Presidente do Conselho de Artes, Ericky Nakanome detalha os conceitos que formam o tema escolhido pelo boi azul e branco para o Festival de Parintins
Tema do Caprichoso para 2026, “Brinquedo que Canta Seu Chão” propõe uma reflexão sobre o boi-bumbá como expressão de pertencimento, ancestralidade e cultura popular (Fotos: Jeiza Russo e Junio Matos / A CRÍTICA)
Parintins/AM - Todos os anos, os bois-bumbás escolhem um tema para conduzir a construção de seus espetáculos na arena do Bumbódromo. Em 2026, o Caprichoso apresenta “Brinquedo que Canta Seu Chão”, conceito que norteará o projeto artístico do boi azul e branco no Festival de Parintins.
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Mas, afinal, o que é esse brinquedo? E que chão é esse que ele canta? Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, o presidente do Conselho de Artes do Caprichoso, Ericky Nakanome, explica que o tema nasce da própria forma como o boi-bumbá é compreendido na cultura popular amazônica. A partir daí, o conceito se desenvolve sobre três palavras centrais: brinquedo, chão e cantar.
Assinada pelo artista de alegorias Kennedy Prata, o ritual indígena 'Tukaia dos Espíritos' é um rito ligado às práticas xamânicas dos povos indígenas, na qual a ‘tukaia’ serve como um espaço sagrado e reservado para contatar entidades. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
A compreensão do tema passa primeiro pela figura do próprio boi. Tradicionalmente chamado de brinquedo popular, ele costuma ser associado ao boneco confeccionado artesanalmente e conduzido na arena durante as apresentações. Para o Conselho de Artes do Caprichoso, porém, essa é apenas uma das camadas que compõem esse significado.
Presidente do Conselho de Artes do Caprichoso, Ericky Nakanome explica os conceitos de brinquedo, chão e canto que fundamentam o tema do boi azul e branco para o Festival de Parintins 2026. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
Em fase final de montagem, a alegoria que representa o tema “Brinquedo que Canta Seu Chão” aguarda traslado para a concentração do Caprichoso no Bumbódromo, onde integrará a preparação para o Festival de Parintins 2026. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
A partir dessa leitura, o brinquedo deixa de ser apenas aquilo que entra na arena para representar também as histórias, os afetos e as experiências construídas em torno dele ao longo do tempo.
Alegoria 'Ferrão de Fogo' do Caprichoso ilustra rito de iniciação do povo indígena Sateré-Mawé. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Se o brinquedo ajuda a compreender quem é esse boi, o chão ajuda a entender de onde ele vem. No tema escolhido para 2026, a palavra está ligada ao território que moldou a história da manifestação e da própria cidade de Parintins.
“Esse brinquedo vem para a arena cantar o seu chão, cantar de onde ele vem, porque o chão que ele vive também é ele. É o mesmo território onde inúmeros ancestrais cultivaram para a gente essa ilha. Esse mesmo chão desses povos que há 2, 3 mil anos atrás conviveram aqui é o mesmo chão que estamos pisando para fazer festa. Então, esse chão, esse território também faz parte do boi brinquedo”, explica.
Ao falar sobre esse território, Ericky cita pesquisas arqueológicas realizadas na ilha que apontam a presença humana na região há milhares de anos. Para ele, compreender esse passado também ajuda a compreender a relação construída entre o boi e o lugar onde nasceu.
Para o Conselho de Artes, o boi-brinquedo é uma entidade viva que reúne comunidade, memória e pertencimento. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
O terceiro elemento do tema está na palavra cantar. Mais do que uma referência às toadas, o termo aparece, na explicação do presidente do Conselho de Artes, como a forma encontrada pelo Caprichoso para expressar, por meio da arte, tudo aquilo que carrega em relação ao seu território.
No centro dessa narrativa está o próprio boi. Um brinquedo que, na leitura apresentada pelo Conselho de Artes, carrega memórias, representa um território e entra na arena para cantar as histórias do lugar de onde veio.