OPINIÃO

Fragmentos sobre Jornalismo, Comunicadores Indígenas e Amazônia

Ivânia Vieira
30/04/2026 às 11:14.
Atualizado em 30/04/2026 às 11:16

Jornalista Elvira Lobato na abertura do Congresso de Jornalismo da Amazônia, realizado em Manaus (Reprodução/Youtube do Portal da Ciência)

Congressos, seminários, simpósios e roda de conversa são oportunidades de escuta e de aprendizados. A 5ª edição do Congresso de Jornalismo da Amazônia (Conjor), realizada no período de 22 a 24 de abril, em Manaus, reafirmou a ideia de aprender a partir de um tema instigador: Fronteiras Digitais, Vozes Reais: o futuro da notícia na Amazônia.

A jornalista Elvira Lobato, autora de o “Instinto de Repórter”, de 2005, e com vigor estratégico em alta até os dias atuais, fez a conferência de abertura do 5º Conjor intitulada “As antenas da floresta na era digital: o ecossistema de comunicação e o direito à informação na Amazônia”, acompanhada pelo jornalista Gerson Severo Dantas, mediador. 

Um festival de atividades mobilizou professores, estudantes, pesquisadores e jornalistas entre auditórios da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), organizadora do congresso por meio da Faculdade de Informação e Comunicação/Coordenação de Jornalismo e da Faculdade Boas Novas (FBN). A Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), apoiou com recursos financeiros.

Compartilho parte das anotações feitas de uma das quatro mesas redondas, a de Jornalismo Investigativo em Terras Indígenas. As jornalistas Ariene Susui, wapixana, ativista na área da comunicação indígena e na defesa dos direitos dos povos indígenas; Elaíze Farias, jornalista, cofundadora da agência Amazônia Real; e o jornalista Antônio Marinho, Tukano e Piratapuia, assessor de comunicação da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese) e gerente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) foram os convidados. Eis os recortes:

Elaize Farias, Ariene Susui e Antônio Marinho na mesa redonda Jornalismo Investigativo em Terras Indígenas, do Conjor

 Ariene Susui: A minha história no jornalismo investigativo é de causa. É de onde eu vim. Faço jornalismo pelo meu povo e pelos povos indígenas. (...) Não somos um pacote (índios), e é assim que muitos nos veem e a própria mídia coloca. A distinção é importante para nós, somos wapixana, tukano, yanomami... cada povo com a sua cultura. A mídia tradicionalista atua contra os direitos dos povos indígenas e nós lutamos contra essa narrativa que atende a outros interesses. Pela nossa comunicação, afirmamos que não basta demarcar as terras indígenas, é preciso proteção federal de verdade. E é preciso considerar o processo de construção de dados feita pelos indígenas que habitam e conhecem os territórios, as ameaças, as formas de protege-los. Até agora, esse tipo de conhecimento tem sido ignorado

Antônio Marinho: Nosso jornalismo indígena é formado a partir da nossa comunidade. Ela é a nossa base. Investigar, para nós, comunicadores indígenas, é também proteger o nosso território. Nós vimos, durante a Pandemia da Covid-19, o que a desinformação pode fazer numa comunidade, os estragos e as ameaças que produz. Então, entrou o trabalho dos comunicadores indígenas para informar nossos parentes sobre a importância de se vacinarem. A comunicação, nesse sentido, é algo maravilhoso: mobilizamos, compartilhamos, salvamos vidas. Hoje, a rede de comunicação indígena é múltipla. Atua com vários elementos, a rede linguística, psicologia da floresta, gênero, formação política, comunicação de conteúdos sociais, incidência política. Nossas formações são feitas todas por indígenas e estão diretamente ligadas aos que é importante para as nossas comunidades.

Elaíze Farias: O jornalismo deve incluir como obrigação conhecer a história dos povos indígenas; compreender a Amazônia, a história dos povos que nela habitam, enfim, todo jornalista tem que estudar a Amazônia, ler, escutar, inquietar-se com as reportagens panorâmicas, aquelas vistas do alto, e se manter atualizado; os jornalistas precisam reconhecer que os povos indígenas são fontes oficiais e, assim, enfrentar a tendência de procurar especialista para validar o que os indígenas disseram; acompanhar e monitorar a história depois que foi publicada é uma disciplina a ser observada pelos jornalistas.

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