Margarida Alves fez ecoar a voz da resistência, da denúncia de maus-tratos, violações de direitos básicos e da coragem
(Jaqueline Deister/Pulsar Brasil)
Há 43 anos, em 12 de agosto, a presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Alagoa Grande (PB), Margarida Maria Alves, foi assassinada na porta da casa. Tinha 50 anos. Até hoje o crime político permanece sem resposta. Em 1995, Zito Buarque, um dos fazendeiros acusados de mandar a líder sindical, ficou preso por três meses, e no ano de 2001, recebeu a absolvição.
No ano de 2012, a presidenta Dilma Rousseff instituiu, por meio da lei nº 12.641, o 12 de agosto como Dia Nacional dos Direitos Humanos. Margarida Alves é uma referência brasileira e latino-americana da luta pelos direitos fundamentais dos e das trabalhadores/as rurais, das mulheres e contra o latifúndio que no Brasil abriga a história da escravização humana.
É de Margarida Alves a frase “da luta eu não fujo. É melhor morrer na luta do que morrer de fome”, proferida em 1º de maio de 1983, ao discursar para camponeses. Três meses depois a líder sindical tombaria diante do marido e filho e sua luta se tornaria uma referência para que outras mulheres permanecessem lutando, inaugurar outras formas de luta no campo e na cidade.
A família de Margarida morava em um sítio na zona rural de Alagoa Grande. Quando a jovem tinha 22 anos, foram expulsos do sítio e passaram a morar na periferia de Alagoa Grande. Os escritos sobre Margarida Alves citam que a expulsão da família do sítio Jacu a fez sofrer e deixou marcas em sua vida. Ela era a mais jovem dos nove filhos.
O que era o Brasil em 1973, quando Margarida Alves assumiu a direção do sindicato dos trabalhadores rurais em Alagoa Grande? Um país sob o regime militar. Uma mulher comandar um sindicato de trabalhadores rurais - ainda hoje espaço de domínio dos homens - em país sitiado, um ato de coragem. Nesse mesmo ano, Uruguai e Chile também se tornariam ditaduras.
A América Latina estava sob asfixia. Assembleias, congressos, reuniões, eram proibidas, apresentadas como manifestações ilegais, e a imprensa sob censura. Em Alagoa Grande, um município de 322km², com 26.062 habitantes, hoje (IBGE), Margarida Alves fez ecoar a voz da resistência, da denúncia de maus-tratos, violações de direitos básicos e da coragem.
O sangue de Margarida Alves se fez semeadura. É florestania. A marcha das Margaridas, compreendida como a maior e mais significativa ação das mulheres no Brasil e na América Latina. As margaridas caminham de diferentes regiões, reúnem-se e apresentam propostas e reivindicações. A 8ª marcha será realizada em agosto de 2027, tendo Brasília como ponto de concentração. A coordenação é da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag).
* Artigo publicado no jornal impresso A Crítica em 12 de agosto de 2026