Batalha pelo fim da escala 6 X 1 - hoje travada no Senado - é demonstração de como o setor produtivo funciona e perdura
Favela do Moinho no centro da capital paulista tem casas marcadas para demolição/25-06-25 (Rovena Rosa/Agência Brasil)
É atribuída à filósofa espanhola Adela Cortina a criação, nos anos de 1990, do termo aporofobia (rejeição, hostilidade, aversão aos pobres). A constituição da sociedade brasileira banha-se nessa noção entranhada institucionalmente e nos demais mecanismos desde os aparelhos urbanos e à cotidianidade das ações de exclusão socioeconômica.
Os presídios são um dos destinos do resultado da aporofobia brasileira. Outros são as zonas para onde são empurrados os mais pobres, as áreas de riscos. Os aporofóbicos desfilam com naturalidade as atitudes e os discursos de nojo; justificam seus privilégios e passam, feitos trator, sobre os mais vulneráveis.
A batalha travada pelo fim da escala 6 X 1 – questão atualmente no Senado – é demonstração de como o setor produtivo tem cara, nome, endereço e fartura em ganhos. A sessão de debates, realizada no dia 1º de julho, no Senado, e como a mídia recortou o material para apresentá-lo no formato de notícia, representam muito bem os esteios da estrutura da aporofobia.
No Brasil, a elite formada por 70 bilionários (pessoas com fortuna acima de US$ 1 bilhão) e os 386 mil milionários (com patrimônio a US$ 1 milhão) vivem uma realidade a parte. Os que permanecem no país desfrutam de cidades e praias particulares, invadidas e beneficiados por sentenças da justiça que igualmente enunciam as marcas da cultura aporofóbica.
As festas nababescas, promovidas por determinados investidores, empresários, parlamentares, famosos – algumas delas motivadoras de investigação – chamam atenção de setores da sociedade pelos valores gastos em jantares, encontros em iates, mansões na Europa, Dubai ou nos EUA. Respondem porque o Brasil permanece como um dos países mais desiguais do mundo: 10% dos mais ricos concentram aproximadamente 60% da renda nacional. E porque o fim da escala 6X1 é uma ameaça.
Para o pesquisador Cesar Calejon (em "Esfarrapados – como o elitismo histórico-cultural moldou as desigualdades no Brasil", 2023), o que vem ocorrendo ao longo dos últimos séculos é a agudização do elitismo histórico-cultural.
Ou seja, o metamodo de sociabilidade humano que se organiza com base, fundamentalmente, e em diferentes níveis, nos princípios “universais” da competição, distinção, concentração de recursos (renda e riqueza), violência e, consequentemente, desigualdade e suas expressões.
Nessa sociedade global, o drone leva a bomba e um comando diz onde ela deve explodir... "{...} A vida não é útil", útil é a promoção da guerra dos hegemônicos, a construção do desejo incontrolável do consumo de marcas. Os pobres, estes devem ser afastados. Porém precisam existir... bem longe, apenas como mão de obra de baixo valor.
* Artigo publicado no jornal impresso A Crítica no dia 15/06/2026