Falta de sensatez

23/04/2020 às 11:22.
Atualizado em 13/03/2022 às 19:23

A abertura de valas comuns – chamadas pela Prefeitura de Manaus de “trincheiras coletivas” – no cemitério do Tarumã tem causado comoção em todo o Brasil e até em outros países. Nas Américas, apenas Nova York havia adotada a solução que é usada normalmente em tempos de guerra e de grandes desastres naturais como tsunamis e terremotos. É a única alternativa para dar conta da demanda por sepultamentos nos cemitérios públicos. As imagens fortes de caixões perfilados em uma vala aberta por retroescavadeira no cemitério Nossa Senhora Aparecida, assim como a pressão sobre o sistema funerário e procura por cartórios em busca de certidões de óbito são indícios de que a tragédia em Manaus é maior do que revelam os números oficiais. 

Até ontem, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS), havia na capital registro de 206 óbitos por covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, com quase 2,5 mil casos confirmados, resultando numa letalidade superior a 8%. Esse índice, muito acima do registrado em outros estados e países atingidos pela pandemia, sugere uma subnotificação altíssima em Manaus. A essa altura, qualquer pessoa pode estar carregando o vírus por aí sem apresentar sintomas. Diante desses dados, da iminência de colapso no sistema público de saúde e no sistema funerário, Manaus corre contra o tempo para não se transformar na versão brasileira da cidade de Guayaquil, no Equador, onde a tragédia tomou proporções absurdas, com corpos acomodados em caixões de papelão, deixados nas ruas à espera da coleta para sepultamento.  

Diante desse cenário, não há como falar ainda em afrouxamento das medidas restritivas de circulação de pessoas, como fechamento do comércio não-essencial e das escolas. A flexibilização de tais medidas neste momento significaria uma tragédia ainda maior em nosso Estado. São dados que deveriam preocupar e motivar a população a seguir as orientações de distanciamento social, que são, por enquanto, a única forma de conter o avanço do contágio. Porém, o impacto das imagens tenebrosas de cemitérios que têm circulado nas redes sociais parece ser nulo nas áreas periféricas de Manaus, onde as pessoas ainda preferem arriscar a sorte em aglomerações desnecessárias, colocando em risco a própria vida e a de outras pessoas. Para vencer o vírus, Manaus precisa de sensatez.

*Foto: Sandro Pereira

 

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