Lei Maria da Penha

‘Brasil é um lugar de risco às mulheres de todas as idades’, afirma pesquisadora

Ativistas do movimento de mulheres avaliam os 18 anos de vigência da Lei Maria da Penha frente ao aumento da violência doméstica

Emile de Souza
07/08/2024 às 19:23.
Atualizado em 07/08/2024 às 19:23

Ativistas do movimento de mulheres (Foto: Divulgação)

Passados 18 anos da entrada em vigor da Lei Maria da Penha (completados nesta quarta-feira),  o Brasil ainda “é um lugar de risco às mulheres de todas as idades”. A afirmação é da doutora em  processos socioculturais da Amazônia, Ivânia Vieira. 

“Todas as modalidades de violência contra a mulher cresceram, de acordo com o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública 2024”, ressaltou a professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Ivânia lembrou que, segundo o estudo, 63, 6% das vítimas de feminicídio são mulheres negras; 71,1% são mulheres com idade entre 18 e 44 anos; 64,3% das vítimas foram mortas em suas próprias casas. Os crimes de ameaça cresceram, na comparação com igual período de 2023, 16,5%; os de stalking, 34,5%; os de violência psicológica, 33,8%, para citar alguns deles. 

“A concessão de medidas protetivas também aumentou em 26,7% (no total de 540.255), um indicador importante no posicionamento de maior atenção por parte da justiça que precisa avançar e se tornar mais ágil a fim de que o instrumento medida protetiva funcione com eficácia e eficiência na garantia da vida das mulheres”.

A pesquisadora enfatiza que, em 18 anos, a Lei Maria da Penha forçou mudanças em condutas institucionais, patrocinou comissões e realizações de oficinas em comunidades. 

“Ao mesmo tempo, a cultura da violência e do machismo inerente a ela ganharam espaço e apoio de governos, desde o governo federal às instâncias estaduais e municipais, de empresários, parlamentares, religiosos. O que se busca é enfrentar os movimentos de apoio a esse tipo de postura, fazer a lei funcionar bem e retirar o Brasil, o Amazonas e Amazônia do mapa dos países mais violentos contra as mulheres”.

Ivânia avalia que parcela expressiva das mulheres e da própria sociedade ainda desconhecem esse instrumento de combate à violência doméstica. Para ela, no Amazonas, continuamos necessitando de um pacto amplo e determinado para a lei  alcançar o Amazonas profundo, todos os municípios, as comunidades, os diferentes povos que vivem nessa região. “Prevalece um modelo que atua para criar obstáculos na apropriação da lei, como uma prática pedagógica vivenciada nas escolas e nos núcleos familiares”.

Ivania Vieira, doutora em processos socioculturais da Amazônia

Ela aponta que a estrutura de recursos humanos, equipamentos e delegacias é deficiente. “O aparato de justiça está aquém. Quando colocamos a lupa por região e por estado a vulnerabilidade do sistema no item proteção à vida das mulheres aparece em índice elevado. Projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional e outros aprovados nessas casas e nas assembleias legislativas - recordo o ‘PL do Estuprador’ que permanece no Câmara dos Deputados como moeda de troca - compõem o arcabouço da estrutura de violência contra as mulheres vigente em escolas, igrejas, nos locais de trabalho, em casa, na rua”.

Ela Afirma que a luta e a busca por justiça  pelas mulheres mortas e pelas mulheres vítimas de violência doméstica é um grito.

“Todo dia mulheres descobrem a razão para ir às ruas e exigir que o Estado brasileiro e os governos, o judiciário, o legislativo cumpram as suas responsabilidade. Também a sociedade que pactua com essa violência. O avanço está no trançado das lutas diárias das mulheres”.

Lei encoraja denúncias

A coordenadora do Fórum Permanente das mulheres de Manaus, Francy Júnior disse que a lei fez crescer o números de casos de violência, mas isso se deve à segurança e proteção que a lei trouxe para se fazer a denúncia.

“Muitas mulheres passaram a se sentir mais encorajadas a denunciar agressões devido à maior proteção e amparo legal oferecidos”, destacou a ativista.

Entre os avanços apontados por Francy Júnior estão a criação das delegacias da mulher, juizados de violência doméstica e familiar contra a mulher, além de varas especializadas,a adoção de medidas protetivas de urgência, como a proibição de contato do agressor com a vítima e seu afastamento do lar.

Além disso, a ativista ressaltou o aumento nas campanhas de conscientização sobre violência doméstica, tanto por parte do governo quanto de organizações não governamentais, o que ajudou a aumentar a visibilidade do problema e a mobilização social.

“Foram aprovadas outras legislações complementares, como a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015), que qualificou o homicídio de mulheres por razões da condição do sexo feminino, destacando ainda mais a gravidade da violência de gênero”, acrescentou Júnior.

Francy Júnior, coordenadora do Fórum Permanente das mulheres de Manaus

Apesar dos avanços significativos, a ativista disse que faltam melhorias de efetividade em alguns pontos estabelecidos em lei. “A Lei Maria da Penha prevê a criação de centros de atendimento integral e multidisciplinar às mulheres vítimas de violência. No entanto, a quantidade desses centros é insuficiente e sua distribuição é desigual pelo país, com uma concentração maior nas capitais e grandes cidades. Aqui no Amazonas deveriam pelo menos ser criadas uma em cada calha”, ressaltou.

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