Diretor de arena Telo Pinto detalha como o espetáculo vermelho e branco vai explorar os seres encantados, a diversidade dos povos amazônicos e as memórias que formam a identidade de Parintins
Entre seres encantados, ancestralidade e memória, o Garantido transforma Parintins em um portal entre o mundo material e o imaterial no Festival de 2026 (Fotos: Jeiza Russo e Daniel Brandão / A CRÍTICA)
Parintins/AM - Contam os ‘mais antigos’ que embaixo de Parintins existe um místico portal que leva a uma cidade que abriga seres encantados e míticos, dotados de magias, encantamentos e conhecimentos. Fundada à margem do rio Amazonas, o município é a síntese do que se domina como ‘Ilha Encantada’. Um universo abençoado por encantados, seres habitantes de entre-mundos do fundo, espiritual e transcendental, onde o mistério se torna arte, festa e cultura popular.
A partir deste ideário, o boi-bumbá Garantido apresenta para o 59° Festival Folclórico de Parintins a temática “Parintins: Portal do Encantamento”, uma ode ao mundo não visível, imaterial e sensorial, onde a ‘Ilha da Magia’ é epicentro e território de crenças, histórias e memórias.
A alegoria temática “Parintins: Portal do Encantamento” sintetiza o conceito apresentado pelo Garantido para o Festival de Parintins 2026, reunindo referências à ancestralidade, aos povos da Amazônia e ao universo dos encantados. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Em entrevista à reportagem de A CRÍTICA, Telo Pinto, diretor de arena e membro da Comissão de Artes do boi-bumbá Garantido, detalhou sobre a temática e espetáculo de arena do boi da Baixa de São José que será apresentado na Arena Bumbódromo.
Diretor de arena e membro da Comissão de Artes do Garantido, Telo Pinto detalhou à reportagem de A CRÍTICA os conceitos que fundamentam o tema “Parintins: Portal do Encantamento” para o Festival de Parintins 2026. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA.
Para trabalhar a temática escolhida, a Comissão de Arte do boi-bumbá Garantido realizou pesquisa e embasamento teórico e antropológico acerca do assunto, além de escuta dos povos indígenas e mestres dos saberes populares, resultando em confluência de ideias e num boi de arena estritamente fundamentando.
Entre seres míticos, guardiões da floresta e referências à ancestralidade amazônica, a lenda “Kamara” é uma das expressões visuais do tema escolhido pelo Garantido para 2026. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Para o diretor de arena, o espetáculo do boi Garantido foi idealizado como uma reconexão do sujeito com o mundo não-visível, porém sentido. Desta forma, fora planejada uma apresentação que perpassa a compreensão do universo dos encantados até o mundo contemporâneo.
“O que veio antes? Eram seres encantados e era o encantamento. Peixes que andavam, seres humanóides e outra conotação de mundo até chegar até ao que somos hoje. O boi Garantido apresenta esta cronologia, em falar do misticismo, da ancestralidade e, principalmente, falar do povo que vive na Amazônia, envolvendo desde os que habitaram no passado, aos que vivem hoje aqui”, explicou.
O Boi Garantido no seu ensaio técnico de arena, realizado na noite de domingo (21). Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
‘Parintins: Portal do Encantamento’ é também a exaltação aos povos e gentílicos que formaram e/ou formam Parintins. Dentre eles, os povos Hixkaryana, Sateré Mawé, Pokó, Konduri, Tupinambá (que denomina a Ilha Tupinambarana), quilombolas, caboclos, ribeirinhos, campesinos, judeus, nordestinos e tantos outros.
“Tudo isso, essa mistura de raças que é o nosso povo, está relacionada ao ‘portal do encantamento’. Parintins é uma porta de influência ancestral e sobrenatural. O boi Garantido se propõe um caminho de mostrar o que é Parintins para o mundo todo e, principalmente, o que é o encanto que aqui existe”, ressaltou.
A alegoria “Travessia das Cinzas” integra o conjunto cenográfico do espetáculo “Parintins: Portal do Encantamento”, que propõe uma jornada pela ancestralidade, espiritualidade e universo dos seres encantados da Amazônia. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA.
Neste universo amazônico ancestral, Parintins é compreendido como um portal para o mundo não-visível, onde habitam seres encantados — nem humanos, nem animais, nem sobrenaturais, entretanto, guardiões dos saberes ancestrais, da natureza-viva e da vida.
“Falaremos da nossa gente, da nossa região e dos seres que aqui habitam. Desde as mães das florestas aos povos do Jamanxim, que vão à floresta em busca do extrativismo, às festas de santo. Isso significa que fazemos uma mistura de crenças sempre em busca do encantamento. Nós somos o boi do folclore, mas também nós somos tema”, afirmou Telo Pinto.
A alegoria “Pindova’úmi’ga”. Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA
Para o diretor de arena, ao unir diferentes perspectivas de povos e crenças e visões de mundo, o boi-bumbá Garantido se propõe a transmitir a ideia de união a partir do conceito de encantamento.
Adentrando ao mundo dos encantados, o boi Garantido convida a conhecer Parintins, através do portal do encantamento, em um mundo de misticismo e misticidade, onde os seres encantados não são somente lendas repassadas através da oralidade, mas histórias de seres vivos que atravessaram as narrativas e registros formais do homem.
“Existe a cidade e os bichos do fundo, mas há também os seres encantados que estão nos rios, na terra e no ar, como o Noçoquém, uma lenda indígena Sateré Mawé, onde o primeiro registro foi datado pelo indigenista João Américo Peret. Ele esteve entre parentes e teve a certeza que Parintins era um portal de influência sobrenatural. Parintins é o Noçoquém, a terra encantada”, salientou.
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