Tefé - AM, 166 anos: um futuro de possibildades

Por: Prof. Dr. Adalberto da Silva Retto Júnior

Artigos
15/06/2021 às 18:49.
Atualizado em 24/03/2022 às 21:50

Após anos sem voltar ao coração da Amazônia para visitar minha cidade natal, ouvi em uma conferência da geógrafa e professora da Unesp de Presidente Prudente,  Dra. Maria Encarnação Sposito, Tefé sendo apresentada ora como uma cidade pequena, de acordo com o número de habitantes, ora como cidade média, de acordo com outros tantos parâmetros. 

Diante da colocação da professora, eu me apresentei como filho da cidade e teci  algumas considerações que justificam tal análise. Pela primeira vez, Tefé deixava  de ser apenas uma referência intangível da minha infância e adolescência para reaparecer, agora como núcleo urbano materializado, na idade adulta de um filho da terra especialista em cidades. 

“Que cidade é esta? Por que assume tal categoria apesar do número de habitantes? É uma a cidade na qual todas as partes se unem, as escolhas se equilibram, onde se preenche a lacuna entre o que se espera da vida e o que nos toca? ” Por instantes, retomei  a sensação de viver na cidade que, hoje, comemora os 166 anos de sua fundação. 

Nascido e criado em Tefé, fui herdeiro de duas correntes: por um lado, de uma família profundamente vinculada à  política e cultura local e, por outro, de uma família ligada à medicina social, já que meu avô materno foi médico do Serviço Especial de Saúde Pública - SESP. Talvez por isso, eu não tenha caído  no discurso de relatar a história da família e fazer uma narrativa fácil e  saudosista do passado. 

Quero, sim, assumir o papel de um especialista em urbanismo e indagar sobre o futuro da cidade pós-Covid-19, pandemia que alterou nossas vidas. Quero tentar fazer algo que a política já não sabe fazer: imaginar o futuro e não o futuro provável, mas o que é possível. Quero falar da ética da possibilidade. A política é convocada desde sempre –mas agora mais do que nunca – a respeitar “a ética da possibilidade”, porque este é o pacto que todo cidadão ainda pode sustentar. Diante da angústia inescapável do tempo atual, o futuro é uma questão grave, porque ninguém pode nos privar do encontro com a esperança e com nossas aspirações. Esta é a força da vida.

O futuro é o maior fato cultural do nosso tempo, escreveu o antropólogo indiano Arjun Appadurai (1949). Um tempo sem futuro é atemporal. Crescemos ouvindo dizer que a cultura está sempre combinada com o passado: tradições, hábitos, patrimônio, costumes. Assim, pode ser vista como barreira, limite, exclusão, obstáculo. Ocorre que o futuro é a dimensão mais negligenciada da cultura e se não olhar para longe, não é cultura. A cultura não existe para ficar olhando apenas para trás. Cultura só é cultura se souber construir horizontes, se souber imaginar e  produzir respirações amplas.

O fato é que sempre que a cultura se combina com o futuro ela ganha um outro nome: desenvolvimento e, a partir daí, dá lugar à economia que parece ter-se tornado a única ciência do futuro, expropriando nossas vidas, tirando nossas aspirações e nossos projetos. Foi assim que nos roubaram o futuro, a capacidade de ter aspirações, de ser indivíduo construtores do futuro, de um futuro como fato cultural.

A era atual de disseminação de conhecimentos e habilidades não pode trair a aspiração intrínseca de cada um: de se realizar mais do que nas eras que deixamos para trás. Desse ponto de vista, cada um de nós tem seu próprio arquivo para imaginar ou para negociar a expectativa de futuro.

A política, por seu lado, tem o dever de criar condições para que a mudança seja sempre possível, envolvente e participativa. Cabe à política desenvolver formas de pensar, sentir e agir que ampliem os horizontes da esperança, ampliem o campo da imaginação, gerem maior equidade na capacidade de sonhar. Se a política não pode vender ilusões, tampouco pode reprimir aspirações. 

Ao longo de nossa história, as cidades sempre foram o lugar ideal para a realização das aspirações humanas. É preciso que o indivíduo se volte para a cidade, para a cultura urbana como cultura de proximidade, de partilha, de pacto pela cidadania, de abertura ao outro. É preciso que cada um seja  protagonista de uma mudança que se traduz em múltiplas e diversificadas iniciativas, porque uma cidade é sempre um organismo coletivo que palpita.

A democracia é chamada a se traduzir na prática cotidiana da esperança, dos horizontes a serem conquistados, no ato de sairmos de nossas subjetivações para construirmos juntos a cultura do futuro em uma cidade policêntrica e polifônica. Que se costure, então, o tecido do futuro com o fio das ideias, da cultura e da imaginação coletivamente, e não individualmente.

As novas gerações são “ interculturais” e não há como voltar atrás, assim como não há como voltar atrás na pluralização dos estilos de vida, nas contaminações, porque estes já são os vislumbres mais promissores de uma cultura do futuro. O ser humano vive, transforma e dá sentido ao mundo com a cultura, pois ela é a dimensão essencial da ação social, da convivência, da teia de relações dentro da qual construímos nossa existência como indivíduos e como comunidade.

Aqueles que não são capazes de entender a cultura do futuro estão desligados do todo, fechados em seu mundinho e apenas prometem escuridão. Nascemos para viver à luz das nossas cidades que devem voltar a brilhar neste milênio que promete ser o milênio das cidades. 

Sobre o autor: Adalberto da Silva Retto Júnior, nascido em Tefé – AM. 

Possui Pós-doutorado no Istituto Universitario di Architettura di Venezia – It; Doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU USP, e pelo Departamento de História da Arquitetura e do Urbanismo do Istituto Universitario di Architettura di Venezia – It.

Atua como professor na Universidade Estadual Paulista – Unesp – Campus de Bauru. Foi professor visitante da Universidade Sorbonne – Paris I e da Universidade de Évora em Portugal.  Coordenador do Curso Internacional de Especialização Lato Sensu em Planejamento Urbano e Políticas Públicas: Urbanismo, Paisagem, Território. Pesquisador na linha de pesquisa em História da Cidade e do Território e na linha de Conhecimento Histórico-Ambiental Integrado na Planificação Territorial e Urbana. 

As fotos que ilustram este artigo são de Luiz Fábio de Oliveira e César Mario Rech

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