ORÇAMENTO

Discurso emocionado expõe impasse orçamentário da Defensoria Pública do Amazonas

Rafael Barbosa se emocionou ao defender mais investimentos para ampliar o atendimento no interior, enquanto a instituição permanece sem reajuste no orçamento previsto para 2027

Omar Gusmão
online@acritica.com
27/07/2026 às 17:44.
Atualizado em 27/07/2026 às 17:44

O discurso e as lágrimas do Defensor Público Geral têm origem na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 (Foto: Junio Matos/AC)

Em seu discurso de boas-vindas aos novos colegas, durante a cerimônia de posse dos defensores públicos Arthur Santana Silva e Geovanna Pinheiro da Silva Moura, aprovados em concurso em 2025, o Defensor Público Geral, Rafael Barbosa, se emocionou e chegou às lágrimas ao declarar que o acesso à Justiça no interior do Amazonas depende de um orçamento compatível com as atividade desenvolvidas pela Defensoria Pública do Estado (DPE-AM) nos municípios.

Os dois novos defensores atuarão no interior do estado, contribuindo com o acesso à Justiça para pessoas em vulnerabilidade, em municípios mais distantes da capital. Daí a menção de Rafael Barbosa à necessidade de um orçamento forte para a interiorização dos serviços da DPE-AM.

“Nenhum direito fundamental se concretiza sem instituições fortes. Não existe acesso à justiça sem orçamento, não existe presença do interior sem investimento. Não existe cidadania plena quando a Defensoria que precisa escolher entre vencer ou simplesmente sobreviver”, declarou o DPG no trecho do discurso que em engasgou, chegou às lágrimas e foi muito aplaudido pelos presentes.
“Essas são matérias que possuem reflexo na vida de cada cidadão amazonense e na carreira que hoje vocês iniciam. Arthur e Geovanna, sejam bem-vindos à Defensoria Pública do Amazonas e espero que vocês consigam se emocionar”, concluiu o Defensor-Geral Rafael Barbosa.

O discurso e as lágrimas do Defensor Público Geral têm origem na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027, aprovada no dia 22 de junho deste ano pela Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM). Enquanto o Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) e o Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM) foram contemplados com reajustes em seus repasses, a DPE-AM, ficou de fora da rodada de reajustes e permanece com 1,6% da receita do estado, mantendo-se como a instituição com menor participação orçamentária entre os órgãos do sistema de Justiça do Amazonas. 

O TJ-AM foi contemplado com um aumento em seu duodécimo (repasses mensais do orçamento) de 8,31% em 2026 para 9% da Receita Tributária Líquida em 2027. Já o percentual da Receita Tributária Líquida que o MP-AM receberá mensalmente em 2027 foi elevado de 3,6% para 3,85%. 

Distribuição injusta

“Eu vou ser bem sincero: a Defensoria ficou muito impactada com a distribuição do orçamento que foi feita esse ano. Eu, de fato, não esperava que a Defensoria fosse o único órgão não contemplado na distribuição desse orçamento, até porque é de conhecimento de todas as autoridades do Estado que a Defensoria ainda não está plenamente no interior do Amazonas e que para que isso aconteça é necessário que existam investimentos”, afirmou o DPG, Rafael Barbosa.

Ele pontuou que o atendimento no interior não acontece sem um investimento, porque são necessários instrumentos para possibilitar que defensores e servidores se desloquem para o município, fiquem em base lá e possam atender a população. 

“Então, de fato, a Defensoria ficou muito frustrada com essa distribuição. Mas o nosso compromisso é, acima de tudo, com o povo do Amazonas. E a gente vai ser criativo, vamos continuar com a criatividade, porque a nossa missão não pode encontrar fim no primeiro obstáculo que aparece”, enfatizou o DPG.

Rafael Barbosa, defensor público geral (Foto: Junio Matos/AC)

Controvérsias

Presente à cerimônia de posse, o presidente da ALE-AM, deputado Adjuto Afonso (União), justificou na  queda de arrecadação do governo do estado a impossibilidade de aumento de repasses para a DPE no ciclo atual.  Ele também afirmou que há abertura para negociações futuras referentes ao orçamento de 2028. 

“A gente sabe que a arrecadação caiu. Isso é notório, mas nada impede que se possa pensar nisso para o ano que vem. Acho que a Defensoria merece. O defensor é o advogado do pobre que está lá no interior. Se não tiver o defensor, certamente o pobre não tem como ter as suas reivindicações atendidas”, disse Adjuto Afonso.

O presidente da ALE-AM lembrou que já houve um aumento no orçamento da DPE-AM no passado, provavelmente se referindo a 2020, último ano que em que o duodécimo foi reajustado.  “A Defensoria já teve um orçamento bem menor e nós já aumentamos na Assembleia, mas nada impede que a gente possa analisar isso para o ano que vem”, declarou.

Consultado pela reportagem, o doutor em Direito Constitucional Alessandro Braga afirmou que é possível, sim, alterar a LDO antes da votação da Lei Orçamentária Anual (LOA) no final do ano. “Sim, é possivel, desde que por outra Lei, não por emenda, já que a emenda somente se refere ao processo legislativo, antes da entrada em vigor. Existe um debate se a iniciativa dessa Lei que altere a LDO seria de iniciativa exclusiva do Governador, em virtude da natureza da matéria orçamentária”, explicou.

Atuação

Os novos defensores empossados Arthur Santana Silva e Geovanna Pinheiro da Silva Moura atuarão no interior do estado, mas ainda não sabem em que municípios vão atuar. O que se sabe é que serão alocados em um dos 35 municípios do interior onde a DPE-AM tem unidades físicas instaladas. Será realizado um concurso de remoção com o qual os defensores mais antigos de casa vão escolher para onde se mudar. Só então os novos defensores saberão para onde vão.

Curiosamente, nenhum dos dois novos defensores é amazonense. Arthur Santana Silva é de Goiás e Geovanna Pinheiro da Silva Moura é de Rondônia. Arthur, até agora, só conhece Manaus e Geovanna já mora no município de Apuí e conhece aquela região ao sul do Amazonas. Ambos passarão por um curso de formação antes serem enviados às respectivas comarcas onde irão atuar.

Os novos defensores empossados Arthur Santana Silva e Geovanna Pinheiro da Silva Moura atuarão no interior do estado (Foto: Junio Matos/AC)

“Eu conheci o estado no ano passado quando comecei a realizar as provas para o concurso da Defensoria. Foi um concurso extremamente concorrido e nessas viagens que eu fiz para cá, foi oportunizado a mim conhecer um pouquinho, principalmente de Manaus. Eu ainda não tive a oportunidade de conhecer o interior, mas estou bastante ansioso para isso”, afirmou Arthur.

Natural de Porto Velho, Rondônia,  Geovanna diz que já escolheu o Amazonas como o seu lugar. “O Amazonas é o meu estado de coração porque eu já estou morando aqui há um ano. Já conheço bem a região do Apuí, eu estou morando lá. O interior do Amazonas é desafiador. Isso é algo bem esclarecido entre a gente, mas o que chama a atenção para trabalhar é a possibilidade de transformar a vida das pessoas mesmo”, revelou. 

Esta é a terceira posse realizada em quatro meses pela DPE-AM, totalizando 9 novos membros empossados desde abril, todos aprovados no 5º concurso público para a classe inicial da carreira de Defensora e Defensor Público do Estado (4ª Classe), realizado em 2025.

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