Quarta Fit

O shape não vale tudo

A morte de Gabriel Ganley reacendeu um debate antigo no mundo fitness: até onde vale a pena acelerar a busca por resultados?

Junio Matos
03/06/2026 às 09:31.
Atualizado em 03/06/2026 às 09:31

(Foto: Freepik)

Muita gente me cobrou um posicionamento nas redes sociais após o episódio do falecimento do Ganley. “Rato, tu não vai falar disso?”, “Mano, tu precisa falar disso” ou “Quando tu vai falar sobre o Ganley?”. Calma, frangolindos. Eu escrevo a Quarta Fit há quase 3 anos (na verdade vai completar três anos em outubro) e sempre tive muito cuidado com a forma com a qual escrevo. 

Mesmo tendo uma linguagem mais despojada, sem tecnicismos desnecessários e falando sempre com meu jeitinho ‘carinhoso’ com os leitores, a coluna já abordou diversas vezes o tema do uso e abuso de ergogênicos, sempre à luz da ciência e com a participação de grandes profissionais da saúde. A diferença é: eu não surfo no hype de uma morte para provar um ponto. 

Mas por que a morte do Ganley causou tanta repercussão assim? Simples, ele era muito jovem e supostamente saudável. Um rapaz novo, de 22 anos, shape absurdo e que era um verdadeiro fenômeno nacional do fisiculturismo, pô, é de chocar mesmo. 

Nos primeiros momentos que o falecimento dele foi anunciado, nas redes sociais não se falava de outra coisa. Foi algo que furou a ‘bolha da maromba’, os veículos de imprensa deram a notícia que rapidamente se espalhou por todos os meios de comunicação. Sim, um jovem usuário do ‘suco’ havia morrido. E mesmo sem nem citarem a causa da morte nas matérias iniciais, a internet já tinha dado o veredito: “foi culpa da bomba!”. 

Não quero aqui criar uma picuinha sobre o uso de esteróides anabolizantes, há quem defenda e há quem condene. E tudo bem. O objetivo da coluna de hoje é fazer você refletir sobre o uso de recursos ergogênicos por pessoas jovens. Tomar o ‘suco’ ou não? Eis a questão. 

Apelidado de Bebezinho, Gabriel Ganley era um rapaz muito novo. Treinava musculação há anos e já apresentava um físico de destaque antes de migrar para o fisiculturismo sem antidoping. Ao longo da sua trajetória, passou a utilizar recursos ergogênicos voltados para a melhoria da performance. Com uma rápida evolução física, tornou-se uma das promessas da nova geração do fisiculturismo nacional. 

O laudo do IML apontou que Ganley sofreu uma morte súbita cardíaca decorrente de cardiomiopatia hipertrófica, uma condição genética que provoca alterações na estrutura do coração. Nos dias seguintes ao falecimento, diversas especulações invadiram as redes e, mesmo antes da perícia oficial, muitos usuários passaram a apontar diferentes substâncias como possíveis responsáveis pelo ocorrido, incluindo insulina (substância utilizada por diabéticos para controle da glicemia). 

O uso do ‘suco’ é algo que te bombardeia desde o primeiro momento que começa a tomar gosto pelo treino e percebe leves mudanças corporais. “Preciso que seja mais rápido!”, você pensa, e não demora muito para um amigo ou mesmo um personal da academia começar a te oferecer uma ampola e uma seringa. Eu sei, tema sensível e pesado, mas completamente necessário, ainda mais nos dias de hoje. 

A pergunta que fica é: vale a pena pisar no acelerador e trocar a saúde por um shape grande? (Eu estou realmente preocupado com aqueles que responderam “sim”, no pensamento). 

Eu sei bem que esse assunto já saturou. Mas, por respeito à família do atleta, preferi esperar antes de escrever sobre algo tão delicado. E a resposta para a pergunta feita anteriormente continua sendo a mesma: não, não vale a pena trocar saúde por um resultado mais rápido.

Ganley, infelizmente, foi apenas mais um dos diversos atletas que já faleceram nos últimos anos. Todo esporte de alto rendimento tem seus riscos, o fisiculturismo só é um pouco mais direto nesse aspecto pois talvez seja o esporte fisicamente mais exigente. O mundo fitness vende velocidade o tempo inteiro, mas a construção de um bom físico sempre foi uma maratona, nunca uma corrida de 100 metros. 

Nenhum troféu, nenhuma curtida e nenhum shape impressionante valem mais do que continuar vivo para aproveitar o resultado do próprio esforço. Continue treinando, faça seus exames periódicos, cuide da alimentação e mantenha a consistência. Como diria Rodrigo Góes: “Stay natty, kids” (continuem naturais, crianças!)

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