Em crônica, Robério Braga questiona mudanças previstas para a Rua Ferreira Penna e defende preservação das características naturais e históricas da região
Não pense o leitor que, ao tratar desse tema - rua gastronômica em Manaus -, eu esteja metendo a colher em assunto que não é da minha conta, como alguns dos mais idosos do meu tempo de menino costumavam dizer todas as vezes que uma criança iniciava a sessão dos porquês após ouvir conversas entre adultos. Afirmo, logo de saída, que, como manauense, contribuinte do fisco e com nariz furado do jeito certo, tenho mais do que o direito, tenho o dever de meter a colher nessa situação ou em qualquer outra do gênero, mesmo que possa não adiantar de nada.
De maneira natural, foi se formando na Rua do Ferreira Penna, mediando as ruas Dez de Julho e a do Ramos Ferreira, por iniciativa estritamente particular, um comércio de alimentação e entretenimento que passou a dar sinais de vitalidade e grande aceitação popular. Casarios antigos foram sendo recuperados ao modo dos ocupantes, fachadas abandonadas ganharam vida e luz, casas semidestruídas foram recuperadas e uma avalanche de consumidores, em sua maioria jovens ou de meia-idade, se habituou a marcar encontros nos bares, cafés, restaurantes e lanches que foram sendo abertos, em clima tipicamente amazonense.
A região ferveu a tal ponto que se fazia necessário estabelecer um ordenamento e criar melhores condições na antiga urbanização despreparada para essas funções, precisando de: limpeza e iluminação pública; orientação na recomposição de fachadas; conserto de calçadas; poda das árvores, preservando-as; câmeras de segurança; ajustes no meio-fio; policiamento municipal; orientação e fiscalização no trato dos alimentos; e, com isso, ordenar, estimular e ampliar o comércio legalizado e estabelecido que gera emprego e renda, paga taxa de funcionamento, recolhe imposto de serviço, atende ao turista e à população local. Em boa hora tomei conhecimento de que a municipalidade faria a parte que lhe cabe nesse latifúndio.
O que sucedeu, entretanto, é que a intervenção decidida pela Prefeitura de Manaus foi a de elaborar e implantar um projeto que anuncia como inédito, com modernização do ambiente. Não me contive e fui conhecer detalhes, comparecendo ao local e caminhando de lado a lado, ouvindo trabalhadores e usuários, e soube o que pretendem fazer, ou melhor, o que já estão fazendo.
A proposição municipal é quebrar o cenário antigo, bucólico, acolhedor e natural da região e, ao transformá-la em “rua gastronômica”, coisa que já se definira naturalmente, eliminar o tráfego de veículos, fazer calçadão em “paver” colorido, calçadas em pedra mineira, iluminação moderna dissociada da nossa tradição, soterrar novamente as pedras tipo “jacaré” do piso original e instalar barracas para venda de alimentos sem as condições adequadas para manipulação.
Lembrei-me das pias das tacacazeiras que, logo destruídas, ficaram como entulho urbano; e do “insucesso” dos calçadões que serviram ao comércio lojista da zona franca e continuam descaracterizando o centro antigo, e não há cristão que convença que perderam a função e põem em risco a segurança dos imóveis e dos usuários, notadamente contra incêndio e pânico, e ajudam na venda de alucinógenos.
Ou seja, a meu ver, em vez de valorizar e adequar a via para as funções que os comerciantes conseguiram dotá-la, espontaneamente, preservando o clima natural do lugar, em vez de estimular e promover a reabilitação do centro antigo e ajudar na ampliação dos negócios, elevando pequenos vendedores a comerciantes instalados adequadamente, afastando-os da informalidade, a municipalidade vai ampliar esses espaços.
Isso tudo confronta com reabilitação do Centro Histórico, pois destrói mais um pedaço da cidade antiga. Mas ainda dá tempo de repensar e aproveitar os mais de cinco milhões da obra, e organizar a região sem deformá-la e impor uma modernidade indesejada, mantendo o ar natural da região.