Estudo divulgado este mês mostra que os cânceres causados pelo HPV provocam cerca de 7,5 mil mortes e 29 mil internações por ano no país.
(Foto: Agência Brasil)
A prevenção e o combate ao HPV deixaram de ser apenas uma pauta médica para se tornar um desafio social, educacional e de saúde pública. O papilomavírus humano, conhecido pela sigla HPV, está relacionado a diferentes tipos de câncer e provoca milhares de mortes evitáveis todos os anos no Brasil. Ainda assim, apesar da existência de vacina eficaz, campanhas de conscientização e exames preventivos disponíveis gratuitamente pelo SUS, o país continua convivendo com números alarmantes, especialmente na Região Norte e, de forma dramática, no Amazonas.
Estudo divulgado este mês mostra que os cânceres causados pelo HPV provocam cerca de 7,5 mil mortes e 29 mil internações por ano no país. Segundo os pesquisadores, 85% das pessoas afetadas são mulheres e grande parte desses casos poderia ser evitada com vacinação e diagnóstico precoce.
O dado é estarrecedor porque evidencia uma contradição: o Brasil possui uma das maiores estruturas públicas de imunização do mundo, mas ainda falha em alcançar cobertura vacinal adequada contra um vírus associado diretamente a doenças graves e altamente preveníveis. O câncer do colo do útero representa hoje um dos maiores símbolos da desigualdade em saúde no Brasil. Em países desenvolvidos, a combinação entre vacinação, exames preventivos e acesso rápido ao tratamento fez a incidência da doença despencar nas últimas décadas. Já em regiões pobres ou com dificuldades de acesso aos serviços médicos, o câncer continua matando milhares de mulheres em plena idade produtiva.
O Amazonas aparece nesse cenário como um retrato preocupante dessa realidade. Dados do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional de Câncer indicam que o estado deverá registrar cerca de 1,8 mil novos casos de câncer do colo do útero até 2028. O problema é tão grave que o Amazonas figura entre os estados brasileiros com maior incidência da doença. Outro levantamento mostra que o estado possui atualmente a maior taxa de incidência do país, com 28,57 casos para cada 100 mil mulheres, índice muito acima da média nacional.
O mais grave é que o câncer do colo do útero está entre os tumores mais preveníveis da medicina moderna. A vacina contra o HPV é segura, eficaz e reconhecida internacionalmente como uma das maiores ferramentas de prevenção oncológica já desenvolvidas. Países que implementaram campanhas robustas de vacinação conseguiram reduzir drasticamente as lesões precursoras do câncer e caminham para praticamente eliminar a doença nas próximas décadas.
O Brasil avançou ao incorporar a vacina no calendário nacional do SUS, mas o Amazonas teve papel pioneiro nessa história. O estado foi o primeiro do país a oferecer gratuitamente a vacina contra o HPV na rede pública de saúde, ainda em 2013, antes mesmo da incorporação nacional do imunizante pelo Ministério da Saúde. A decisão representou um marco importante na saúde pública brasileira. Em um estado historicamente castigado pelos altos índices de câncer do colo do útero, a antecipação da vacinação demonstrou visão estratégica e compromisso com a prevenção. A experiência amazonense acabou se tornando referência para outras unidades da federação e ajudou a consolidar a importância da imunização no debate nacional.
Atualmente, a vacina é disponibilizada gratuitamente pelo SUS para crianças e adolescentes, além de grupos específicos definidos pelo Ministério da Saúde. Ainda assim, um dos principais desafios continua sendo combater a desinformação.