Artigo reúne canções que, além de emocionar, oferecem reflexões sobre amor, reciprocidade, fé e a arte de viver
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Em continuidade ao primeiro artigo que escrevi sobre esse tema tão caro ao meu coração, volto a percorrer os caminhos onde a música e a poesia se encontram para iluminar a existência. Sempre fui apaixonado por letras e melodias.
Percebi, ao longo dos anos, que frequentemente nos deixamos conduzir pelo encanto do ritmo, mas nem sempre paramos para refletir sobre a riqueza das mensagens que habitam aquelas palavras. E é justamente nelas que, muitas vezes, repousam preciosos ensinamentos sobre o amor, a vida e a arte de sobreviver aos próprios sentimentos.
Por isso, compartilho mais algumas dessas canções que considero verdadeiras pérolas de entendimento humano, claro, para quem possui ouvidos para ouvir e sabedoria para entender.
5. Só vou gostar de quem gosta de mim.
Na canção de Rossini Pinto, interpretada por Roberto Carlos, encontramos uma das mais importantes lições sobre os relacionamentos afetivos: não vale a pena insistir onde não existe reciprocidade.Quando o sentimento não encontra abrigo no coração do outro, o sofrimento tende a se instalar, corroendo a autoestima e, por vezes, adoecendo a alma. O amor, para florescer, precisa de terreno fértil dos dois lados.
Uma antiga fábula grega traduz essa verdade com rara beleza. Conta-se que Vênus, mãe de Eros, o deus do amor, procurou Temis, deusa da justiça e da sabedoria, intrigada porque seu filho não crescia. Temis então aconselhou-a a ter outro filho, que recebeu o nome de Anteros. E, para surpresa de Vênus, Eros começou a crescer.
Maravilhada, ela voltou a perguntar a razão daquele milagre. Temis respondeu com a simplicidade das grandes verdades: “É que o amor, para crescer, precisa ser correspondido”.
Não poderia haver definição mais perfeita. Quando o amor não encontra eco, talvez a maior demonstração de amor-próprio seja mudar de rota. Não para guardar mágoa de quem não corresponde aos nossos sentimentos, afinal, todos somos livres para fazer nossas escolhas, mas para escolhermos a nós mesmos. Nada melhor do que gostar de quem gosta da gente.
6. “Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas”
Em Tempo Perdido, Renato Russo nos presenteia com um verso que sempre despertou minha imaginação:“Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas.”
Na juventude, interpretei essa frase como um convite à coragem acompanhada de prudência. Não devemos temer os desafios, as incertezas ou mesmo os lados obscuros da existência. Contudo, é prudente permanecer atento, buscando enxergar os fatos com clareza. O escuro simboliza aquilo que confunde, entristece e aprisiona. Já a luz revela, esclarece e aponta caminhos. Enquanto a escuridão pode nos engolfar em dúvidas e angústias, a claridade nos permite enxergar as verdades que precisam ser vistas e descobrir novos horizontes.Não por acaso, segundo as Escrituras, tudo começou pela luz. No livro do Gênesis, ouvimos a poderosa ordem divina:
“Faça-se a luz. E a luz foi feita.”A luz de um novo amanhecer. A luz do conhecimento. A luz da sabedoria.Que possamos ser também essa luz na vida daqueles que caminham ao nosso lado, influenciando positivamente as pessoas do nosso convívio e iluminando, ainda que modestamente, os caminhos por onde passamos.
7. Há canções emocionam, que tocam nossas almas.
Flor Mamãe é uma delas.Nessa composição tão singela quanto sublime, os autores Júlio Louzada e Jorge Gonçalves celebram o amor materno, certamente a mais pura e elevada manifestação de afeto que o ser humano seja capaz de experimentar. Um amor incondicional, generoso, paciente e permanente. Um amor que, em muitos aspectos, aproxima-se da própria ideia do divino. Sempre que ouço ou recito a letra dessa música, vejo diante de mim a imagem de mamãe Naha. É impossível não ser tocado por sua delicadeza.
“Andei por todos os jardins/Procurando uma flor pra te ofertar/Em lugar algum eu encontrei/A flor perfeita pra te dar/Ninguém sabia onde estava essa flor/Mimosa perfeição/Ela se chama flor-mamãe/E só nasce no jardim do coração/Enfeita nosso sonho/Perfuma nossa ilusão/Flor divina, eu suponho/Faz milagre em oração/Nesse dia de carinho/Quero senti-la no peitoInebriando minh’alma/Flor mamãe, amor perfeito.”
Poucas homenagens conseguem traduzir com tanta ternura a grandeza do amor materno.
8. Tá escrito, de Xande de Pilares, Carlinhos Madureira e Gilson Bernini, interpretada pelo grupo Revelação, nos oferece outro ensinamento precioso ao cantar:”Quem cultiva a semente do amor vai em frente e não se apavora. Se a vida lhe trouxer dissabor, vai saber esperar sua hora.”Quantas vezes desejamos algo com tanta intensidade que deixamos de perceber que ainda não estamos preparados para recebê-lo? Quantas vezes confundimos desejo com destino, pressa com propósito?
Nem tudo o que queremos nos pertence. Nem tudo o que sonhamos está destinado a acontecer naquele momento. Há um tempo próprio para cada realização, um compasso invisível que rege os acontecimentos da vida.Por isso, é necessário aprender a confiar. Relaxar o coração. Descansar no Senhor.
O Salmo 37 nos convida justamente a essa entrega serena: confiar em Deus de todo o coração e seguir fazendo a nossa parte, porque o restante Ele realizará. Cultivar o amor, desapegar-se da ansiedade e continuar trabalhando com dedicação talvez é uma das mais cabais demonstrações de fé. A vida ensina que, para aqueles que perseveram, tudo chega no tempo certo.Existe um velho ditado popular que afirma que quem canta seus males espanta.Eu ousaria acrescentar que, quem reflete sobre o que lê e sobre aquilo que canta, descobre um caminho ainda mais rico. Encanta-se com a própria existência, evita sofrimentos desnecessários e aprende a enxergar, em cada amanhecer, uma nova oportunidade de ser feliz.
Porque algumas canções não foram feitas apenas para serem ouvidas. Foram feitas para serem compreendidas. E, quando compreendidas, transformam-se em verdadeiras companheiras de viagem na longa e bela travessia da vida.