Opinião

O próximo desafio do PIM não é tecnológico. É humano

Rodrigo Araújo
14/06/2026 às 16:16.
Atualizado em 14/06/2026 às 16:16

O mundo começa a reconhecer que inovação não depende apenas de tecnologia, mas também de pessoas capazes de aprender continuamente, resolver problemas complexos, colaborar com sistemas inteligentes e adaptar-se a cenários em constante transformação (Divulgação)

Tive acesso, recentemente, a um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM) e da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-AM) sobre os desafios da indústria 4.0 no Polo Industrial de Manaus com relação à mão de obra qualificada. Fiquei impressionado com a evolução da indústria amazonense e as demandas que ela gera no mercado de trabalho local.

É fato que, quando se fala em futuro da indústria, sempre surgem as mesmas palavras: inteligência artificial, automação, robótica, internet das coisas e transformação digital. Porém, com uma pesquisa mais aprofundada, descobri que uma pergunta começa a surgir nos principais centros de pesquisa industrial do mundo: O que acontece quando a tecnologia avança mais rápido do que a capacidade humana de se adaptar a ela?

Essa questão ajuda a explicar o crescente interesse internacional pela chamada Indústria 5.0. Diferente da Indústria 4.0, cujo foco principal era a digitalização dos processos produtivos, a Indústria 5.0 propõe recolocar o ser humano no centro da transformação tecnológica.

Não se trata de abandonar a inovação. Pelo contrário.

A proposta é reconhecer que máquinas inteligentes, por si só, não resolvem os desafios da produtividade, da criatividade, da inovação e da competitividade.

Os estudos mais recentes mostram que fatores como sobrecarga cognitiva, fadiga mental, dificuldade de adaptação tecnológica, saúde mental e aprendizagem contínua estão se tornando questões estratégicas para as organizações. Em outras palavras, muitas empresas estão descobrindo que o gargalo não está mais nos equipamentos. Está nas condições necessárias para que as pessoas possam utilizar todo o potencial desses equipamentos. E esse fenômeno é especialmente relevante para Manaus.

Ao longo das últimas décadas, o Polo Industrial consolidou-se como um dos mais importantes complexos industriais da América Latina. Sua capacidade de adaptação tecnológica foi decisiva para sua competitividade. Entretanto, a próxima etapa dessa evolução talvez dependa menos da aquisição de novas máquinas e mais da compreensão profunda do fator humano.

Como preparar trabalhadores para ambientes cada vez mais digitais? Como reduzir a fadiga cognitiva em operações altamente automatizadas? Como desenvolver competências compatíveis com a inteligência artificial? Como transformar a diversidade de perfis cognitivos em vantagem competitiva? Como aproveitar melhor talentos frequentemente subutilizados pelo mercado de trabalho?

Essas perguntas ainda recebem pouca atenção no debate econômico regional. No entanto, elas poderão influenciar diretamente a produtividade das empresas nos próximos anos.

O mundo começa a reconhecer que inovação não depende apenas de tecnologia. Depende de pessoas capazes de aprender continuamente, resolver problemas complexos, colaborar com sistemas inteligentes e adaptar-se a cenários em constante transformação.

Talvez seja a hora de Manaus ampliar sua visão sobre inovação. Além de investir em equipamentos, software e automação, precisamos investir na compreensão científica das capacidades humanas que sustentam o desempenho industrial.

A Amazônia possui universidades, centros de pesquisa, empresas e uma realidade produtiva singular. Temos condições de contribuir para um debate que ganha importância global: como construir uma indústria mais inteligente sem esquecer que a maior tecnologia disponível continua sendo o cérebro humano.

Se a Indústria 4.0 nos ensinou a conectar máquinas, a Indústria 5.0 pode nos ensinar a valorizar pessoas. E talvez seja justamente aí que esteja a próxima grande vantagem competitiva do Polo Industrial de Manaus.

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