OPERAÇÃO 'COVIL DE MAMON'

Sequestro de grávida, PMs presos e R$ 24 milhões movimentados marcam operação contra agiotagem no AM

Polícia aponta ligação de organizações criminosas com extorsão, homicídios, tortura e lavagem de dinheiro em quatro estados

Daniel Brandão
20/05/2026 às 14:07.
Atualizado em 20/05/2026 às 14:08

Delegado Fernando Bezerra detalhou esquema de agiotagem, extorsão e movimentação milionária investigado pela Polícia Civil do Amazonas (Fotos: Daniel Brandão/A CRÍTICA)

Agiotagem, extorsão, homicídios consumados e tentados, tortura, sequestro, cárcere privado, aborto e lavagem de dinheiro estão entre os crimes dos investigados presos durante a Operação “Covil de Mamon”, deflagrada nesta quarta-feira (20) nos estados do Amazonas, Paraíba, Roraima e Santa Catarina. Dois policiais militares, responsáveis pelo núcleo financeiro das ORCRIMs, também foram presos.

A ação policial, coordenada pelos 12º e 20º Distritos Integrados de Polícia (DIP), com o apoio do Departamento de Polícia Metropolitana (DPM), Secretaria Executiva Adjunta de Operações (Seaop) e Polícia Militar do Amazonas (PMAM), cumpriu 26 mandados de prisão preventiva, 31 de busca e apreensão e o sequestro de 42 veículos e sete imóveis, além do bloqueio judicial de contas bancárias e suspensão das atividades de sete pessoas jurídicas ligadas a organizações criminosas que movimentaram mais de R$ 24 milhões, provenientes de atividades ilícitas.

Objetos apreendidos durante a operação serão periciados para reforçar as investigações sobre lavagem de dinheiro e extorsão

 De acordo com o delegado Fernando Bezerra, do 20° DIP, a organização criminosa atuava a partir de empréstimos a juros abusivos e dívidas com progressões injustificadas, culminando em cobranças com ameaças, lesões corporais, sequestro e, em alguns casos, homicídios.

“Temos catalogados aqui homicídios, também derivados desses atos de cobrança. As vítimas passam de 40. A nossa investigação cataloga crimes desde 2021, mas circunscrito essencialmente entre 2024 e 2026. Durante esse período eles movimentaram mais de 24 milhões em uma única organização criminosa. A outra ainda está sendo levantada por causa das medidas cautelares”, detalhou Bezerra.

Dentre as prisões cumpridas durante a Operação, estão dois policiais da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), responsáveis por integrarem o núcleo financeiro da organização criminosa, que foram presos no estado de Santa Catarina.

“Eles são os principais responsáveis pelo núcleo financeiro. Este núcleo trabalha exatamente com os atos de ocultação e de simulação, que são de lavagem de dinheiro. A investigação vai muito além da mera cessação da atividade criminosa de extorsão e de cobranças. Ela vai ainda na rota do dinheiro, buscando reaver todo o valor que foi retirado das vítimas e que, porventura, causou um dano financeiro para essas pessoas”, explicou o delegado.

Polícia apreendeu armas, equipamentos eletrônicos e materiais ligados às organizações criminosas investigadas

 Agiotagem e extorsão

“São, na realidade, empréstimos a juros abusivos e extorsivos. Temos casos aqui de R$ 150 emprestados que se tornaram R$ 45 mil de dívida. Outros casos em que a dívida progrediu em uma progressão que não se justifica, para mais de R$ 400 mil”, relatou o delegado Fernando Bezerra.

Ainda segundo o delegado, em uma das ações criminosas de cobranças dos empréstimos a juros abusivos, uma mulher grávida foi sequestrada e, durante o cárcere, perdeu o bebê.

“Durante um dos atos de cobrança de uma das organizações criminosas, nós tivemos uma moça que foi sequestrada e estava em cárcere privado em um dos QGs dessa organização criminosa. Ela foi colocada em sequestro por praticamente dez dias e, durante esse período há uma alta probabilidade de que ela tenha perdido o bebê que ela estava gestando”, detalhou.

Apreensão e perícia

A Operação “Covil de Mamon” apreendeu computadores, notebooks, livros de registros, armas de fogo, munições, coletes balísticos, espadas colecionáveis, e outros, além da realização do sequestro de 42 veículos, sete imóveis e bloqueio judicial de contas bancárias e suspensão das atividades de sete pessoas jurídicas, que serão periciadas para substanciar o inquérito que investiga as organizações criminosas.

“Isso é para garantir a cadeia de custódia, para que a gente tenha realmente uma prova irrefutável e que a manutenção de prisão dos infratores seja feita. Hoje a perícia tem o que há de mais moderno em termos de extração de aparelhos celulares. Muitas provas ainda irão surgir a partir da análise deles. Em relação a armas, após a coleta do padrão, elas podem estar associadas a outros crimes também”, explicou Najara Marinho, diretora do Instituto de Criminalística.

Munições, computadores e documentos estão entre os materiais apreendidos durante a operação “Covil de Mamon”

Operação Mamon

 Operação “Covil de Mamon”, deflagrada nesta quarta-feira (20) nos estados do Amazonas, Paraíba, Roraima e Santa Catarina, investiga duas organizações criminosas envolvidas em crimes de agiotagem, extorsão, homicídios consumados e tentados, tortura, sequestro, cárcere privado, aborto e lavagem de dinheiro

De acordo com as investigações, os grupos criminosos operavam um esquema de empréstimos a juros exorbitantes, no qual o não pagamento nas datas estipuladas resultava em um sistema organizado de cobranças violentas.

O nome da operação faz alusão a “Māmôn”, tratando-se de um termo derivado do aramaico que significa "dinheiro", "riqueza" ou "lucro". Na mitologia cristã, refere-se a uma uma entidade frequentemente associada à ganância, avareza e ao deus do dinheiro e/ou demônio da ganância.

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