Família transforma recordações, documentos e narrativas em um legado afetivo ligado à trajetória do bumbá azul e branco
Carlos Rui Santos preserva fotografias, lembranças e histórias de seu pai, Luiz Pereira, na residência da família, na rua Cordovil, em Parintins (Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA)
A história do boi-bumbá Caprichoso é a história de muitas mãos. Nascido nos terreiros e quintais das casas do “Esconde”, no bairro da Francesa, em Parintins, antes de estarem organizados em associações folclóricas, conta a história que os bumbás tinham donos. Famílias detinham a propriedade do boi e eram responsáveis por manter a tradição da brincadeira de boi-bumbá.
Na rua Cordovil, no Centro da Ilha Tupinambarana, guarda-se a casa onde morou 'seo' Luiz Pereira. Chefe da família Pereira, foi ele o responsável por trazer o Caprichoso do Aninga (comunidade rural distante do centro urbano da cidade) para a zona urbana de Parintins, onde a brincadeira de boi-bumbá floresceu em seu quintal por anos.
Com o intuito de conhecer a história, a memória e o legado de 'seo' Luiz Pereira para o boi Caprichoso, a reportagem de A CRÍTICA foi até a residência da família, na rua Cordovil, e conversou com Carlos Rui Santos, filho de Luiz Pereira, herdeiro da tradição e responsável pela salvaguarda de uma das histórias mais cativantes do bumbá azul e branco.
“Falar do meu pai, Luiz Pereira, é falar também de meu avô e de minha mãe. O boi Caprichoso chegou às mãos de meus avós e, sucessivamente, às mãos do meu pai, quando o finado Luiz Gonzaga faleceu. Na época, o boi estava na Francesa e, quando ele faleceu, não tinha mais boi, estava pendurado e não tinha ninguém para 'colocar' o boi, era muito gasto”, contou o filho de Luiz Pereira.
No passado, manter a brincadeira de boi-bumbá era custoso e exigia muitos recursos financeiros de seus donos e simpatizantes. Quando Luiz Gonzaga faleceu, para manter viva a tradição do boi-bumbá Caprichoso, a família Pereira foi responsável por tomar conta do touro negro de Parintins, levando-o para o Aninga, onde possuíam terras, gado, casas de carvão e, principalmente, condições de manter o boi.
O quintal ao lado da casa de Luiz Pereira, de propriedade de seu vizinho Francisco Mendonça, o 'seo' Chico, foi o curral onde o boi Caprichoso brincou por quase três décadas. Desse período, a memória de Carlos Rui Santos relembra os três principais donos do bumbá: Roque Cid, Luiz Gonzaga e seu pai, Luiz Pereira.
“Meu pai conversou com o 'seo' Chico, que, se ele cedesse o quintal, iria construir uma casa de madeira para ele. 'Seo' Chico aceitou e assim fez. Limpamos o quintal, construíram a casa dele e aqui virou o Curral do Caprichoso, no quintal de 'seo' Francisco Mendonça”, contou Carlos Rui Santos.
Antiga área onde funcionou o Curral do Caprichoso na rua Cordovil. O espaço foi cedido por Francisco Mendonça e tornou-se um dos locais marcantes da trajetória do boi azul em Parintins.. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
Em vida, 'seo' Luiz Pereira, para além de trazer o Caprichoso do Aninga para o Centro de Parintins, era o responsável por todas as despesas e investimentos na brincadeira de boi-bumbá. Desde os enfeites e as indumentárias até os 'marujos' do boi.
“Meu pai tinha muito amor por esse boi e fazia de tudo pelo Caprichoso. Luiz Pereira ficou muito conhecido por procurar os colegas dele para ajudar a comprar os materiais. Compravam tudo, os panos e os cetins para fazer as vestimentas. Antigamente, por exemplo, os povos indígenas tinham os 'calças azuis', os 'calças brancas' etc. Tudo ele fazia para esse boi, ele só trabalhava para esse boi”, relatou.
Retrato de Luiz Pereira preservado pela família na residência onde vivem seus descendentes, na rua Cordovil.
Entre as memórias, o filho de Luiz Pereira lembra que, no mês de junho, seu pai reunia familiares, amigos e brincantes para enfeitarem o Curral do Caprichoso e a rua Cordovil, reduto azulado durante aquele período.
Apesar de ter se doado de corpo e alma ao Caprichoso, a família de Luiz Pereira lamenta o esquecimento e a pouca valorização de seu legado e de sua memória.
“Depois que tiraram o boi das mãos de meu pai, aos poucos a história dele foi sendo deixada de lado. Existem pessoas que não deixam o legado de Luiz Pereira se apagar. Não queremos nada em troca, apenas que a memória de meu pai não seja esquecida”, lamentou.
Emocionado, Carlos Rui Santos contou que o carinho dos torcedores ao reverenciarem a memória de Luiz Pereira, no lugar que um dia foi o Curral do Caprichoso, é motivo de alegria e de manutenção de um legado de amor e abnegação de quem tudo doou e se entregou ao boi.
“Quando eu vejo essas pessoas chegando aqui, eu me emociono. Falar do amor ao Caprichoso é falar da história do meu pai, que pouco tem reconhecimento. Mas Luiz Pereira foi um homem que tanto amou esse boi, que vivia inteiramente para ele e que tanto lutou por sua continuidade”, terminou Carlos Rui Santos, filho de Luiz Pereira.