PRESSÃO POPULAR

Massacre no rio Abacaxis, seis anos depois justiça silencia e a “lei do medo” avança

Maioria das autoridades convidadas para o seminário não compareceu

Ivânia Vieira
13/08/2026 às 08:55.
Atualizado em 13/08/2026 às 08:57

O choro silencioso, quase imperceptível, se espalhou entre participantes do seminário “6 anos do massacre do Abacaxis – Como responderá o judiciário brasileiro aos crimes contra direitos humanos?”, realizado na manhã de quarta-feira (12/08), no auditório rio Solimões, do Instituto de Filosofia Ciências Humanas e Sociais (IFCHS).  O choro sem controle se fez escutar por todo o ambiente durante a leitura dos nomes das pessoas assassinadas e de um desaparecido em agosto de 2020.

Agora, seis anos depois do massacre respostas são reivindicadas. Familiares das vítimas fatais, eles próprios vítimas da instalação de um sistema de terror na região dos rios Abacaxis e Mari-Mari, entre os municípios de Nova Olinda do Norte e Borba, no sul do Amazonas, estavam no auditório, por mais um ano, para saber o que fazem a justiça brasileira e a do Amazonas para punir os mandantes e os autores desse massacre, e reparar as sequelas deixadas nos familiares.

“Não tenho condição de falar sobre aquele dia (o dia do massacre). Estou doente, vivo com medo de qualquer barulho, meu corpo treme”, disse uma das pessoas da comunidade presente no seminário. “São seis anos de agonia, de temer que a qualquer momento os policiais voltem e nos matem. As crianças, as mulheres deixaram de fazer o que antes faziam como brincar, tomar banho de rio. Estamos com medo”, relatou uma das senhoras.

Souberam pouco. As autoridades convidadas para o seminário não compareceram. Uma das ausências mais sentidas e sem justificativa apresentada foi a do representante do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Ouviram a defensora pública da União (DPU-DF), Fabiana Nunes Henrique Silva, que participou de modo remoto do seminário. Ela reconheceu que o caso não tem recebido a atenção que merece e assumiu o compromisso de entrar em contato com a DPU-AM para que os defensores tratem entre outras questões da devolução dos celulares de comunitários apreendidos por policiais militares há seis anos.

Os comunitários puderam sentir o apoio e a solidariedade de representantes de um conjunto de organizações do movimento popular, indígenas e indigenistas. Estes se misturaram no auditório Solimões lotado. Reafirmaram o compromisso de lutar para manter viva a memória do massacre no rio Abacaxis e por justiça. “Não é vingança o que nos mobiliza, é compromisso contra a impunidade”, disse o vice-diretor do IFCHS, professor Maiká Schwade, para quem “a universidade e a sociedade precisam agir para impedir que a impunidade seja institucionalizada no Amazonas”.

O seminário foi realizado pelo Coletivo dos Abacaxis, com apoio da UFAM/IFCHS. Ao final do encontro, os presentes aprovaram uma carta-manifesto onde pedem que “os executores e mandantes sejam responsabilizados, garantindo a não repetição de situações semelhantes e que o Estado brasileiro garanta às vítimas indenização, amparo e reparação por diferentes formas”.

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