A presença do seu trabalho é luminosa, irradiadora e permanente. Roteirizava, dirigia, filmava, editava, fazia o release para a imprensa, organizava o show e exibia a sua produção para o cinema documental e, com isso, foi reunindo os jovens que aspiram ser cineastas e atores e atrizes, em derredor de si e de seu trabalho exuberante
(Foto: Divulgação)
Em meio ás tempestades das desinformações e intrigas políticas que campeiam por esse mundão brasileiro no tempo das eleições, tempo em que a verdade sofre ataques mortais e muitas vezes sem possibilidade de defesa, no período em que desmoronam deuses, vestais e santidades se revelam santos de pau oco, eis que os amazonenses – sobretudo os amazonenses vinculados às letras, à dança, ao cinema, ao teatro, às artes plásticas, à dramaturgia, à agitação cultural e ao conhecimento jurídico – todos padecemos um golpe dramático que arrancou da cena ao multitalentoso Sergio Vieira Cardoso, de forma inesperada e precoce.
No vigor de sua produção intelectual e artística e passado em alguns anos da vida, mas mantendo a inquietação dos primeiros sinais da juventude, Sergio parecia que ia avançar ainda muitas luas pela frente em nosso convívio, fosse organizando exposições, descobrindo talentos, estimulando a produção cultural, filmando e produzindo cinema, registrando a vida e a obra de muitas personalidades da política, das artes, da sociedade, do esporte, do carnaval, expondo suas criações e publicando seus livros, fosse telefonando para conversas fiadas que não tinham fim, mas encantavam pela espirituosidade em que se desenrolavam.
Sua inquietação era permanente, como era provocativa para o bem, além de realizadora e animadora, e não raro capaz de fazer rir e capaz de agitar intensamente, mas, sobretudo, mantinha a força de encantar os que com ele conviveram mais de perto e aprenderam com sua genialidade.
A presença do seu trabalho é luminosa, irradiadora e permanente. Roteirizava, dirigia, filmava, editava, fazia o release para a imprensa, organizava o show e exibia a sua produção para o cinema documental e, com isso, foi reunindo os jovens que aspiram ser cineastas e atores e atrizes, em derredor de si e de seu trabalho exuberante. E, logo, dava de si o sangue e a alma, para que todos pudessem brilhar.
Muitas vezes reuniu dezenas de jovens artistas e, como um mestre que cultuava o ensino sob as árvores frondosas das praças de uma cidade imaginária, criou roteiros para exposições, realizou as mostras, levou os críticos e os mestres da pintura amazonense para encontrarem a juventude, aplaudirem a tela, o desenho, a xilogravura, a fotografia, enfim, tudo feito para abrir caminhos aos que desejavam chegar sem saber por onde deveriam começar a caminhar. E lá estava o Sergio, empolgado e feliz, fazendo questão de mostrar, uma a uma, cada obra, pedindo licença para explicar como e o que imaginara o autor, e, com seu riso farto e alto, sentia-se premiado, como premiados fizera sentirem-se os talentos que ele fizera despontar, mas não perdia a irreverência que, em certas ocasiões, dele tomava conta.
Generoso, cultivava o silêncio dos sábios e beneditinos sobre o que realizava em prol do próximo e, além de distribuir alegria e conhecimento, arte e talento, dava de si o que fosse preciso: a mão, o abraço, o alimento, a oração, o gesto amigo, a sua própria energia para ajudar na cura do corpo e da mente.
Sonhava sem parar, criava sem cessar, e, para realizar, vencia o impossível, e sempre me parecia que sabia que o seu tempo estava por acabar em breves dias. Nossa última conversa foi uma semana antes do seu encantamento, no hospital, em preparativos para a cirurgia. Ele falou de arte, cinema, televisão, política. Depois me mandou um áudio agradecendo a visita e disse: “Espero te agradecer essa visita em vida (...). No mais, meu irmão, você me trouxe alegria, esperança. Só não saí da cama para irmos trabalhar porque não iam me deixar passar na recepção, tchau”.
No leito, se mantinha como um vulcão em erupção permanente, como sempre foi.