Para A CRÍTICA, ex vice-governador diz que seu grupo político viu em Roberto Cidade maior força política, essencial nas eleições deste ano
(Foto: Junio Matos)
O ex-governador Tadeu de Souza (PP), que abriu mão de nove meses no comando do Amazonas para tentar uma vaga de deputado federal, afirma que a estratégia foi pensada para preservar a capacidade de articulação do seu grupo político a partir do governo estadual e nas eleições de 2026, quando a gestão da vez costuma ser o alvo preferencial de adversários.
Na primeira entrevista exclusiva após deixar o cargo, ele negou ameaças a sua governabilidade caso assumisse a função, mas destacou que deputados com quem precisaria lidar na Assembleia Legislativa terão candidatos ao governo nas eleições deste ano, o que possivelmente os levaria à oposição.
“O que estava ali não se tratava de quem confia em quem, não era crise de desconfiança, mas quem tinha condição concreta de garantir a continuidade, essa segurança e capacidade de articulação imediata com o pessoal do interior, com os vários segmentos ideológicos, na força partidária, na Assembleia, e isso o Roberto tem”, disse.
Ele também negou ter firmado acordo com o ex-prefeito David Almeida (Avante) para assumir o governo após eventual renúncia de Wilson Lima e, assim, preparar o terreno para o ex-aliado. Nos bastidores, esse plano circula desde a eleição de 2022. “Eu me incomodava muito de ser visto como uma chave liga-desliga”, afirmou. Confira a entrevista completa.
O anúncio da sua renúncia ocorreu há menos de uma semana. Como está sua rotina agora?
Virou de ponta a cabeça. Eu estava seguindo um caminho e estou refazendo um cálculo, recalculando a minha bússola, estou assim. Eu não recuei, fiz um reposicionamento, é o que eu falo. Para mim, não é fim. Para mim, é transição. Eu estou me projetando para algo maior.
Que conversas está tendo agora e com quem?
Eu dialogava muito com lideranças do interior, estava me formatando, fazendo aliança para realizar a minha pré-candidatura ao governo, e muitas dessas lideranças que têm admiração, simpatia, um carinho por mim, muitos já tinham candidatos a deputado federal, senador, e me visualizavam para o governo. Agora muitos estão querendo entender. Antes dessa entrevista, eu interrompi uma reunião com vereadores justamente para contextualiza-los sobre como tudo aconteceu.
Quando comentou a sua renúncia na coletiva de segunda-feira, o senhor disse que fez isso para manter a estabilidade institucional. Quem estava ameaçando?
Quando a gente fala da estabilidade, eu não estou falando que se eventualmente eu assumisse, eu traria a instabilidade. O que é fato, e eu acho que o governador Wilson Lima tratou desse assunto e depois foi mal interpretado, é no sentido de saber que o nosso grupo unido, tomando decisão em conjunto, e pela capacidade do Roberto de ser alguém que está há muito tempo no parlamento, três mandatos na presidência [da Aleam], tem uma liderança forte no interior e o principal, tem capacidade imediata de articular politicamente, porque ele tem convivência íntima com todos os deputados.
Imagina, por exemplo, um deputado de oposição como o Wilker Barreto. Ele [Roberto] tem uma ascendência sobre o Wilker. Eu ia pegar essa assembleia, que tem quatro deputados do PSD, partido que eventualmente vai ter um candidato a governador. Três deputados do PL que devem ter candidata a governadora. Então, foi isso. Não vou dizer que foi falta de confiança.
O senhor não teria governabilidade, é isso?
Governabilidade eu teria, mas a gente optou por manter, que não tivesse nenhum tipo de ruído em relação a essa capacidade imediata de articulação política. Quer queira, quer não, por mais que eu seja alguém técnico, o Roberto ostenta essas conexões, esses vínculos, tanto com o Parlamento como com o interior.
O senhor sofreu ameaças, possibilidade de impeachment ou algo do tipo?
Não, jamais. Eu acho até natural que as pessoas tenham essa visão, mas em nenhum momento teve nenhum tipo de interesse não republicano. A minha tomada de decisão foi muito consciente, alimentada por essa decisão de maneira colegiada.
A imprensa noticiou que antes de renunciar o senhor teve uma conversa com o governador Wilson Lima. Como foi e como concluiu pela renúncia?
Na verdade, a conversa com o governador estava tendo há muito tempo. A gente conversa praticamente todos os dias. Eu sei que nesse momento as pessoas especulam muito, você vê um excesso, mas a minha trajetória sempre foi marcada por independência. Eu demonstrei isso, inclusive, quando saí do outro grupo. Sempre muito transparente, e essas insinuações de falta de articulação, de fraqueza, geralmente aparecem para quem não tem nenhum argumento político forte, quando isso deveria ser visto, o meu comportamento, como alguém desapegado, desprendido, sem vaidade, que é alimentado pelo espírito de grupo. Muita gente distorce para qualquer aposta no conflito, na criação de narrativas.
Eu poderia ter escolhido um caminho que é mais simples, que era permanecer na linha sucessória mais nove meses, e, de repente, ser tragado pelo esquecimento. Eu não fiz a conveniência pessoal, eu fui pelo caminho que é mais difícil, que é o caminho de ter responsabilidade. E o cargo que eu ocupava, o tamanho do cargo, exige ter muita maturidade para colocar o projeto que é de Estado, que é longevo, acima de qualquer projeto individual.
O senhor disse que conversa com o governador todos os dias. A renúncia dele era esperada, mas a sua foi surpresa. Quem trouxe a ideia e quando? Foi ele?
Foi muito por conta dessa mudança partidária, exatamente na janela partidária que foi na sexta, no sábado, que o deputado vai para um lado, vai para o outro. Foi muito nessa leitura. Na sexta-feira não foi a primeira vez [que falou-se de renúncia]. Isso já estava sendo formatado há algum tempo, acho que umas duas semanas atrás. Começou embrionária, depois começamos a conversar.
Mas foi o governador que trouxe a ideia?
Também. Eu não sei exatamente quem foi. Eu fui alguém que recebeu as engrenagens, a contextualização. Eu recebi e entendi.
Pode detalhar a conversa que teve com o governador? Qual foi o ponto do diálogo que desembocou na decisão da renúncia?
Eu não tenho como detalhar, considerando que ela tem uma certa complexidade, porque foram várias conversas, mas uma coisa é certa. Eu tomei a minha decisão não por conveniência. O tempo vai mostrar, se Deus quiser, que eu agi com maturidade, pensando na estabilidade institucional, na previsibilidade da decisão.
Mas o previsível era que o senhor assumisse o governo.
Essa é a visão superficial. A gente tomou uma decisão de grupo, coletiva. Depois de muito diálogo comigo mesmo, depois de pensar, eu tomei essa decisão.
O senhor sai da possibilidade de um cargo garantido no governo para tentar a vaga de deputado federal. Qual cálculo político fez?
Eu não tomei essa decisão pensando em projeto individual. Eu poderia muito bem continuar no cargo, me viabilizando, tentando trazer para mim um protagonismo, mas avaliei muito pelo compromisso futuro. O cargo em si não define a liderança, a sua fortaleza, uma capacidade de atrair, de ser protagonista. O que te rotula como alguém que tem firmeza, grandeza, é exatamente a forma como age nesses momentos críticos.
Eu poderia preferir ficar nove meses como vice-governador, [mas pensei] opa, pera aí, posso contribuir muito mais tendo mandato no Congresso. As minhas pautas são conectadas com demandas nacionais, eu posso trazer o Amazonas para esse ambiente de ser mais visível na tomada de decisão do governo federal, nas engrenagens do eixo econômico, no Sudeste. Acho que me visualizei nessa capacidade de contribuir mais assim.
A gente costuma ver esses cargos como hierarquia, embora essa não seja uma lógica exata, mas não parece que o senhor retrocedeu em níveis?
Eu acho que a política não mede a gente pelo cargo que ocupa, mas exatamente pela capacidade de tomar decisões que são difíceis. Eu saia menor desse contexto se eu tivesse me movido por um interesse individual, de repente até invisível, até as pessoas não iam notar. Mas eu coloquei o interesse do Amazonas acima de qualquer projeto pessoal.
O senhor acha que pelo fato de não ser originalmente do campo da política, mas um técnico, influenciou isso?
Acho que influenciou também. O que estava ali não se tratava de quem confia em quem, não era crise de desconfiança, mas quem tinha condição concreta de garantir a continuidade, essa segurança e capacidade de articulação imediata com o pessoal do interior, com os vários segmentos ideológicos, na força partidária, na Assembleia, e isso o Roberto tem. A minha trajetória era diferente da política tradicional. Eu tenho formação jurídica, mais institucional, mais com foco em resultado e responsabilidade da gestão. Eu ficava muitas vezes distanciado, talvez seja um pecado da minha parte, dessa [falta de] interação mais intensa com as forças políticas.
Resumindo, o senhor tomou essa decisão porque seu grupo político entendeu que o Roberto Cidade tinha maior capacidade de governar pela experiência e relações políticas dele. Isso?
Capacidade de governar eu também tenho. Previsibilidade de decisões, estabilidade funcional, eu preenchia todos os requisitos. Agora, não querendo comparar, mas o momento político que a gente vai viver nos próximos seis meses, com intenso debate, com agressão, o Roberto tem essa capacidade de articulação mais intensa, mais conexão, e isso digo naquele momento específico que tomamos a decisão, visualizando esse cenário de confronto.
O senhor fazia parte do grupo do prefeito David Almeida e mudou para o lado contrário. O que aconteceu?
Eu sempre tratei isso com muita transparência. Lembro que quando fui fazer a mudança partidária, algo que eu já vinha ensaiando durante todo o ano de 2025, todos pegaram vários depoimentos meus, e sempre falei que estava conversando com diversos segmentos. Não sei se você perguntou sobre amizade, mas eu sempre soube separar as coisas. Eu nunca tratei amizade como instrumento político, nem como condicionante para uma decisão, porque são coisas que impactam um estado inteiro.
Não foi nenhum tipo de conflito pessoal, mas divergências de caminho mesmo, isso faz parte da política.
Mas em que momento divergiu, porque o que se sabe é que o senhor foi indicado para ser vice-governador já com esse plano de se tornar governador para abrir caminho para uma candidatura do David Almeida ao governo.
Eu nunca tive essa conversa. Eu nunca deixaria me colocar numa coisa que, inclusive, me ressente. Essas especulações, como se eu fosse um abajur que está sendo colocado e vai ser ligado em determinado momento.
O senhor nunca acordou isso com o prefeito?
Nunca. Eu sempre questionei e tive muito interesse em contrapor essas especulações, porque isso me diminuía no cargo, como liderança. Eu me incomodava muito de ser visto como uma chave liga-desliga.
Isso explica o rompimento com ele?
Essa pergunta é importante, porque eu nunca rompi com ninguém. Como eu falei, sempre fui muito transparente. Comuniquei à presidência do Avante, comuniquei ao diretório estadual, que era do prefeito, fiz tudo de forma consciente. Mas, imediatamente, de forma desarrazoada e inesperada, o prefeito começou com um processo de me difamar, de me preconizar, e fez o mesmo com o governador. E assim, sem motivo. O David que eu conheci, que inspirou pessoas dentro do grupo dele, como eu, eu não conheço mais. Eu nunca fui tão desrespeitado numa relação política, numa relação pessoal.
O senhor está seguro da decisão que tomou? Não tem medo de se arrepender?
Eu recebi essa pergunta de pessoas próximas a mim e falo com veemência. Eu tomei essa decisão muito consciente. Ela não foi feita no improviso. O efeito dela e a publicidade pode ter nascido ali, mas foi alimentada por responsabilidade, por diálogo com todos que estavam no entorno.
O senhor está pré-candidato a deputado federal. Com o que pode contribuir e o que foi dito pelo seu grupo político sobre a sua estrutura de campanha?
Eu tenho afiançado pela presidência nacional do partido que vou receber toda a estrutura. Possivelmente vou até, não diria herdar, mas vou entrar no processo de convencimento com as lideranças que estão no entorno do próprio governador interino, Roberto Cidade, que já estava há muito tempo no jogo.
Sobre as contribuições, vejo que a gente tem um problema sério de desconexão logística. O quanto a gente pode, junto ao governo federal, nos órgãos federais, avançar nessa pauta. Temos um fundo de aviação que praticamente o Amazonas não acessa exatamente por falta de articulação. Temos fundos como o próprio FNO, recursos administrados pelo Basa, e que simplesmente 70% desses recursos vão para o Pará e Tocantins. Não chega aqui em ações de crédito para quem precisa, para o setor primário, especialmente.
Vejo um cenário no qual podemos contribuir muito para as discussões nacionais e colocando o Amazonas como protagonista em questões que são locais, mas impactam diretamente o Brasil. A gente tem esse novo eixo estratégico-logístico Arco Norte, temos essas ligações de produção de energia sustentável com países que estão explorando, Suriname, Guiana, o próprio Amapá, a capacidade que temos com o Polo Industrial com bens ligados ao setor industrial. Temos um campo grande para tirar o Amazonas de uma visão periférica e coloca-lo numa visão estratégica, de futuro.