate ao racismo, à xenofobia, ao preconceito, à exclusão e na promoção da educação humanística.