Tomar banho, para o amazônida, remete à importância crucial da água para natureza e para seus filhos e filhas
(Raphael Alves/Reprodução Instagram)
Tomar banho é ritual de vida para os povos da floresta e seus descentes. Se não tem o rio, o igarapé ou o lago mais perto de casa, serve o chuveiro (dizem que a primeira versão da peça é de 1767 e teria sido concebida por William Feetham, na Inglaterra e, no Brasil, em 1930, por Francisco Canhos, em Jaú, São Paulo). Os dados revelam o quanto precisamos conhecer as engenhocas feitas por tubos de árvores que parecem canos e as de madeira utilizadas no passado para fazer a água correr até às habitações, bem antes desse mundo existir). Fiquemos, por enquanto, com essas anotações sem ignorar a tarefa de estudar mais sobre o tema.
Por agora trato do banho que muitos de nós necessitamos tanto quanto a respiração. O calor extremo nesses meses nos leva a tomar, em média, três banhos por dia. Eu, quando estou em casa, tomo quatro. Não tem preço a sensação de alívio em um corpo suado ou sob efeito do calor que esses banhos, frios, provocam.
Para “o povo do estrangeiro”, como dizia vovó, essa mania de tomar tanto banho é assimilada como algo estranho, incômodo, inaceitável, em muitos casos. Querem saber se estamos doentes, se é doença contagiosa, se estamos malcheirosos.
Sem minimizar o constrangimento e atitudes violentas no processo de inquisição, algumas cenas engraçadas nos acompanham nessa vivência estranhada por conta do nosso gosto pelos banhos, e nos fazem rir, inventar roteiros e esticar a conversa ao contar aos parentes.
Tomar banho é o ritual da nossa conexão com a natureza. É bem-viver, sentir-se saudável. Nosso espírito, banhado, mesmo por águas do chuveiro, faz festa. Parece agradecer pelo afago e nos devolve o gesto em doses de boas energias. Quando os pingos caem sobre a nossa pele é como saborear sorvete de açaí, de cupuaçu e suas misturas, graviola, milho verde. Bom demais.
Tomar banho remete à importância crucial da água à natureza e aos seus filhos e filhas. As águas são na Amazônia a expressão da vida. E quanto mais tempo demorarmos para compreender a dimensão mais perto estamos em coautoria na atitude de cumplicidade pela privatização de recursos hídricos, aceitação da contaminação e destruição desses bens.
Quando os rios são desrespeitados, as gentes e não gentes que nele se completam estão sendo violadas e vivem sob ameaça. De igual modo, os lagos e igarapés (que em Manaus, a maioria - 80% - encontra-se com elevados índices de poluição). Projetos transnacionais e nacionais atuam de modo voraz sobre os rios, os igarapés, os lagos, explorando e ou destruindo-os. As consequências são graves, em curto prazo, às comunidades e, em médio e longo prazos, à sociedade nacional/regional. Tomar banho é exercício de reflexão.