OPINIÃO

A vida, a morte e os voos do japiim

Mil questões em um segundo tomam conta do corpo surpreendido diante da morte, essa mesma que é a certeza de todos nós

Ivânia Vieira
29/05/2026 às 09:57.
Atualizado em 29/05/2026 às 09:57

(Imagem gerada com IA/Gemini)

O dia amanheceu em briga ou em diálogo do sol com as nuvens de chuva. O sol entrou cedo pelo vidro da janela e espalhou luz por uma hora. Logo se foi para o tempo seguinte se tornar cinza. Uma chuva fina completava a cara dessas primeiras horas da manhã de terça-feira (26 de maio de 2026) cumprindo os momentos do que informara o serviço meteorológico na noite anterior: um dia de nuvens carregadas, pancadas de chuva e trovoadas.

Logo veio a notícia. Você se foi. Não deu tempo para retornar a Manaus, comer peixe, tomar banho de rio e aprender a “ficar lesando” como pretendia fazê-lo e, desta vez, trazendo a irmã a tiracolo. O plano, agora revelado, era outro. Não estávamos preparados para compreender o tempo curto da sua passagem pela terra. Os jovens nos pregam essa peça porque entendemos a juventude como vida determinada a seguir às outras etapas... envelhecer.

O susto, a pancada, a tristeza, a tentativa de encontrar respostas. Mil questões em um segundo tomam conta do corpo surpreendido diante da morte, essa mesma que é a certeza de todos nós. Morreremos. Um ‘não sei o que fazer’ ganha concretude moendo as entranhas. Paralisia temporal em frente a lista de tarefas listadas no dia anterior.

Uma dorzinha fina segue cortando o corpo e a mente nesse ritual do adeus sem hora combinada e longe. A busca de detalhes nessa vá ansiedade de fazer não sei o que diante da realidade bate na parede sem resposta. O tempo dirá o que hoje é caçado em ritmo de agonia.

Então, vem a imagem do tempo de encontros na sua adolescência quando dançava engraçado a dança do boi-bumbá de Parintins, gargalhava, enchia o ambiente com essa presença alegre, irrequieta. A memória da vida pujante é agora confrontada com esse encantamento.  

No acerto ou desacerto dos sentimentos uma fresta de sol aparece às 9h11 em meio ao chuvisco virando chuva. Talvez, para temperar a vida dos viventes e reafirmar o valor da vida e do viver a amorosidade no presente. Nosso tempo de passagem por esse planeta não está determinado na testa. Surpreende pela longevidade ou pela brevidade. Você foi embora cedo. Justo? Injusto? Não adianta fazer a pergunta... É o seu tempo vivido por aqui que nos ocupa entre as lágrimas porque partiu e alegria da convivência.

Por você, feito coração, iremos tomar banho de rio ou de igarapé, comer peixe e dançar o boi-bumbá desajeitadamente. Imaginaremos seu sorriso virando gargalhada que acolhe e abraça. Brindaremos sua presença na terra e o privilégio da convivência, dos convites não consumados e das brincadeiras em voos de japiim.

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