Editorial

Uma questão urgente

Mais de 9 mil gigatoneladas (Gt) de gelo polar foram perdidas desde 1976, com 98 % dessa perda convertida em água líquida nos oceanos desde 1990, e 41 % apenas na última década (2015-2024).

acritica.com
03/03/2026 às 08:00.
Atualizado em 03/03/2026 às 08:00

(Foto: Agência Brasil)

A partir da análise do estudo Planeta em Degelo, elaborado com dados do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), fica cada vez mais claro que o processo de degelo acelerado das geleiras e das calotas polares é uma das manifestações mais visíveis e preocupantes das mudanças climáticas induzidas pelo ser humano. O relatório aponta que mais de 9 mil gigatoneladas (Gt) de gelo polar foram perdidas desde 1976, com 98 % dessa perda convertida em água líquida nos oceanos desde 1990, e 41 % apenas na última década (2015-2024). Essa aceleração não é homogênea, mas concentra-se sobretudo nas grandes regiões de gelo da Antártica e da Groenlândia.

O impacto dessa perda de gelo transcende as latitudes polares e reverbera de maneira multifacetada sobre toda a biosfera e as sociedades humanas. O acréscimo de água doce nos oceanos contribui diretamente para a elevação do nível do mar, ameaçando áreas costeiras densamente povoadas, ecossistemas costeiros e a infraestrutura crítica de cidades e portos. A própria dinâmica oceânica é alterada pela diluição da salinidade.

Estudos científicos amplamente revisados por pares demonstram que essas tendências são produto direto das emissões humanas de gases de efeito estufa, que catalisam o derretimento. A perda de gelo expõe mais superfícies escuras ao sol e intensifica a absorção de radiação solar, o que por sua vez reforça o aquecimento regional e global, em um ciclo de feedback climático preocupante que pesquisadores qualificam como potencial “ponto de inflexão” climático.

As consequências para a vida no planeta são profundas. Para além da elevação do nível do mar e das perturbações oceânicas, há impactos climáticos extremos (incluindo ondas de calor, secas e chuvas intensas) que afetam a agricultura, a segurança hídrica e a saúde humana em diversas regiões do globo, como já apontam pesquisas de campo sobre variabilidade climática e percepções sociais.

Diante deste quadro, a literatura científica revisada por pares fornece diretrizes claras e fundamentadas para reduzir a velocidade do aquecimento global e, consequentemente, frear o degelo. A redução da emissão de gases de efeito estufa e o fortalecimento de sumidouros naturais de carbono é apontada de forma consensual como a estratégia central. Isso inclui a transição acelerada para fontes de energia renovável (solar, eólica, hidroelétrica com melhor gestão ambiental e outras fontes limpas), o aumento da eficiência energética em setores industriais, de transporte e construção, e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis e de restauração florestal, que fortalecem a capacidade de retenção de carbono pela biosfera.

Além das reduções de emissões, outras abordagens complementares estão sendo exploradas em pesquisas científicas, como tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS), políticas de precificação de carbono para internalizar externalidades climáticas e incentivos à conservação de ecossistemas que servem como sumidouros naturais. Essas medidas, quando implementadas em conjunto, podem criar um “estabilização de carbono” no longo prazo, diminuindo a taxa de aquecimento global e reduzindo a pressão sobre os sistemas naturais.

Paralelamente, a adaptação às mudanças climáticas, por meio da construção de infraestruturas resilientes, planejamento urbano adaptado à elevação do mar e proteção de comunidades vulneráveis, é imperativa para reduzir danos já em curso. A educação ambiental e políticas integradas de mitigação e adaptação, alinhadas com acordos internacionais como o Acordo de Paris, são essenciais para mobilizar ação coletiva.

O desafio é monumental.

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