Quando fazemos acordos por e-mail e WhatsApp não só são substituídos os encontros pessoais também desaparece aquela forma de presença que é a voz do outro
(Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Dizem que os aplicativos facilitam nossa vida – escolher o itinerário com menos trânsito, localizar pessoas que podem nos ajudar no trabalho e no ócio, e muito mais – mas não servem para entender por que fazemos isso. Os aplicativos são como acompanhantes: será que isso é o sentido?
E os outros? Cada vez é menos necessário nos encontrarmos, se podemos enviar mensagens, embora a necessidade de contar com se evidencie no desejo de tê-los disponíveis no WhatsApp e que nos respondam. É possível tirar selfies sem que alguém nos ajude, fazendo foco, dando-nos a reação “espontânea”, admiração ou a zombaria quando vemos o resultado do clique no mesmo instante. A impressão é fresca e imediata, e, além disso, podemos conjurá-la retocando a imagem. Porém, é verdade que muitas selfies são tiradas pensando num destinatário.
Os Outros estão ali em torno do que fazemos. De certa forma – disseram os filósofos antes do que os psicanalistas – levamos os outros dentro. Não apenas soltos, como pai, mãe, irmãos, companheiros, colega de trabalho, mas como instituições – a família ou a fábrica. Ainda não consigo achar pesquisas que indaguem como essas instituições estão competindo com os aplicativos. De repente, um humorista o sugere. El Roto desenha um adolescente a ponto de colocar seu dedo na tela do celular, e diz: “Os pais são um aplicativo do celular”.
Junto com as mensagens – escritas e visuais – trocadas a distância de imediato e criando a sensação de copresença, o predomínio do smarthphone e do correio eletrônico traz modificações na interação e na disponibilidade para os outros. Quando fazemos acordos por e-mail e WhatsApp não só são substituídos os encontros pessoais também desaparece aquela forma de presença que é a voz do outro. De mesma forma, as mensagens podem esperar horas ou dias pela resposta, o que tira o imediatismo e permite ao interlocutor elaborar o que responderá, disfarçar efeitos que se manifestam nas modulações da voz e ainda mais no confronto cara a cara.
A maior liberdade de cada sujeito e maior distância equivale a menos compromisso? A intensidade dos silêncios e das hesitações da oralidade se perde ou acaso surgem na escrita e na leitura retardada outras ênfases e sugestões? A convergência gerada pelos novos intermediários é também divergência, a proximidade pode trazer afastamento.
Falamos de capitalismo eletrônico, cognitivo e tecnocapitalismo. É necessário frisar que, além das mudanças nas interações entre partidos, videopolítica, tecnologias digitais, empresas e usuários, a indecisa condição atual da cidadania se deve à mutação biopolítica. Junto com a importância dada aqui ao aspecto sociocultural, quero dizer que o capitalismo atual e as estratégias de transformação ou resistência são caracterizados por algo central para a cultura como sistema de símbolos: o afeto.
George Yúdice descreve o capitalismo de nossos tempos como “economia-de-informação-experiência-e-afeto”. Precisamos, diz Yúdice, ter uma “visão crítica das tecnologias do afeto”, não só da análise e acumulação de dados, para compreender como as plataformas os utilizam sem que nos sintamos subjugados ou oprimidos. (Fonte: Canclini, Néstor García. Cidadãos Substituídos por Algoritmos. Edusp. 2021.)
Artigo publicado no jornal impresso A Crítica em 08/07/26