OPINIÃO

Querida Água ⃰

Por Ivânia Vieira
25/03/2026 às 10:00.
Atualizado em 25/03/2026 às 10:02

(Paulo Bindá)

Todos os dias nos encontramos contigo, em diferentes momentos (quando
escovamos os dentes, tomamos banho, tomamos café, lavamos as louças, as roupas,
fazemos a comida...).

Ainda assim não prestamos atenção devida à importância da tua presença em nossas
vidas e nas outras vidas. Não prestamos atenção na violência que praticamos contra
teu corpo, cotidianamente, e nos eventos maiores, por meios de políticas
desenvolvimentistas e de grandes projetos.

Parece mesmo que não nos importa o quanto o teu corpo está machucado, ferido e
agonizando em determinados pontos onde antes tu eras plena, bela, pujante...um
convite para convivermos juntas e juntos, com respeito e em harmonia.

Na Amazônia, querida Água, estamos entrelaçados/as em ti, pelos rios, os igarapés,
os lagos, os Olhos D’água...

Ah, os Olhos D’água, estes estão sendo massacrados pela fúria da ganância dos
homens. Querem acabar com eles, com a gente, as outras gentes e as outras vidas.
Nossos encontros contigo expõem a profunda desigualdade de ti alcançar: Alguns a
tem em abundância, outros sofrem com a escassez, medem cada gota usada.

E milhares não podem encontrá-la, banhar-se, lavar as mãos, conviver contigo.
São muitos os que morrem porque utilizam a tua porção contaminada. Essa que é
tão comum na Amazônia, no Amazonas, em Manaus, aqui neste Porto da Ceasa.
São 1,4 milhão de pessoas que morrem, anualmente, devido à falta água e às
condições inadequadas de higiene e saneamento; as doenças como diarreia, cólera,
febre tifoide entre outras.

As pesquisas mundiais nos dizem que hoje que: cerca de 2,2 milhões de pessoas
não dispõem de água potável em casa; 3,4 milhões de pessoas não dispõem de
saneamento básico seguro; a coleta de água para os lares é feita por mulheres e
meninas. Elas são 70% do total das pessoas responsáveis por esse serviço em
diferentes países.

No Amazonas, 11,3% das crianças e adolescentes não têm acesso à água encanada,
entre 300 mil e 500 mil mulheres viver sem acesso adequado à água.

Por isso, estamos aqui, neste Dia Mundial da Água – 22 de março de 2026 - no
encontro sagrado das águas do rio Negro com o rio Solimões, para pedir perdão as
Nossas Senhoras das Águas, dos Navegantes, a Oxum, a Mama Cocha, a Iara, a
Iemanjá... por toda maldade cometida pelos homens contra o teu corpo, a tua
existência e o teu território;

Estamos aqui para reafirmar nosso compromisso de seguirmos com a nossa luta
contra a privatização dos rios, a destruição dos igarapés e na defesa dos recursos
hídricos como bens coletivos;

Estamos aqui, em nome do Fórum das Águas do Amazonas (FAAM) e da Frente
Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas
(FAMDDI) para renovar nossa disposição de seguir lutando, entrelaçar nossas
mãos e, juntos/as, espalhar nosso grito na cobrança às autoridades para que
cumpram com seus deveres e garantam acesso à água potável aos que não a têm e
que a sociedade, consciente, seja guardiã das águas.

Estamos aqui em nome das mulheres e das meninas dos diferentes povos, pois, são
elas as maiores vítimas da falta de acesso à água; daquelas e daqueles que
tombaram na defesa dos direitos humanos à água, dos direitos humanos ao
saneamento básico e dos direitos da Natureza, dos rios, dos lagos, dos igarapés, dos
Olhos D’água.

Estamos aqui em nome da VIDA da ÁGUA que é a nossa VIDA e a fonte do bem
comum. Cada uma de nós, cada um de nós é uma gota d’água que se faz rio –
Encontro das Águas -, se faz mar.

Estamos aqui em reencontro de esperança contigo, querida Água. Juntas e juntos
ecoamos: Nossos rios não estão à venda!” 

 ⃰ Carta escrita por Ivânia Vieira e lida na 3ª Romaria das Águas, no dia 22 de março

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