Discurso polifônico e decolonial será dividido em três subtemas, que farão a defesa de todas as vidas – negras, indígenas, caboclas e LGBTQIA+, encerrando com uma ode ao amor da torcida pelo Boi do Povão
Itens e dirigentes do Garantido durante a entrevista coletiva (Jeiza Russo/A Crítica)
O que você vai ler:
PARINTINS - O Boi Bumbá Garantindo promete levar à arena do Bumbódromo um discurso polifônico: a defesa por todas as vidas/pessoas – e suas particularidades – e a vida dedicadas ao Boi do Coração. Tal proposta foi apresentada na tarde desta quinta-feira (29), durante entrevista coletiva à imprensa, um dia antes do início do maior espetáculo a céu aberto da terra.
Contando com a presença do líder indígena Kaiapó Raoni Metuktire, de 93 anos, a comissão de artes do bumbá detalhou sobre os três dias de apresentação e declarou que o espetáculo será pautado na decolonialidade e exaltação da cultura popular brasileira, passando pelo amor existente entre o bumbá e a torcida encarnada.
Já para a primeira noite do festival, foi anunciado o ritual “Nominação Kaiapó”, que contará com a presença do cacique Raoni.
Segundo a comissão de artes do Boi do Povão, o primeiro ato será para alertar a humanidade de uma escolha inadiável: cuidar da Mãe Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida.
O cacique Raoni durante a coletiva na Cidade Garantido
Segundo o membro da comissão de artes, Adan Renê, as negociações para trazer o Raoni até o Festival iniciaram antes mesmo da toada “Nominação Kaiapó” estar pronta. Para ele, o espetáculo deste ano trabalhará temáticas voltadas às minorias sociais, sendo decolonial e antirracista.
Adan Renê, membro da Comissão de Artes
Para Adriano Paketa, o Pajé do Garantido, o espetáculo deste ano será pautado na representatividade.
O Pajé, Adriano Paketá
Em fala rápida, o presidente interino do Boi Garantido, Adson Silveira, contou que a agremiação passou por uma série de dificuldades, mas que irá para a arena em uma apresentação voltada a todas as vidas, principalmente as daqueles que seguem o Boi do Povão.
O presidente interino do Garantido durante a entrevista
O Garantido dividiu o seu tema deste ano com três subtemas por noites, como acontece tradicionalmente.
Na primeira noite, o bumbá trabalhará o tema “A vida depende da vida”.
Neste contexto, o bumbá reforçará o discurso de preservação ambiental e da importância dos povos indígenas. Tanto que nesta primeira noite será encenado o ritual Nominação Kayapó, que fala do nascimento de uma das maiores lideranças indígenas do mundo: o cacique Raoni Metuktire.
Detalhe curioso: o ritual acontecerá no início da apresentação, e não ao final, como tradicionalmente acontece.
A segunda noite tem o subtema “Eu sou porque nós somos”. A ideia, segundo o bumbá, é trabalhar a diversidade, tratando dos trabalhadores/as, LGBTQIAPN+, negros/as, mestiços/as, indígenas, mulheres, caboclos/as e ribeirinhos/as. Entre as representações da noite, estarão as Caboclas do Barro, que em diversos pontos da nossa Amazônia trabalham a cerâmica marajoara.
Um dos momentos mais esperados da noite é o ritual Odoshas, concebido em 2020 mas que jamais foi apresentado na arena.
A terceira noite falará do Garantido como “Amor por toda vida”, de uma maneira que o bumbá sintetiza como sendo “uma viagem sentimental pela trajetória de lutas e glórias do Boi do Povão”.
O repertório da noite passa por toadas históricas do bumbá, como “Urrou Meu Novilho”, “Ao Pé da Roseira” e “Boi do Carmo”, esta última durante a apresentação dos Romeiros e Romeiras de Nossa Senhora do Carmo como figura típica regional. A Lenda Amazônica resgata a encenação do Mapinguari, que fez história em 1997, com alegoria do artista Carivardo.
A Decolonialidade é uma escola de pensamento que tem como objetivo libertar a produção de conhecimento da visão eurocêntrica. Ou seja, grosso modo, é uma contra colonialidade. Tem sido bastante repercutida na academia e entre movimentos sociais da América Latina.