Claquete

O homem legal e a cobrança pelo amor

Entre pactos sobrenaturais, romances idealizados e rejeições mal digeridas, o cinema revela como a gentileza pode virar moeda de troca quando vem acompanhada da expectativa de recompensa

Michael Douglas
22/08/2026 às 16:06.
Atualizado em 22/08/2026 às 16:06

Bear, o cara legal que inicia toda a trama de Obssessão ao pedir que alguém o ame acima de tudo - mesmo a pessoa não tendo tais sentimentos (Foto: Divulgação)

Assisti a Obsessão esta semana, muito depois do hype, o que talvez seja uma das poucas vantagens de chegar atrasado a um filme excelente: a conversa já esfriou, os spoilers perderam parte do poder de destruição e a gente consegue entrar na sala sem a obrigação de concordar com a internet. O filme continua assustador, claro, porque há uma força sobrenatural circulando pela trama e porque Nick tem aquela presença capaz de fazer qualquer corredor parecer uma péssima ideia. Ainda assim, o desconforto mais persistente veio de Bear, o protagonista que deveria concentrar nossa identificação. Ele é o sujeito sensível, o amigo próximo, o homem que guarda sentimentos como quem arquiva documentos importantes em uma gaveta que nunca abre. A narrativa acompanha seus olhos, suas angústias e sua convicção de que existe alguma injustiça amorosa acontecendo diante dele. Aos poucos, porém, a pergunta deixa de ser “o que Nick pode fazer?” e passa a ser “até onde Bear pretende ir para não lidar com a possibilidade de ser rejeitado?”.

Bear encarna uma versão particularmente perigosa do chamado Nice Guy, esse homem que se apresenta como “super gente boa”, “super amigo” e “sempre disponível”, mas transforma cada gesto de cuidado em um investimento emocional esperando retorno. Ele parece generoso porque a história é narrada a partir de sua frustração, e a câmera costuma ser uma péssima fiscal de sentimentos: acompanha a dor com tanta intimidade que quase nos convence de que ela concede direitos. Bear não consegue expressar o que sente com clareza, não sustenta uma conversa difícil e tampouco aceita o espaço doloroso entre desejar alguém e ser desejado por essa pessoa. Em determinado momento, ele prefere recorrer a um pacto para que Nick o ame, como se o afeto pudesse ser obtido por contrato, magia ou cláusula escondida no rodapé. O gesto concentra a tragédia de um sujeito que confunde vulnerabilidade com merecimento. Ele sofre, sem dúvida, mas seu sofrimento não transforma sua vontade em direito sobre o corpo, a escolha ou o sentimento alheio.

A força sobrenatural de Nick movimenta o filme, produz imagens perturbadoras e conduz a narrativa por uma espiral de medo, desejo e descontrole. Bear, contudo, é quem aciona a engrenagem mais incômoda, porque a origem do horror está em sua incapacidade de suportar uma resposta que não corresponda ao que imaginou. Nick pode ser lida como ameaça, tentação, maldição ou presença fantástica, dependendo da chave que o espectador escolhe para interpretar a obra. Bear permanece reconhecível em todas elas: um homem que deseja ser escolhido e, diante da possibilidade de não ser, procura uma forma de eliminar a liberdade da outra pessoa. A monstruosidade do pacto nasce dessa operação emocional bastante cotidiana, em que o “eu só queria ser amado” aparece como justificativa para atitudes cada vez mais invasivas. O sobrenatural amplia o gesto até o limite do pesadelo, mas a lógica por trás dele é familiar demais para ficar confinada à ficção. Há algo profundamente assustador em perceber que o vilão da situação talvez seja o homem que mais insiste em ser compreendido.

O termo Nice Guy cresceu porque nomeia uma contradição social importante: a gentileza pode ser uma qualidade, mas também pode ser usada como embalagem para ressentimento. O problema começa quando o sujeito imagina que ser educado, leal ou disponível deveria garantir acesso ao amor, ao sexo e ao protagonismo romântico. A partir daí, qualquer recusa parece uma fraude, e a mulher que não corresponde passa a ser acusada de preferir homens “piores”, de não reconhecer o próprio valor ou de ter provocado uma expectativa que ela jamais prometeu cumprir. Em suas formas mais agressivas, esse ressentimento encontra discursos misóginos, comunidades incel e explicações que transformam frustração pessoal em suposta injustiça estrutural cometida pelas mulheres. O cinema e a televisão têm explorado esse percurso porque ele combina drama, humor e perigo numa mesma figura masculina. O sujeito que pede apenas uma chance pode, em poucas cenas, revelar que estava pedindo uma dívida.

É nesse território que Ted Mosby, de How I Met Your Mother, se torna um personagem tão mais problemático do que a nostalgia costuma admitir. Ted acredita no amor com a devoção de quem acredita em uma religião particular, completa com sinais do universo, coincidências significativas e uma quantidade preocupante de discursos em bares. A princípio, sua fé no romance parece encantadora, sobretudo em uma cultura que costuma tratar o afeto masculino como defeito de fabricação. Ted deseja compromisso, conversa sobre sentimentos e quer encontrar a pessoa que dará sentido à sua trajetória. A dificuldade aparece quando cada mulher que cruza seu caminho passa a ser examinada como candidata ao cargo de “amor da sua vida”. Ele não encontra pessoas; encontra possibilidades narrativas. Cada relação precisa cumprir uma função em sua grande história, e a individualidade da parceira termina subordinada ao papel que ela desempenha no projeto sentimental dele.

Ted, o protagonista que idealiza cada mulher que encontra (Foto: Divulgação)

Ted transforma a idealização em uma forma elegante de objetificação, porque sua linguagem é romântica e seus gestos frequentemente parecem bem-intencionados. O fato de ele conhecer os próprios sentimentos não significa que saiba respeitar a complexidade dos sentimentos alheios. Muitas vezes, ele escuta uma mulher dizer o que quer enquanto procura, por trás da frase, a pista que autorize sua fantasia. A pessoa real perde espaço para a personagem que ele escreveu antes mesmo de conhecê-la. Ted também se beneficia da posição de narrador, que organiza suas escolhas como etapas de uma aventura amorosa e suaviza as consequências de sua insistência. A série oferece charme, piadas e uma trilha sonora sentimental para comportamentos que, fora daquele enquadramento, poderiam parecer apenas cansativos, invasivos ou autocentrados. Seu maior problema não está em desejar um amor grandioso, mas em acreditar que a grandiosidade do desejo concede importância maior à sua versão dos fatos. Poucos homens foram tão protegidos por violinos, flashbacks e uma boa dicção quanto Ted Mosby.

Tom Hansen, de 500 Dias com Ela, ocupa uma posição ainda mais próxima do espectador porque sua dor é apresentada com a sinceridade desajeitada de quem acredita ter vivido uma história de amor interrompida por uma falha de comunicação do destino. Tom idealiza o romance, seleciona momentos, compõe uma sequência de lembranças e transforma Summer em centro de uma narrativa que ela nunca aceitou protagonizar. Desde o começo, ela deixa claras suas intenções e estabelece limites para a relação, mas Tom prefere ouvir a música que toca dentro de sua cabeça. Quando o relacionamento termina, ele reage como se tivesse sido roubado de um futuro que, na verdade, existia principalmente em sua imaginação. A frustração dele é legítima, e o abandono dói mesmo quando ninguém agiu com crueldade. O ponto crítico está na maneira como Tom reorganiza os acontecimentos para ocupar o lugar de herói incompreendido. Summer vira a responsável por destruir uma promessa que nunca fez, enquanto ele preserva para si o papel do homem que amou de maneira mais profunda.

A pertinência de obras como Obsessão, How I Met Your Mother e 500 Dias com Ela cresce justamente porque elas permitem discutir masculinidade e relacionamentos sem transformar cada homem ferido em uma figura automaticamente inocente. Bear, Ted e Tom possuem sensibilidades diferentes, histórias diferentes e graus distintos de perigo, mas os três revelam a mesma tentação: converter o próprio desejo em medida do comportamento alheio. Eles acreditam que sentir muito deveria significar alguma coisa para quem é objeto desse sentimento. O cinema pode mostrar essa crença como tragédia sobrenatural, comédia romântica ou melancolia indie, e em todas essas formas existe uma oportunidade de leitura. Homens precisam aprender a falar sobre afeto, insegurança e rejeição antes que esses sentimentos sejam traduzidos em controle, perseguição ou ressentimento. Mulheres também precisam deixar de carregar a responsabilidade de administrar a autoestima masculina sempre que dizem “não”. A questão talvez seja menos descobrir quem merece o amor e mais compreender que ninguém merece ser coagido a oferecê-lo.

Tom, o cara legal que não lida bem com um termino e parece não perceber que idealizou um mulher que de fato nunca existiu

No fim, o “cara legal” continua sendo uma figura cinematográfica fascinante porque sua aparência raramente anuncia o perigo que pode surgir de sua frustração. Ele chega com boas intenções, oferece ajuda, conhece a trilha sonora certa e sabe exatamente qual mensagem mandar depois de uma conversa difícil. Sua tragédia começa quando percebe que caráter não funciona como ficha de crédito e que a gentileza não produz dividendos românticos. Bear faz um pacto, Ted constrói uma mitologia e Tom edita as lembranças; cada um encontra uma maneira particular de evitar a frase mais simples e mais dura de todas: a outra pessoa pode não querer o mesmo. Talvez amadurecer seja aceitar que uma rejeição não reduz nossa humanidade, apenas interrompe uma expectativa. Talvez o verdadeiro heroísmo, numa história de amor, esteja em sair de cena sem incendiar o cenário. E talvez o próximo grande monstro do cinema continue usando o rosto de um homem educado, disponível e absolutamente convencido de que, depois de tudo o que fez, alguém lhe deve um final feliz.

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