Entrevista

Eleições: ‘A estiagem é o nosso maior desafio’

Operação eleitoral mobiliza 48 mil pessoas e monitora 78 comunidades isoladas para evitar falta de urnas durante a estiagem

Omar Gusmão
12/07/2026 às 09:28.
Atualizado em 12/07/2026 às 09:28

Assessor de Gestão de Eleições do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), Marcelo Sussuarana Lira detalha como está sendo preparada a estrutura com orçamento estimado em cerca de R$ 30 milhões (Foto: Jeiza Russo/A CRÍTICA)

Organizar uma eleição no Amazonas vai muito além da instalação de urnas e da convocação de mesários. A cada pleito, a Justiça Eleitoral do Estado monta uma operação que mobiliza cerca de 48 mil pessoas, distribui aproximadamente 9 mil urnas eletrônicas pelos 62 municípios e enfrenta desafios que vão da imensidão territorial ao regime dos rios. Para as eleições de 2026, o planejamento ganhou um componente extra de preocupação: a previsão de uma estiagem severa, que pode exigir mudanças na logística, ampliação do uso de aeronaves e antecipação de ações para evitar o isolamento de comunidades no interior do Estado.

Em entrevista ao A CRÍTICA, o assessor de Gestão de Eleições do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), Marcelo Sussuarana Lira, detalha como está sendo preparada a estrutura com orçamento estimado em cerca de R$ 30 milhões para garantir a realização do pleito, explica o papel da nova Assessoria de Gestão de Eleições (AGEL) e aborda os principais desafios da operação eleitoral em um dos estados mais complexos do país do ponto de vista logístico.

Servidor do TRE-AM desde 1996, Sussuarana construiu sua carreira na área de logística e organização das eleições. Atuou na Secretaria de Tecnologia da Informação até 2024, onde ocupou os cargos de chefe da Seção de Logística, coordenador de Logística e coordenador de Cadastro e Eleições. Desde janeiro de 2025, está à frente da AGEL, unidade criada para integrar o planejamento e a execução das diversas etapas que envolvem a realização das eleições no Amazonas.

Qual é o orçamento previsto para a realização das eleições de 2026 no Amazonas? Houve aumento em relação ao pleito anterior?

O orçamento é basicamente o mesmo. Nosso orçamento é muito balizado pela logística. Então, em mais de 50% do orçamento a gente lida com contratos de logística. O orçamento gira em torno de 30 milhões de reais. Quando se fala logística é contrato de transporte de urnas, contrato com aviões, mesmo para transporte de pessoal, contrato de pessoal para transmissão de urnas, de resultados e tudo mais. Isso daí vai girar em torno de 14 milhões de reais. Certo.

Exatamente como esse orçamento é distribuído logística, pessoal, transporte? Qual é a porcentagem para cada?

A gente vai fazer pagamento de mesários em Manaus e na sede dos municípios por Pix. Antes, a gente comprava alimentação e entregava, hoje a gente vai passar Pix. Então, a gente vai pagar R$ 65 por mesário na capital, em Manaus, e na sede dos municípios por Pix. Por que a gente não faz isso na zona rural dos municípios? Porque na zona rural o pessoal sai dois, três dias antes. A gente tem que fazer rancho mesmo, não tem jeito. Não tem como a gente pagar para o cara comprar lá na comunidade. Transporte, a gente está pensando em algo em torno de R$ 6 milhões. Pessoal, R$ 8 milhões. Alimentação também em torno de R$ 6 milhões. E aí tem um contrato de avião que vai a R$ 1,2 milhão também, que a gente contrata avião aqui para transporte de pessoal emergencial, que a gente não consegue porque a nossa malha aeroviária aqui está bem reduzida.

Qual é a dimensão da operação eleitoral no Amazonas em números? Nos 62 municípios, quantos locais de votação, urnas eletrônicas e eleitores estão envolvidos?

Nos 62 municípios, são 2 milhões e 800 mil eleitores. A gente tem 8 mil, vamos arredondar para 8 mil sessões, é um pouquinho mais que isso, 4 mesários por sessão, são 32 mil mesários. Quando a gente pensa em locais de votação, a gente tem um total de 1651. Só de locais de votação rural são 696. Além dos 32 mil mesários, a gente tem, em média, por local de votação, mais dez colaboradores. Então, vezes 1.600 dá 16 mil. A gente já tem 48 mil. Aí tem os policiais que são deslocados, tem forças federais que são deslocados, que esse número a gente não vai ter porque são além do TRE. Mas, só de pessoal para fazer a eleição no dia, lá na sessão eleitoral, no local de votação, são 48 mil pessoas. Então, assim, é um quantitativo gigantesco de gente, a gente não tem como fazer isso sozinho.

O Amazonas é considerado um dos estados mais desafiadores do país para organizar eleições. Quais são hoje os principais gargalos logísticos identificados pelo TRE?

A nossa geografia já é um gargalo logístico, por assim dizer. Além da geografia, o regime das águas é um gargalo logístico. Além do regime das águas, a data das eleições é um gargalo logístico, porque é justamente no pico da estiagem. Mas além de tudo isso, a gente tem o El Niño, que está vindo feroz. Na reunião ontem (terça-feira), o secretário de Defesa Civil falou que, de fato, as temperaturas vão aumentar, as precipitações vão reduzir e a gente pode ter um cenário parecido com 2024. Não cravou, mas é o que a gente está acompanhando. Esse é o nosso principal gargalo.

E como é que a gente resolve isso? Em análise de risco, ou a gente elimina o risco, ou a gente aceita o risco, ou a gente mitiga o risco. A gente vai ter que mitigar alguns e vai ter que aceitar outros. Então o que a gente vai fazer? A gente tem contratos de convênio que o TSE faz com o Ministério da Defesa, por exemplo, para emprego de aeronaves em localidades de difícil acesso. Aquelas localidades que são 30 horas de barco para chegar. E, eventualmente, quando seca o rio, não se consegue chegar. Aí, há a mistura dos modais. Eu vou de barco, depois eu pego uma voadeira, depois eu pego uma rabeta, depois eu pego as minhas pernas e caminho. Então tem múltiplos modais também.

Quando eu falo em aceitar o risco, é que às vezes, por exemplo, na eleição de 2024, a gente não teve nenhum local de votação não instalado, que não funcionou. Mesmo com a pressão. Pior estiagem da história. Então todas as sessões funcionaram nos locais de votação designados no planejamento, a gente não trocou o local de votação. Não, todos funcionaram e é o que a gente pretende fazer esse ano também. Para isso a gente vai aumentar o número de aeronaves se precisar, a gente vai aumentar o orçamento se precisar. Eventualmente, os colegas lá na ponta dos cartórios vão alterar os modais que vão usar. A gente vai alterando os modais até comportar.

Isso já está no planejamento? Quanto do planejamento teve que ser, ou está tendo que ser mudado em função da previsão dessa estiagem mais severa do que usual?

Eu posso te dar como exemplo esse convênio do TSE, que é o que mais encarece o nosso custo, não custo do TRE do Amazonas, o custo do TSE, que é quem repassa, não sai do nosso orçamento, esse não está nem dentro do nosso orçamento porque o custo do voo de helicópteros das forças armadas é altíssimo. Mas, por exemplo, hoje o nosso planejamento é para 49 comunidades serem atendidas por helicópteros, mas em 2024 foram 78, praticamente dobrou, quase dobrou. Está no horizonte que a gente aumente esse número de comunidades atendidas. Ainda não mudamos. Além de 78 eu acho que a gente estressa o esforço das Forças Armadas, eles não têm equipamento para atender, porque eles atendem todo o Norte. Então, o nosso teto, que a gente já experimentou em 2024, são 78 comunidades. 78 comunidades dentro do universo de 650 é um pouquinho mais de 10% e a gente sabe que tem outras situações.

Já tem alguma previsão de localidades onde as urnas vão precisar sair antes por causa da estiagem severa?

Elas não saem antes, mas a gente altera o tipo de embarcação, entendeu? Porque a gente não tem como locar aeronave para todo canto porque não tem aeronave e porque nem todo canto vai conseguir receber aeronave. Então, por exemplo, tem aeronave para Lábrea porque no Purus tem cinco comunidades em Lábrea que a gente pousa no rio, a gente consegue, com o hidroavião, pousar. As comunidades Aldeia Caçauá e Riozinho são duas comunidades indígenas que são distantes de Nhamundá. Tem um rio que passa na frente mas o rio é cheio de pedras. Não dá para pousar um hidroavião, então tem que colocar um helicóptero lá. Outra solução que a gente tem no transporte das urnas, a gente adicionou uma fase que é a fase do município até o local de votação. Essa fase era feita pela zona eleitoral direto. A gente está trazendo para a gente, pegando uma contratada grande e ela vai fazer a gestão desse envio terceirizado.

Existe um plano de contingência caso o nível dos rios fique abaixo do esperado durante o período eleitoral?

A gente não sabe exatamente como vai ser. Observando os gráficos no site da defesa civil tem o panorama hidrometeorológico do estado e a gente pode fazer comparações anuais do nível da de cada calha do nível do rio em cada calha e o que a gente observa que começa agosto e essa essa curva do gráfico ela começa a embiocar bem forte em agosto. A gente vai começar a fazer consultas às zonas eleitorais para saber quais locais são críticos e qual é a opção para resolver. Basicamente vai ser isso, vai ser mudança de modal, antes eu ia de barco, agora eu vou ter que ir de voadeira então vou contratar mais voadeira, incrementa custo. Vai ter local que chegava de voadeira, de bajara, de rabeta, que são aquelas menorzinhas chegava de voadeira mas não chega de voadeira, chega só a 1km do local, o resto a gente anda. A gente começa a fazer essas consultas em agosto. Em setembro, a gente deve fazer uma segunda e aí a gente fecha o nosso plano para essas situações mais complicadas.

Qual é o principal desafio que o TRE-AM vislumbra hoje para essas eleições?

Certamente é a estiagem. A gente tem muita dificuldade para mandar equipamentos para o interior. E se a gente tiver uma estiagem severa, essa dificuldade vai aumentar. Além disso, a gente tem calendários que são bem complicados de cumprir. Por exemplo, a gente precisa mandar a lista onomástica. A lista onomástica é a lista de todos os candidatos com os nomes que ficam disponíveis para o eleitor na urna eletrônica. Lá na cabine de votação. Ah, esqueci o nome do candidato. Tem lá por ordem alfabética, pelo número e tudo mais. Essa lista é gerada após o fechamento do registro de candidatura. O registro de candidatura é onde estão registrados todos os candidatos e tudo mais. Quando é que é feito isso? 14 de setembro. A gente tem que mandar imprimir. A gente tem o prazo do fornecedor para imprimir essa lista para mandar para todos os municípios antes de 4 de outubro. A gente não tem tempo hábil pra fazer isso. E é um prazo que é normatizado. Ninguém pensa em como fazer isso no Amazonas. Enfim, mas a gente resolve, a gente dá um jeito de mandar.

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