Enredo é divulgado

Garantido levará ao Bumbódromo uma defesa ampla da vida

Discurso polifônico e decolonial será dividido em três subtemas, que farão a defesa de todas as vidas – negras, indígenas, caboclas e LGBTQIA+, encerrando com uma ode ao amor da torcida pelo Boi do Povão

Michael Douglas e Dante Graça
29/06/2023 às 20:43.
Atualizado em 29/06/2023 às 20:43

Itens e dirigentes do Garantido durante a entrevista coletiva (Jeiza Russo/A Crítica)

O que você vai ler:

  • Garantido levará à arena tema ‘decolonial’ e ‘antirracista’
  • Primeiro dia de espetáculo contará com ritual em homenagem a Raoni Metuktire
  • Último dia terá uma ode ao amor da torcida encarnada pelo Boi do Povão

PARINTINS - O Boi Bumbá Garantindo promete levar à arena do Bumbódromo um discurso polifônico: a defesa por todas as vidas/pessoas – e suas particularidades – e a vida dedicadas ao Boi do Coração. Tal proposta foi apresentada na tarde desta quinta-feira (29), durante entrevista coletiva à imprensa, um dia antes do início do maior espetáculo a céu aberto da terra.

Contando com a presença do líder indígena Kaiapó Raoni Metuktire, de 93 anos, a comissão de artes do bumbá detalhou sobre os três dias de apresentação e declarou que o espetáculo será pautado na decolonialidade e exaltação da cultura popular brasileira, passando pelo amor existente entre o bumbá e a torcida encarnada.

“Nosso espetáculo será polifônico, primeira falando do Garantido por todas as vidas: negras, indígenas, caboclas, LGBTQIA+, mulheres e homens, vamos para a arena por todos os direitos de ser, crer e existir. Mas esse tema vai falar também para todos nós da Baixa do São José, principalmente quando falamos que somos Garantido por toda a vida e essa cultura que dá sentido a todas as vidas”, disse o coordenador da comissão de artes do bumbá, Allan Rodrigues.

Já para a primeira noite do festival, foi anunciado o ritual “Nominação Kaiapó”, que contará com a presença do cacique Raoni.

Segundo a comissão de artes do Boi do Povão, o primeiro ato será para alertar a humanidade de uma escolha inadiável: cuidar da Mãe Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida.

O cacique Raoni durante a coletiva na Cidade Garantido

“Quero agradecer pelo convite e homenagem que farão para mim e ao povo Kaiapó do Mato Grosso. Queria falar para todos que nós temos que trabalhar juntos, com cada povo tendo a sua cultura, que é muito linda. Não luto apenas pela sociedade indígena, mas também pelos demais, pensando diferente de outras pessoas, como os políticos. Só quero paz para o nosso país que chamam de Brasil, apesar de não existir esse nome na nossa língua”, disse o líder indígena.

Segundo o membro da comissão de artes, Adan Renê, as negociações para trazer o Raoni até o Festival iniciaram antes mesmo da toada “Nominação Kaiapó” estar pronta. Para ele, o espetáculo deste ano trabalhará temáticas voltadas às minorias sociais, sendo decolonial e antirracista.

Adan Renê, membro da Comissão de Artes

“A ideia de discurso polifônico remete a dura realidade de vários desses povos. Não podemos falar de Amazônia, defesa da vida sem levar em consideração todas essas vidas e é isso que vamos trazer para a arena em um espetáculo de três atos. Estamos fazendo um reconhecimento desses povos originários e aqueles vieram depois, em diásporas. Trazer o Raoni é para que o nosso discurso não ficasse apenas na retórica, mas sim trazer essa representatividade”, conta Adan.

Representatividade

 Para Adriano Paketa, o Pajé do Garantido, o espetáculo deste ano será pautado na representatividade.

O Pajé, Adriano Paketá

“Sempre tive o sonho de conhecer o Raoni, e estar com ele nesse momento me deixa até sem palavras. Estamos com uma responsabilidade muito grande e estou preparado para fazer acontecer, principalmente nos rituais, vamos ao longo de três noites mostrar esse discurso decolonial, seja nas toadas ou no danças”, comentou o artista.

Em fala rápida, o presidente interino do Boi Garantido, Adson Silveira, contou que a agremiação passou por uma série de dificuldades, mas que irá para a arena em uma apresentação voltada a todas as vidas, principalmente as daqueles que seguem o Boi do Povão.

O presidente interino do Garantido durante a entrevista

“Levar o Garantido para a Arena esse ano é um dos maiores desafios que a vida me deu, mas me sinto como um kaçaueré lutando para colocar o boi na arena e a vitória. Esses anos falamos por todas as vidas, e convido todos as virem e se emocionarem com o nosso espetáculo. Será o título da superação”, disse Adson.

Divisão em subtemas

O Garantido dividiu o seu tema deste ano com três subtemas por noites, como acontece tradicionalmente.

Primeira noite

Na primeira noite, o bumbá trabalhará o tema “A vida depende da vida”.

Neste contexto, o bumbá reforçará o discurso de preservação ambiental e da importância dos povos indígenas. Tanto que nesta primeira noite será encenado o ritual Nominação Kayapó, que fala do nascimento de uma das maiores lideranças indígenas do mundo: o cacique Raoni Metuktire.

Detalhe curioso: o ritual acontecerá no início da apresentação, e não ao final, como tradicionalmente acontece.

Segunda noite

A segunda noite tem o subtema “Eu sou porque nós somos”. A ideia, segundo o bumbá, é trabalhar a diversidade, tratando dos trabalhadores/as, LGBTQIAPN+, negros/as, mestiços/as, indígenas, mulheres, caboclos/as e ribeirinhos/as. Entre as representações da noite, estarão as Caboclas do Barro, que em diversos pontos da nossa Amazônia trabalham a cerâmica marajoara.

Um dos momentos mais esperados da noite é o ritual Odoshas, concebido em 2020 mas que jamais foi apresentado na arena.

Terceira noite

A terceira noite falará do Garantido como “Amor por toda vida”, de uma maneira que o bumbá sintetiza como sendo “uma viagem sentimental pela trajetória de lutas e glórias do Boi do Povão”.

O repertório da noite passa por toadas históricas do bumbá, como “Urrou Meu Novilho”, “Ao Pé da Roseira” e “Boi do Carmo”, esta última durante a apresentação dos Romeiros e Romeiras de Nossa Senhora do Carmo como figura típica regional. A Lenda Amazônica resgata a encenação do Mapinguari, que fez história em 1997, com alegoria do artista Carivardo.

Pensamento decolonial

A Decolonialidade é uma escola de pensamento que tem como objetivo libertar a produção de conhecimento da visão eurocêntrica. Ou seja, grosso modo, é uma contra colonialidade. Tem sido bastante repercutida na academia e entre movimentos sociais da América Latina.

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